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A Balada

Yoko não estava tão acostumada a esse tipo de badalação. Chegou em casa tonta, nauseada e muitos passos além daquela linha que separa a felicidade da ressaca. Suas amigas a deixaram na porta e partiram rindo com o taxista que se divertia com as bobagens ditas no banco traseiro.

Em casa, Yoko se esforçou para manter o silêncio. Não queria acordar ninguém. Mesmo sendo maior de idade, achava que pegava muito mal ser flagrada nessa condição pelos próprios pais. Devagar ela tirou a roupa com cheiro de festa e deitou em sua cama. Parecia que estava em uma jangada sobre o mar revolto. Tudo girava, subia e descia.

Embalada pelo movimento começou a lembrar da noite. Nada tinha dado certo para ela. Mas o que tinha dado errado mesmo? Luzes piscantes, música alta e um daqueles drinks coloridos na mão, não tinha como ser diferente. Em pouco tempo um rapaz se aproximou e sorriu. Mesmo não tendo ouvido o que ele disse foi possível entendê-lo perfeitamente. Yoko simplesmente virou as costas e continuou a balançar.

Era um rapaz interessante. Bonito com certeza. Foi com prazer que ela percebeu que ele ainda rondava. Mas ela tinha lido numa dessas revistas que o certo era nunca ceder antes da quarta investida e nunca deixar passar da sexta. Era uma janela estreita, mas ela era esperta.

Com um copo cheio enfeitando cada mão o garoto tentou outra vez. Muito cedo. Yoko aceitou a bebida, mas só ofereceu um olhar lânguido e um sorriso reticente. Com movimentos tímidos e até fora de ritmo ele tentou se encaixar na dança. Mas ela estava elétrica, seria impossível acompanhá-la.

Ao sair do banheiro, Yoko foi surpreendida. O rapaz estava à sua espera. Como era um canto mais calmo, ali ela poderia ouvi-lo. Em poucas palavras ele conseguiu proferir um elogio, manifestar suas intenções e derreter o coração da menina. Mas ainda era cedo. "Nunca antes da quarta investida", era o que passava em sua cabeça. A razão dava todos os motivos: Valorize-se. Instigue-o. Domine a situação. A situação… E logo ela se desvencilhou com certa empáfia. Sabia que estava no "papo" e que era uma questão de mais alguns minutos.

Yoko sentou-se em uma mesa afastada da pista. Sozinha. Pediu mais um drink e esperou o próximo ato. Esperou a quarta investida. Esperou o momento que esperava desde início da noite. E só esperou. Cansou de esperar e voltou à pista, só para perceber que tinha esperado demais. Viu, com o coração batendo fora de ritmo, que o rapaz se atracava com outra garota em uma dança sensual. Viu, finalmente, um beijo. Viu que não era ela quem beijava e nem dançava e percebeu o quão estúpido era o garoto. O garoto?

Não era feita para baladas. A fórmula parecia não dar certo naquele ambiente. O garoto devia ser muito inexperiente, pois faltou muito pouco. Bastava chegar mais uma vez. Só mais uma vezinha. 

Yoko queria ir embora. Mas esperou suas amigas. Não dançou mais. Nunca mais.
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Atualizado em: Qui 14 Nov 2019

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