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Viver virou live

Um elefante furioso perseguindo um carro num safari. Essa foi a cena que vi em um jornal há algumas semanas. As imagens foram feitas por um integrante do grupo de pessoas que estava no automóvel.
Duas coisas me chamaram atenção: a minha suspeita de que fizeram algo para o coitado do elefante a ponto de ele ficar irritado e o fato de que mesmo em situação de risco, as pessoas do carro não largaram os seus celulares em nenhum momento.
Ou estavam apostando na hipótese de ficarem vivas para poder postar tudo nas redes sociais depois, ou já faziam “lives da vida selvagem” ao melhor estilo Richard Rasmussen. Será que somos tão submissos à tentação de querer viver online a todo custo?
Pelo jeito, sim! Situações como essas tem ocorrido com uma certa (e não muito saudável) frequência. Não raro, vemos vídeos de crianças brigando em escolas e outros alunos preferindo filmar ao invés de acalmar os ânimos; gente querendo tirar fotos de pessoas acidentadas para espalhar em grupos do Whatsapp; fotos de xícaras de café, etc, etc, etc...
É sabido que a primeira fotografia de que se tem registro histórico data do ano de 1826. E décadas depois, com a criação da Kodak, o ato de registrar imagens virou produto. Desde então, momentos considerados importantes têm sido retratados ou filmados. Só que a era digital do século XXI ajudou a tornar banal essa necessidade de querer registrar e compartilhar acontecimentos na rede.
O que acontece quando todos parecem estar mais interessados em olhar o mundo através de lentes do que com os próprios olhos?
Sou um grande fã de Red Hot Chili Peppers, e há coisa de dois ou três anos, durante um show na Itália, o guitarrista, Josh Klinghoffer, se recusou a fazer o solo de Californication para filmar os espectadores. Ninguém entendeu nada! A atitude foi um protesto do músico perante ao comportamento do público, que em sua maioria preferia filmar a curtir o espetáculo.
Em um primeiro momento, o achei um babaca ao desrespeitar os fãs. Mas, refletindo melhor, percebi que ele foi um babaca consciente da doença que tem afetado a humanidade atualmente.
De fato, o ser humano está filmando mais e vivendo menos. E o resultado é a diminuição da capacidade de percebermos o que está a nossa volta. Já não ouvimos mais o som dos pássaros ao andar na rua, já perdemos minutos de conversas de boteco para checar mensagens e já viralizamos o uso da tecnologia. Viver virou live.
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Atualizado em: Seg 16 Set 2019

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