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Penumbra Sangrenta

- Esta é uma bela floresta durante o dia – comentava Felipe, um homem ruivo vestindo cota de malha cinzenta cobrindo um colete de couro fervido marrom escuro, havia mais seis homens vestindo cota de malha -, porem à noite, até o mais valente dos homens a temem.
- As lendas alimentam o temor – disse Ronaldo, um homem corpulento e roliço de meia idade trajando algo parecido ao de Felipe, porem era o único que usava um manto azulado preso com um broche cinza e dourado -, desde que estejamos fora desta floresta horas antes do por do sol, não há o que temer.
O sol brilhava em um céu de nuvens esbranquiçadas, a luz morna do verão entre as folhas esverdeadas de árvores altas, iluminavam a clareira onde estavam. Um vento leve soprava seguido de um intenso farfalhar de galhos e folhas, juntamente de vozes e o barulho de árvores despencando ao chão em meio a estalos, aqui e ali. Não passava do meio. Esses sete homens eram da guarda de Luiz VI, um rei local. Escoltavam nove lenhadores na ponta ao sul da Floresta da vela negra. Estavam eles, os sete, comendo e bebendo enquanto os lenhadores cuidavam de seus afazeres.
- Dizem que essa parte da floresta está cheia de orcs – disse Govane, um jovem esguio da guarda, ele sorria enquanto os outros o fitavam.
- O sol ainda queima rapaz – disse Ronaldo, deu um trago numa caneca de cerveja escura -, não é uma boa hora para histórias de crianças, deixe para a noite – riu alto.
- É o que ouço por aí – Govane tentava manter um ar sombrio no que falava, mas estava nitidamente tentando disfarçar o riso. - Uma velha senhora quem me contou. Se for verdade ou mentiras, eu não sei.
- Besteira – retrucou Felipe -, não é visto um único orc no sul de vela negra, há mais de cem anos.
- Essa floresta – disse o homem roliço quase se engasgando com um pedaço de queijo -, é antiga, a maldição afasta os animais para o norte e...
- Então o que é aquilo? – disse Govane interrompendo Ronaldo, apontando para o que parecia ser um felino gigante, mas que desapareceu antes do homem roliço ver nada mais que um borrão dissipando como fumaça enegrecida.
- Meus santos deuses – o homem roliço enrugou a testa -, meus olhos me enganam ou aquele bicho, simplesmente, sumiu?
- Sumiu, desapareceu... um Penumbra – disse o ruivo desembainhando a espada -, todas essas coisas. Fiquem atentos! – Gritou.
Alguns dos lenhadores também viram o felino que havia desaparecido diante de seus olhos, mesmo os que não haviam visto coisa alguma corriam hesitantes no espanto geral. Afastavam-se olhando por entre as árvores em direção de onde fora visto animal. Os cavalos dos da guarda e os que puxavam as carroças começaram a se agitar, estavam perto dos que faziam a escolta. De repente o felino surgiu atrás de um dos lenhadores mais afastado a esquerda de onde os da guarda olhavam, o animal afundou seus caninos no pescoço do homem enquanto suas garras da pata dianteira fincavam em seus ombros. Os outros trabalhadores se afastaram aos gritos. Um deles, que estava próximo do lenhador atacado, tropeçou em uma raiz e caiu de joelhos, Felipe de onde observava, viu o felino desaparecer no nada. O lenhador que havia tropeçado quando tentou voltar a correr teve sua coxa direita rasgada violentamente por aquilo que não podia ser visto, o homem caiu no chão urrando de dor quando o felino gigantesco reapareceu por cima de suas costas cravando seus caninos em seu pescoço magricela. Sangue jorrava como fios de cabelos vermelhos caindo-lhe sobre os ombros e manchando suas roupas escurecendo-as. O rosto do lenhador, que ficava azulada, estava repleta de dor, era algo horrível de ser ver, mesmo para um soldado acostumado com os terrores das batalhas.
Alguns lenhadores correram por entre as árvores sumindo ao alcance da visão. Outros tentavam por as carroças em movimento, mas os cavalos trotavam uns para o lado e uns para o outro. O homem ruivo percebeu o roliço tentando subir em seu cavalo as pressas, os outros da guarda estavam ali do seu lado atentos com as espadas empunhadas.
- Ron? – gritou Felipe. - O que esta fazendo?
- O que acha que estou fazendo? – respondeu ele enquanto lutava para se manter em cima do cavalo agitado. – Estou caindo fora desta loucura.
Um garoto de braços torneados pelo trabalho que exercia e um velho homem corriam desajeitadamente vindo em direção das carroças. O garoto tentava manter o idoso de pé. Um dos jovens da guarda, aquele que contou a história sobre os orcs, correu ate eles dois para ajudar.
- Govane, não! – gritou o ruivo.
O felino surgiu em meio ao ar num salto a esquerda do jovem, que com o peso do animal abocanhando sua garganta, as patas traseiras pouco mais de um metro do chão, em um giro fazendo o jovem quase dar um meio movimento circular. Foi um ataque tão feroz que metade do pescoço fora rasgada, quase separando a cabeça do corpo. O homem ruivo percebeu o focinho do animal manchado de sangue de sua vítima. Assim como surgiu em meio ao nada o gigantesco felino desapareceu diante de seus olhos. Felipe estava atento pensando que o animal atacaria a guarda do rei a qualquer segundo, no entanto ele reapareceu pelas costas do velho homem derrubando junto com garoto que o ajudava, apenas podia ver tudo aquilo impotente. O garoto tentou fugir, mas o bicho deu-lhe uma patada tão forte que o fez quase dar um giro completo no ar e se estatelar no chão gritando de desespero e dor.
Os lenhadores que conseguiram fugir, nem o barulho das carroças eram mais possíveis ouvir, o homem roliço ainda podia ser visto tentando subir no cavalo, mas ia desaparecendo ao longe puxando o pobre animal e praguejando. O velho já estava morto e o jovem que tentou ajuda-lo rastejava chorando e gritando, o felino havia desaparecido nas sombras. Felipe não havia percebido que outro da sua guarda se afastara cada vez mais para perto dos cavalos ainda presos nas árvores, quase em um pulo de susto quando ouviu um grito abafado a sua direita e quando olhou pôde ver um de seus homens no chão, o felino gigantesco em suas costas torcendo e apertando o pescoço do rapaz. Estavam a uns sete passos de onde estava o bicho, os outros da guarda iam dando passos cautelosos de para longe enquanto observavam seu colega saltando sangue das narinas, da boca com a língua para fora, a face totalmente roxa e dos olhos esbugalhados fios vermelhos escorriam pelo rosto.
O animal devia ter duas vezes o tamanho de homem adulto, imaginou que o felino poderia ter quatro metros da ponta do focinho a ponta do rabo, talvez mais. Deixou o homem e desapareceu novamente no nada. Quase no mesmo instante sentiu uma brisa morna em seu rosto, presas invisíveis o atingiram num rugido que lhe rasgou os ouvidos, levou uma patada tão violenta que sua cota de malha se estilhaçou e o couro por baixo rasgando como tecido fino. Estirado no chão, atordoado com o peito latejando de dor, o ar lhe faltava os pulmões, tudo girava aos seus olhos e ouvia ao fundo gritos que atenuaram ate desaparecerem. Quando os sentidos normalizaram, o corpo ainda estava em choque e o peito ardia como queimadura, tentava se levantar, mas a dor o impedia. Ouviu estalidos nas folhas secas e quando olhou por entre as árvores o felino caminhava em sua direção.
- Por que os matou? – Tentou gritar, mas sua voz saiu mais parecido com um sussurro esganado. – Responda Faugo! Eu sei que é um. Maldito, responda.
A face do felino de repente começou a descamar-se e por baixo dos pelos parecia carvão em brasa, a pele que ia descamando tornava-se cinzas e fumaça escurecida. Em meio a fumaça um homem surgiu, ainda caminhando em passos leves. Tudo isso aconteceu num instante e a fumaça desapareceu num piscar de olhos.
- Por quê? – falou ele, tinha a voz de um homem comum, trajava peitoral de couro batido marrom e negro, cabelos castanhos caia-lhe sobre os ombros, sua capa era cinza escuro, presa com um broche redondo de prata com uma letra de algum idioma desconhecido em vermelho, símbolo de sua Ordem.
- Por que nos ataca? – Fez uma careta quando a ferida latejou mais forte.
- Diga ao seu rei que esta parte da floresta está além dos limites de suas terras – disse o Faugo, enquanto olhava em volta até seus olhos dele encontrarem os de Felipe. - Isso foi somente um aviso e peço que diga para manter seus lenhadores longe, nele cada árvore é o lar de um espírito. Estávamos quase acalmando-os para purificação e restauração, – ele respirou fundo com certa inquietação -, vocês vieram e derrubaram árvores perturbando-os novamente. Dessa vez eu os alcancei e pude acalma-los até o limite... – por um momento pensou que o Penumbra iria chorar, tinha uma expressão melancólica. – Vidas são preciosas, mas tive de buscar o equilíbrio na morte.
- Vai me matar? – Temia pela sua vida e sentiu um frio na espinha quando as palavras saíram pela boca, o Faugo não disse nada e o ruivo continuou – Se for me matar, posso pedir uma morte rápida?
- Não. – respondeu. A mente do ruivo embaralhou e seu estomago nauseava-se. - Não vou mata-lo, precisa levar a mensagem. O rei caso ele persista em continuar em desmatar a casa dos antigos...
- O rei pode ser um homem obstinado, mas não creio que seja tolo, - hesitou por um segundo -, eu levarei a mensagem.
- Eu agradeço – disse o Faugo agachando ao lado de Felipe. – Não é de meu agrado matar inocentes que apenas fazem o seu trabalho sobe ordens. Mas os avisos foram muitos e acabaram por serem ignorados.
Os lábios do Penumbra começaram a sussurrar algumas palavras que aos ouvidos do ruivo eram como chiados. Com as duas mãos estendidas na altura dos ombros, os dedos acariciavam o ar, suas mãos emitiam uma tênue luz branca que pulsava como o leve suspiro de uma manhã fria. Sentiu a dor aliviar a cada segundo e por fim desaparecer. Tanto que aos poucos pôde ficar de pé como se nunca houvera os ferimentos.
- Obrigado – suspirou Felipe e sorriu debilmente.
- Não eram cortes profundos – disse o Penumbra, que estava inexpressivo -, sua cota de malha e o couro talvez o salvaram da morte – saltou os olhos aos dele -, entregue a mensagem. Aqueles que fugiram são suas testemunhas. Cuide-se.
A pele do rosto do Faugo começou a descamar como havia acontecido quando estava em forma de felino. Com alguns passos largos deu um salto que chegou a passar da altura de sua cabeça, em meio a fumaça surgiu um pássaro castanho gigantesco. Suas asas abertas, Felipe imaginou que tivessem uma envergadura do tamanho de duas pessoas adultas, ou mais. A ave bateu suas longas asas ate sumir ao alcance dos olhos no horizonte.


(Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
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Atualizado em: Qui 13 Jun 2019

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