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Mares e Lagoas

          Sou apaixonada por pessoas profundas de sentimentos, as quais em quem sinto que poderia nadar, me inundar, por vezes até me afogar. Com o tempo passei a ver os outros como mares e lagoas. As lagoas são pequenas, aventuro-me em pensar que me sentiria satisfeita por nela nadar, já que distâncias menores me trariam pouco desgaste. Por alguns anos mergulhei na mesma lagoa, os saltos que dei nela foram inesquecíveis – até tornarem-se esquecíveis – e a água parecia ser translúcida. Parecia.Por um tempo observei como ela me limitava, cansava-me de nadar sempre na mesma direção. Meus braços – já doloridos – imploravam por continuar, pois era meu vício, meu âmago ansiava alimentá-lo. Enquanto via beleza na lagoa, ela via beleza em alguém que se interessava em movimentar suas águas nunca antes experimentadas por outro alguém. Resolvi não dar nome a esta lagoa, não faz sentido, pois não mais existe. É fato que permaneci nela, mas demorei para perceber o quão rasa era. Por mais que me esforçasse, parecia que jamais poderia mergulhar por inteiro. Eu até me enganava, culpava as circunstâncias do tempo, até mesmo o calor que minha pele estimulava nas águas. Seria demais? Sempre me questionava. E adormecia ali mesmo, questionando-me. Apesar de tudo, as águas ali eram calmas. Tornaram a ser depois que parti, penso eu. Penso também que eu fora o momento que fazia aquelas águas se debaterem. Minha intensidade, impulsividade e hiperatividade dava um sentido àquelas águas que não foram a elas originalmente concebido.Eu corrompia a atmosfera daquele lugar. Pergunto-me como Deus assim o permitia? Que eu tanto adulterasse sua perfeita obra-prima. Um lugar cuja essência cintilava paz, feito para acalento da inconspicuidade e do silêncio. Por essa razão me apaixonei. Amei. De corpo e alma. Mais de corpo. Creio que, por um vago momento, de alma. Hoje não sei como está aquela lagoa, nem mesmo lembro que um dia banhei meu corpo nela. Não sei mais chegar lá, e se me perguntam, me esforço para recordar as lembranças mais marcantes que restaram na memória. Imagino que deseja saber quais são e que se surpreenderá com a resposta. Lembro-me dos momentos de ira, quando a transformei em uma lagoa fervente. A água queimava, ardia em meus poros. Ah... como posso me esquecer daquela discussão? E de tantas outras, das mais irascíveis, obviamente. O calor da água me espantou, ironia pois eu mesma havia provocado. Aliás, fora o único momento que vi aquelas águas se aproximarem da temperatura do meu corpo, do meu signo, até que eu não suportasse mais. Eu admirei aquele momento, excitou-me até. Talvez tenha sido a tentativa mais densa de Deus para que eu abandonasse aquele lugar? De Deus? Não teria sido minha? Engraçado, ontem mesmo passava na televisão algo sobre o lago de sangue Jigoku, no Japão. A paisagem incluía um lago de água vermelha e quente, colorida pelo ferro. Devido ao vapor quente que sai da água e até mesmo do solo, o local ficou conhecido como “inferno”. Percebi o desconforto de minha mãe ao olhar o lago, pedi para que descrevesse seus sentimentos naquele momento. Ela prontamente respondeu: inquietação, agonia, incoerência, repugnante. Me dei conta de minha excentricidade. Minha mente se perguntava quando iria conhecer aquele lugar. Eu não podia ver a hora de me maravilhar com a real presença daquele lugar. Lembrei-me novamente da lagoa fervente da qual me deleitei por alguns anos. Percebi, com o tempo, que sua água na temperatura ambiente, muitas vezes fria, não me interessava. Por isso então gostava de vê-la atingir os cem graus. Que triste ver que aquela pequena lagoa atingia seu ponto de ebulição toda vez que eu agitava suas águas, tornando-se vapor, até que não restasse quase nada. Feliz por ter partido antes de findar suas ínfimas ondas. Como havia dito, sou apaixonada por pessoas profundas de sentimentos, ou como ouso nomear, mares. Não pense que é fácil conhecer mares, eles ficam distantes. Fisicamente em regiões litorâneas, figurativamente, em pessoas que tem tanto a oferecer que transbordam, o que há de convir, é raro de se ver. Transbordar exige esforço, afinal, todos nascemos rasos de conhecimento, de sentimento. Aprendemos a nos preencher com o passar do tempo, ou como diria Rousseau, a nos corrompermos com o passar do tempo, escolhendo o que nos convém e o que nos repele, e ao final do dia somo feitos de escolhas – como diria Sartre –. Em minha mente eu consigo ver este filósofo francês dizer que o amor é uma desilusão, que tudo isso é em vão, e duas pessoas que se amam, em verdade são duas pessoas que sugam a liberdade uma da outra, reciprocamente dilapidam suas existências. Por que Sartre diria isso? Seria audácia minha dizer que ele fora profundamente magoado, a ponto de resumir o amor – sentimento divino – a isso? E também não seria ele audacioso ao assim fazê-lo? Tenho alegria ao ouvir alguém falar de amor, do que ama, o que o faz sonhar, da gratidão que sente por ter o que tem. Osho teria orgulho de mim, compreendi sua essência. Que diria Jesus Cristo? Compreendi sua existência. Mares me instigam a mergulhar, me envolvo na adrenalina de águas que possam me afogar, caso eu não acompanhe sua imensidão. O medo excita, penso estar pronta. Estou pronta.Sou apaixonada por pessoas profundas de sentimentos, as quais em quem sinto que poderia nadar, me inundar, por vezes até me afogar. Com o tempo passei a ver os outros como mares e lagoas. As lagoas são pequenas, aventuro-me em pensar que me sentiria satisfeita por nela nadar, já que distâncias menores me trariam pouco desgaste. Por alguns anos mergulhei na mesma lagoa, os saltos que dei nela foram inesquecíveis – até tornarem-se esquecíveis – e a água parecia ser translúcida. Parecia.Por um tempo observei como ela me limitava, cansava-me de nadar sempre na mesma direção. Meus braços – já doloridos – imploravam por continuar, pois era meu vício, meu âmago ansiava alimentá-lo. Enquanto via beleza na lagoa, ela via beleza em alguém que se interessava em movimentar suas águas nunca antes experimentadas por outro alguém. Resolvi não dar nome a esta lagoa, não faz sentido, pois não mais existe. É fato que permaneci nela, mas demorei para perceber o quão rasa era. Por mais que me esforçasse, parecia que jamais poderia mergulhar por inteiro. Eu até me enganava, culpava as circunstâncias do tempo, até mesmo o calor que minha pele estimulava nas águas. Seria demais? Sempre me questionava. E adormecia ali mesmo, questionando-me. Apesar de tudo, as águas ali eram calmas. Tornaram a ser depois que parti, penso eu. Penso também que eu fora o momento que fazia aquelas águas se debaterem. Minha intensidade, impulsividade e hiperatividade dava um sentido àquelas águas que não foram a elas originalmente concebido.Eu corrompia a atmosfera daquele lugar. Pergunto-me como Deus assim o permitia? Que eu tanto adulterasse sua perfeita obra-prima. Um lugar cuja essência cintilava paz, feito para acalento da inconspicuidade e do silêncio. Por essa razão me apaixonei. Amei. De corpo e alma. Mais de corpo. Creio que, por um vago momento, de alma. Hoje não sei como está aquela lagoa, nem mesmo lembro que um dia banhei meu corpo nela. Não sei mais chegar lá, e se me perguntam, me esforço para recordar as lembranças mais marcantes que restaram na memória. Imagino que deseja saber quais são e que se surpreenderá com a resposta. Lembro-me dos momentos de ira, quando a transformei em uma lagoa fervente. A água queimava, ardia em meus poros. Ah... como posso me esquecer daquela discussão? E de tantas outras, das mais irascíveis, obviamente. O calor da água me espantou, ironia pois eu mesma havia provocado. Aliás, fora o único momento que vi aquelas águas se aproximarem da temperatura do meu corpo, do meu signo, até que eu não suportasse mais. Eu admirei aquele momento, excitou-me até. Talvez tenha sido a tentativa mais densa de Deus para que eu abandonasse aquele lugar? De Deus? Não teria sido minha?Engraçado, ontem mesmo passava na televisão algo sobre o lago de sangue Jigoku, no Japão. A paisagem incluía um lago de água vermelha e quente, colorida pelo ferro. Devido ao vapor quente que sai da água e até mesmo do solo, o local ficou conhecido como “inferno”. Percebi o desconforto de minha mãe ao olhar o lago, pedi para que descrevesse seus sentimentos naquele momento. Ela prontamente respondeu: inquietação, agonia, incoerência, repugnante. Me dei conta de minha excentricidade. Minha mente se perguntava quando iria conhecer aquele lugar. Eu não podia ver a hora de me maravilhar com a real presença daquele lugar. Lembrei-me novamente da lagoa fervente da qual me deleitei por alguns anos. Percebi, com o tempo, que sua água na temperatura ambiente, muitas vezes fria, não me interessava. Por isso então gostava de vê-la atingir os cem graus. Que triste ver que aquela pequena lagoa atingia seu ponto de ebulição toda vez que eu agitava suas águas, tornando-se vapor, até que não restasse quase nada. Feliz por ter partido antes de findar suas ínfimas ondas. Como havia dito, sou apaixonada por pessoas profundas de sentimentos, ou como ouso nomear, mares. Não pense que é fácil conhecer mares, eles ficam distantes. Fisicamente em regiões litorâneas, figurativamente, em pessoas que tem tanto a oferecer que transbordam, o que há de convir, é raro de se ver. Transbordar exige esforço, afinal, todos nascemos rasos de conhecimento, de sentimento. Aprendemos a nos preencher com o passar do tempo, ou como diria Rousseau, a nos corrompermos com o passar do tempo, escolhendo o que nos convém e o que nos repele, e ao final do dia somo feitos de escolhas – como diria Sartre –. Em minha mente eu consigo ver este filósofo francês dizer que o amor é uma desilusão, que tudo isso é em vão, e duas pessoas que se amam, em verdade são duas pessoas que sugam a liberdade uma da outra, reciprocamente dilapidam suas existências. Por que Sartre diria isso? Seria audácia minha dizer que ele fora profundamente magoado, a ponto de resumir o amor – sentimento divino – a isso? E também não seria ele audacioso ao assim fazê-lo? Tenho alegria ao ouvir alguém falar de amor, do que ama, o que o faz sonhar, da gratidão que sente por ter o que tem. Osho teria orgulho de mim, compreendi sua essência. Que diria Jesus Cristo? Compreendi sua existência. Mares me instigam a mergulhar, me envolvo na adrenalina de águas que possam me afogar, caso eu não acompanhe sua imensidão. O medo excita, penso estar pronta. Estou pronta.
    
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Atualizado em: Sáb 9 Maio 2020

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