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Uma Odisseia na Urbanidade

Se o Ultraje a Rigor ainda fosse uma banda que merecesse o meu respeito, talvez não ficaria com peso na consciência em fazer a analogia a seguir, mas é fato que nunca um verso caiu tão bem para definir um lugar quanto “Daqui do morro dá para ver tão legal”. É o resumo de onde eu estava (isso mesmo, um morro). Só que em vez de vista para o litoral, aeroporto. Outras pessoas também apreciavam aquela visão, a maioria com câmeras ligadas para captar o pouso ou a decolagem dos aviões.
Porém, quando cheguei a essa conclusão nem lá eu estava mais. Típicas “filosofadas” que o eu lírico faz quando se está sentado sozinho em um ponto de ônibus. Neste momento, minha intenção era ir até o Bosque Maia, principal parque de Guarulhos. Tinha que encontrar meu grande amigo, Roberto Andrade, que tem um “carrinho de cachorro quente” naquela região (o Dog da Teté). Após 4 anos, devolveria aquele box de DVDs com a Trilogia do Batman de Christopher Nolan.
Ainda no ponto de ônibus, um catador de entulho passa empurrando com esforço seu carrinho cheio de móveis desgastados pelos cupins. Uma gaveta cai. Faço questão de recolhê-la e devolvê-la ao homem. Fiquei comovido com a sua situação de trabalho em plena 4ª Revolução Industrial (a tecnológica). Por falar nisso, já dentro do coletivo, ao passar pela catraca, ouço o cobrador dizer a uma mulher que não tinha troco. Ela deveria esperar nos bancos da frente “até umas moedas entrar”. Hoje em dia, a maioria dos usuários de transporte público possui cartão eletrônico para poder acessar os ônibus sem ter que realizar pagamento em dinheiro. Fazendo do cobrador um mero espectador, fato que ameaça a profissão. Aliás, não só ela está ameaçada. A tal da nova Revolução tende a acabar com 5 milhões de empregos até 2021.
Olhando para a janela, em uma parada no semáforo, deparo com jovens distribuindo folhetos e se oferecendo para limpar para-brisas. Um deles entra pela porta de trás do ônibus (após consentimento prévio do motorista) com uma mochila cheia de caixas de Suflair. Para passar credibilidade ao seu público, ele diz: “Sou o filho da tiazinha Eliane!”. A impressão que dá é que esta senhora deve ser uma exímia vendedora de doces e que o garoto havia herdado o talento da mãe. Mas sinceramente, nem eu e nem a maioria das pessoas que estavam ali deviam fazer ideia de quem era a “tiazinha Eliane”.
Antes de descer, percebi que existe algo em comum (além da pobreza) entre o catador, os jovens no farol e o garoto vendedor de chocolate: todos trabalham de maneira informal. Uma difícil realidade do país. São 14 milhões de desempregados, 4,7 milhões de desalentados e 37 milhões de pessoas na informalidade.
Ainda com o Tico e o Teco funcionando, estando distraído ao sair para rua, dou de cara com uma lenda urbana. O McDonald’s próximo ao Bosque Maia está em reforma. Anos atrás, muito se brincava nas redes sociais de que ninguém nunca tinha visto uma loja da rede ser construída ou reformada, portanto, elas existiam desde a origem do Universo. Pronto! Quebrei este tabu!
Caminhando pelo parque, várias situações saltam às vistas: crianças brincando no parquinho, meninos jogando bola na quadra (“tira, Gabriel! Não deixa ele passar!”), outras crianças se molhando embaixo de uma fonte (cheiro bom de piscina), dois caras fazendo um clip de funk, enquanto um terceiro filma tudo. E claro, pessoas se exercitando (será que alguém ali sabe que para evitar uma vida sedentária, é necessário dar 10 mil passos por dia?).
Enfim, cheguei ao “carrinho de cachorro quente” de Roberto, devolvo os DVDs e compro um “Dogão”. Começamos a conversar sobre o tempo em que trabalhávamos juntos e das gozações que fazíamos com nosso ex-chefe. Aparece, então, um entregador do Habib’s. Vende para Roberto, pela metade do preço, uma caixa de esfihas que um cliente recusou devido ao atraso na entrega. Foi neste momento que descobri que até o trabalhador formal não está livre de “servicinhos informais”.
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Atualizado em: Dom 23 Jun 2019

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