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O arrepio mais frio do inverno - Capítulo III

  Ela sabia bem que podiam ser os homens de antes, havia visto quatro deles antes de perder Glad, o menino disse que dois morreram para os seregs, mas desejou que todos eles tivessem um fim semelhante. Aquela conversa a deixou tensa e temerosa, queria mudar de assunto o mais rápido possível, olhou para a entrada da caverna.
  - É ali que vamos dormir? – perguntou ela, Kael fez que sim -, não vejo a hora de dormimos agarradinhos lá dentro.
  Ele fez que não abanando levemente o ar com o rosto em total reprovação ao que ela havia dito.
  - Antes – falou ele -, me diga, sem mudar de assunto, o que está fazendo nas Caninas?
  Aquela pergunta ainda caia pesada para Su, da forma que ele as disse, pareceu ser mais velho do que seus poucos dez anos de idade. Sentiu querer agarra-lo aos abraços e toma-lo para si, mas apenas deliciou-se com a ideia.
  - Tudo bem, eu digo. Mas antes terá de me dizer a verdade de como afugentou os felinos.
  O menino encolheu os ombros, mas sua postura tornou-se de completo acordo ao dar de ombro logo após.
  - Primeiro você, depois eu.
  - Direi então – Suilane resfolegou no ar gelado da noite escolhendo as palavras para tentar ser o mais direta possível e então continuou -, eu não sou daqui como seve imaginar. Sou do país chamado Tessalanto, no estado de Verdiati, vivo... vivia, na capital, Luntana – olhou para Kael, este apenas observava sem muita expressão. – Sabe onde fica?
  - Verdiati fica a sudeste da Tessália, fazem fronteira, creio – disse ele calmamente, deu de ombros e continuou -, não sei muito sobre a capital Luntana – mesmo com a pouca claridade da fogueira, podia perceber os olhos penetrantes do menino sobre ela, ele continuou -, você fala bem a língua daqui, seu sotaque é semelhante ao do norte deste país.
  Suilane ficou espantada, o menino nem ao menos gaguejou em pronunciar aqueles nomes e os disse com naturalidade.
  - Sim. Sim e sim, seu espertinho lindo – disse ela sorrindo admirada. – Você é muito inteligente, uma gracinha de menino.
  Um sorriso de satisfação desenhou-se nos belos lábios rosados de Kael, mas logo voltou a seriedade de sempre fitando o vacilar do fogo.
  - Diga mais sobre Luntana – falou ele.
  Su fez que sim, buscou na memoria sua bela cidade e disse então.
  - Luntana é uma cidadezinha bem religiosa, muitas pessoas do país vizinho, Fulgura, iam visita-la. O idioma predominante em Fulgura é o mesmo daqui, sabia?
  - Sim – respondeu adicionando mais lenha na fogueira, realçando a claridade dando uma melhor visão o rosto e dos olhos dele que pularam para os dela. -  Continue – falou Kael.
  - Para atender os clientes da pousada onde eu trabalhava e como depois servi de guia turístico, aprendi o idioma na prática, mas também estudava em casa afim de melhorar. Entende?
  - Sim. Vá em frente.
  - Você inteligente como é, sabe que Ramnúsia invadiu o meu país, tomou Verdiati, está tudo destruído, pessoas que eu conhecia há anos morreram ou desapareceram. Tudo, água, alimentos, tudo, tornou-se escasso. Então eu soube que no Sul, a fronteira gelada para as Montanhas de Caninas eram a saída para aquele sofrimento. Juntei todas as minhas economias e vim para tentar a sorte, eu e uma centena de outras pessoas. Este país, Glaucano, é a terra da oportunidade, eu sei falar o idioma daqui, sabia que seria uma travessia difícil, mas não imaginava que sofreria tanto pelo caminho, quase morrer, quase ser violentada, quase virar caça de gatos gigantes, perder tanta gente.
   Uma lágrima, depois outra e outras mais rolaram, até conter-se, respirou fundo para se acalmar, o peito estava dolorido e na garganta havia um nó. Sentada em um tronco de árvore gelado, a luz e o crepitar do fogo, a calmaria do vento, a atenção do pequeno Kael. Uma mistura de sensações que nunca imaginou sentir. Estava viva e isso a deixava cada vez mais confiante, ou era para estar. Sentia-se fraca e vulnerável, não conseguia ver o que futuro faria com ela no dia seguinte e no outro, de lá a há uma semana ou um mês. Respirou pesadamente, seu hálito morno se condessou no ar frio parecendo vapor.
  - Não precisa continuar – disse o menino, os olhos dele refletiram a luz do fogo. – Melhor será se mudar o assunto.
  Su, limpou a umidade do rosto e forçou-se a sorrir.
  - Tudo bem. Agora é sua vez de contar o seu segredo. Usou algum tipo de apito? – disse ela, Kael fez que não. – Você não atirou realmente, não é? – Ele fez que não novamente. – Você pequeno desse jeito, tem que haver alguma explicação.
  - E há – disse Kael. - O que resultou na fuga dos seregs foi minha kinesis.
  - Você é um kinezista? – Ela sabia que os kinezistas eram cientistas que tinham de se especializar levando anos de prática e estudos para se formar. – Mas você tem apenas dez anos de idade.
  - Não sou um kinezista, eu nasci com a kinesis, é diferente e ao mesmo tempo a mesma coisa.
  Tirou os olhos dela e puxou seu rifle o apoiando nas coxas, manejava bem a longa arma grande demais para o pequenino, os cabelos cobriram parte do rosto e apenas com a luz do fogo iluminando, não dava para decifrar que expressão ele tinha no rosto.
  - Para a religião daqui sou um demônio – disse ele, a fitou e voltou para seu rifle, assoprou um buraco do objeto e talvez pó voou em seu rosto. Fungou e cuspiu.
  - Não fique triste, não é um demônio e sim um anjo.
  - O que, como assim? – falou ele, Su adorava o seu forte sotaque.
  - Você disse que era um demônio, eles são seres malignos. Todos têm medo deles.
  - Está equivocada – disse Kael abanando a cabeça em plena desaprovação -, na religião daqui os demônios são neutros como a natureza, eles são poderosos e mantém o bem e o mal em pé de igualdade. Pessoas nascidas com kinesis eram chamadas de demônio ou enviados dos deuses.
  - Mas é? – Suilane riu -, vou me acostumar com isso um dia. Demônios do bem – riu mais.
  - A kinesis é tão antiga quanto os primórdios da civilização humana. No final descobriu-se que qualquer um podia aprender a kinesis e a mágica foi quebrada.
  Depois de fazer o que estava fazendo, Kael sugeriu irem dormir finalmente. Ele bloqueou a entrada da caverna com uma porta de madeira grossa e dois pedaços de tronco de arvore moldados por ele eram o que mantinha a porta no lugar, uma lamparina a óleo clareava fortemente com sua luz alaranjada de ponta a ponta da caverna. Se alguém ou animal tentasse forçar para entrar, no mínimo teria de fazer uma barulheira possível ser ouvido do outro lado do mundo. Sentir que a entrada estava rigidamente trancada proporcionou a Su, uma noite de sono tranquila como nunca antes.
  No dia seguinte. Suilane acordou de um sono tranquilo. O local onde Kael havia ajeitado para dormirem era bem espaçoso, ele tinha pelo menos cinco cobertores de lã bem grossa e quase a mesma quantidade de cobertores de pele de pelagem castanha e cinza. Desde que pôs o pé em Caninas, não dormira aquecida como naquela noite. O melhor foi dormir abraçada a Kael, que não estava ali naquele momento. Quando saiu da caverna para olhar o céu, o ar frio da manhã lhe abraçou a face. O menino estava preparando o desjejum, ele parecia tenso enquanto ela o observava.
  - Bom dia, Kael.
  O olhar penetrante dele pesou sobre ela como sempre.
  - Da próxima vez que me agarrar durante a noite, controle onde suas mãos tocam.
  - Desculpe – riu Su -, é que minhas mãos estavam geladas e procurei um lugar quente para aquecê-las.
  - Pode não saber, – ele ajeitou uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha avermelhada -, mas neste país temos leis de proteção infanto-juvenil, lembre-se disso.
  Ela não pôde se conter em soltar uma gargalhada, Kael estava vermelho e de cara emburrada.
  - Desculpe, vou lembrar.
  Depois de ter feito o desjejum, sentia-se totalmente pronta para pegar estrada acima com Kael, que havia descido para averiguar algumas armadilhas que fizera, caso houvesse logrado alguma coisa logo comeriam alguma carne sem ser a salgada e seca que tinha em demasia em seu acampamento.
  Ele disse que não demoraria e pôde ouvir alguns ruídos ali por perto semelhantes a eco de vozes de alguém gritando ao longe, desceu com cuidado o estreito caminho onde ficava a caverna.
  O dia estava límpido e sem nuvens, um profundo céu azul claro inspirava boa viagem, o sol ainda acariciava o topo de montanhas negras a oeste. Desceu em segurança e aliviada por não se espatifar morro abaixo, onde pisava agora mais parecia uma estrada larga de cascalho e pedras grandes como melões, maçãs e tudo quanto era tamanho, todos alisados como se houvessem sidos polidos, um a um, por mãos rudes. Imaginou que água fluía por ali de tempo em tempo, e com toda razão por ali a neve e gelo derretido fluía até desaguar no rio ao sopé de algumas das Caninas. Continuou a caminhar na direção dos ruídos. Quando chegou finalmente perto o suficiente, espiou por entre algumas pedras altas e pôde ver a forma de três pessoas, Kael e mais distante do outro lado de uma longa poça de água escura, funda o suficiente para engolir os pés até os tornozelos, estavam dois homens esfarrapados. Suilane pôde reconhecer aqueles dois no mesmo momento, sentiu-se encolher por completo e chegou a pensar em correr para longe da li. Mas se acalmou e analisou a situação mais uma vez e viu nas mãos do menino o que parecia ser um coelho cinza escuro abatido.
   Um dos homens era corpulento com dentes faltando-lhe na boca, com os olhos fundos e nitidamente faminto. O outro não estava diferente, nariz achatado que mais parecia uma batata mergulhada em gordura e os olhos também fundos sorrindo de forma hedionda apontando para o animalzinho nas mãos de Kael. O menino atirou o coelho no ar em direção aos dois homens e o bicho caiu bem no meio da longa poça, os dois se entreolharam e correram aos empurrões para pegar o alimento. Quando o homem gordo se agachou para pegar o coelho, o outro o empurrou e antes de cair segurou no braço no narigudo, os dois acabaram estatelando-se na água. Kael que apenas observava tirou a luva de couro escuro da mão direita e a ergueu na altura da cabeça, pôde ver faíscas roxas, azul e violetas dançarem por sua mão, ele agachou sentando-se nos calcanhares e aproximou os dedos da água. De repente ouviu-se um estalo forte seguido de estalidos fracos, mais dois estalos e estalidos. O menino ficou de pé e pôde perceber que os homens estavam caídos na água, sujos de lama negra, um deles deu uma rápida estremecida e ali ficaram. Uma ventania começou de repente, alisando as rochas pontiagudas em um zunido leve e alongado, as folhas de árvores pontiagudas também cantavam em meio a estalos e rangidos de seus troncos castanhos. Kael voltou a vestir a luva e quando deu as costas para os homens, não percebeu Su de imediato, ele fez uma careta como se tivesse derrubado uma tigela de sopa e temia levar uma bronca. Sorriu aproximando-se, ela se esforçou para sorrir, o coração batia forte e as pernas estavam bambas.
 - Você está bem? – Perguntou ele, Su se esforçou para ficar ereta depois de tanto tempo agachada naqueles instantes que pareceram horas. – Seu rosto está da cor da neve. Está a salvo. – disse o menino.
  - Obrigada! – sorriu, respirou fundo e foi até Kael e o abraçou forte. – Meu herói, você é de fato kinezista.
  - Não sou kinezista algum.
  Ele estava escarlate até as orelhas.
  - Mas aquilo que fez foi magnifico – disse ela. Ele deu um de seus raros sorrisos e deu de ombros.
  - Não é para tanto – disse ele com uma olhadela de soslaio na direção dos homens caídos e continuou -, mas acho que exagerei. Eles são os que tentaram viola-la?
  - Sim, ambos. Eram seis, no entanto você viu dois sendo mortos pelos gatos, agora esses dois... faltam mais dois.
  - Se eles não souberem falar o idioma daqui como o desses dois ali na água, sem documentos não durarão nada neste país – ele a perscruto -, no seu caso terá apenas de trocar estas roupas.
  - Fico feliz em saber disso – olhou por cima do ombro de Kael. – Vamos deixá-los desta forma?
  - Esqueci – disse ele como se tivesse lembrado de algo, correu até onde os dois estavam e tirou o coelho da água e retornou balançando o animal para sair um pouco da lama. – Pronto, é o nosso jantar.
  Suh riu, Kael pareceu não entender.
  - Eu me referia aos dois ali atrás. Estão mortos?
  - Talvez. Mas morrerão de fome e frio no final. Deixe-os, daqui a um tempo o d’gelo vai arrasta-los para o rio, ou algum bicho virá comê-los. – Fez um gesto em direção ao norte. – Vamos embora de uma vez.
  Não demorou para estarem prontos para partir. Dividiram a carga de provisões para duas pessoas, Su se sentia feliz ao ponto de querer chorar de emoção a cada passo de distância que tomavam para longe daquelas montanhas. Imaginar que tudo aquilo iria terminar a deixava com tanto ânimo que seus passos eram largos e ágeis, Kael deu-lhe uma bronca por duas vezes que se afastou dele.
  - Está querendo testar minha paciência? – reclamou ele quando ela se afastou demasiadamente pela terceira vez. – Não se esforce.
 Su como sempre achou aquilo tudo uma gracinha, a cara emburrada do menino a fez sentir uma vontade irresistível de abraça-lo e aperta-lo. Mas imaginou que o faria zangar-se ainda mais.


(Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
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Atualizado em: Dom 2 Jun 2019

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