person_outline



search

O arrepio mais frio do inverno - Capítulo II

  Quando acordou, sua visão ainda embaçada devido a remela nos olhos, sentia-se um pouco tonta e nauseada, podia ouvir estalos de madeira queimando e juntamente lhe veio o cheiro de carne cozendo, levantou quase em um pulo, estava dentro de uma cabana improvisada de cobertores de lã grossa verde escuro, chamou por Glad, mas não ouve resposta de fora. Pode ver por uma fresta entre dois cobertores que deixava claro que era ali a entrada da cabana, uma fogueira dançando a luz do dia.
  - Glad? – hesitou por um segundo, - é você? – Espreitou o rosto para fora da barraca, sentia-se tonta, mas o cheiro da comida dava-lhe algum ânimo. A luz do sol que se esforçava por entre as nuvens brancas fez doer seus olhos ainda se acostumando com a claridade, uma tímida brisa soprou e o fogo crepitou e dançou.
  - Não – disse uma voz infantil.
  Era apenas um menino de longos cabelos castanhos, olhos escuros perscrutaram os dela, ele estava sentado numa pedra jogando fiapos verdes, que pareciam ser os condimentos da sopa que fazia num pequeno caldeirão enegrecido de fuligem, pendurado em um tripé de madeira de galhos de arvore. Ele vestia lã negra e cinza escuro, uma faca a cintura e um rifle de caça aos pés. Suilane procurou por algum adulto ali perto, mas não havia sinal de outra pessoa além dele.
  - Olá, está aqui sozinho não é... - Suilane lembrou-se do corpo de Narglad em meio aos arbustos e caiu aos prantos.
  - Aqui, beba – disse o menino com seu forte sotaque levantando-se de onde estava na mão tinha um cantil e ofereceu a ela.
  Su parou por um momento e respirou fundo com esforço, o fôlego lhe escapava dos pulmões. Sem conseguir olhar para o rosto pouco expressivo daquela criança, pegou a garrafa e bebeu com vontade sem igual. Ele apenas a observava sem dizer nada.
     - Chamo-me Suilane - disse ela. - Qual é o seu nome, pequeno?
     - Kael – respondeu, antes que ela perguntasse mais alguma coisa ele continuou –, Glad, era aquele quem os seregs pegaram?
  Imaginou que os seregs deviam ser os felinos gigantes que vira antes.
  - Sim – disse, sua voz saia chorosa como faca arranhando lousa -, ele salvou minha vida, me salvou de ser violada por uns malditos.
  - Violada?
  - Sim, – Suilane percebeu a inocência na pergunta do menino e então mudou de assunto, - quantos anos você tem, tão jovem e está num lugar destes? Está sozinho aqui?
  Ele fez que sim com a cabeça e deu de ombros.
  - Tenho dez – disse Kael, seu olhar era penetrante como faca afiada. – Responda, o que é violada? O que quer dizer?
  - Você é jovem demais, não precisa saber ao certo. – Hesitou, mas ao perceber o menino desapontado, ela falou então -, eles tentaram me machucar de uma forma horrível, me forçando a fazer algo que uma mulher apenas faria com o homem que ama.
  Kael pareceu entender de imediato.
  - Sinto muito.
  - Tudo bem.
  O menino lançou a ela um olhar penetrante e sem expressão que a fez desviar o olhar. Ele então em silêncio voltou a cuidar da panela ao fogo. As lembranças de Narglad morto flutuaram por sua mente, seu coração doeu de tristeza.
  - Ei – chamou ele.
  Suilane o fitou com os olhos ardidos e úmidos, Kael a ofereceu uma tigela de ensopado fumegante, o aroma estremeceu seu estômago faminto, começou a comer tão de imediato que pouco se importou com a boca e a garganta sendo queimadas.
  - Cuidado, está muito quente! – Alertou-a tarde demais, Su apenas sorriu com uma careta e sem querer soltou uns risinhos, olhou para Kael que pareceu estranhar aquela atitude tão de repente.
  - Desculpe – recuperou o folego -, os últimos dias foram muito pesados para mim. Fui ajudada por muitas pessoas, mas em especial por um homem de meia idade, gentil que me chamava de filha e agora por um menino de dez anos... – ela sorriu com olhos úmidos, algumas gotas caíram de seu rosto e riu novamente. – Nunca poderei agradecer ao Glad, adoraria que ele estivesse aqui...
  - Entendo – disse Kael acrescentando mais duas conchas de ensopado de carne seca e legumes na tigela de Su, – foi uma má sorte entrar no território dos Seregs.
  - Sim.
  Ela tentou comer, mas acabou chorando mais.
  - Você tem um sotaque diferente, o que está fazendo em Caninas? - perguntou ele de repente.
  Ela sentiu um leve frio percorrer da espinha até a nuca, suspirou e sorriu. O observou enquanto ele se servia do ensopado, o caldeirão vazio havia sido colocado ao lado da fogueira, ele comia calmamente, era uma gracinha a cada colherada que assoprava antes de comer. Ela pensava em como explicar do porquê atravessou a fronteira ilegalmente, mas ele era uma criança apenas, ela não conseguiu encontrar palavras para explicar no momento. Kael pareceu estranhar o seu silêncio, ela mordeu o lábio e ficou pensando nas dificuldades da travessia, observou as rochas e pedras redondas em abundância por ali. Então sorriu finalmente.
  - Posso eu fazer uma pergunta? – Falou ela.
  - Sim.
  - O que um jovenzinho tão lindo como você, faz num lugar como este?
  Ainda havia água no cantil que ele havia oferecido antes, então bebeu até a última gota d’água.
  - Não fale comigo como se eu fosse um bebê – disse ele visivelmente bravo, Suilane adorou aquilo tudo. Ele continuou, - eu venho aqui para acampar.
  - Não tem mais ninguém aqui com você? – quis saber ela, Kael deu uma curta abanada de rosto. O admirou por um momento, aquele menino que suspirava mais maturidade do que o seu rostinho infantil demonstrava. – Aqui é um lugar perigoso e solitário, não acha?
  Ele não respondeu e Suilane apenas o observou enquanto alimentava o fogo com alguns gravetos, Kael a fitou de repente.
  - Quantos anos você tem? – perguntou.
  - Vinte – respondeu ela -, quando você estiver com treze de idade eu terei apenas vinte três. Sabe?
  - Acho que sim, – ele apoiou o cotovelo no joelho direito descansando o rostinho pálido no nó dos dedos por cima da luva de couro escuro -, mas o que tem a ver isso?
  - Treze é idade que já pode namorar.
  Ele pareceu entender de imediato e a fitou por um segundo e seus olhos pularam para o fogo sem parecer se importar com as insinuações dela, sentiu ter seu orgulho ferido por aquilo e apenas pôde sorrir sem saber o que dizer. Kael estava em silêncio e ficaram ali por alguns minutos sem dizer nem uma palavra, mas acabou por quebrar o gelo quando ele pareceu lembrar-se de algo.
  - Hoje pretendia ir embora, o que você vai fazer? – disse ele fitando o sol e quando também olhou percebeu ser manhã, faltando bastante para o meio dia.
  - Por quanto tempo dormi? – Perguntou Suilane.
  - Somente uma noite.
  Ele explicou como a carregou até ali e como montou aquela barraca improvisada, o menino falava de forma direta e com palavras bem colocadas como um professor de idiomas, aquele era o sotaque mais belo que já ouvira.
  - Não sei para onde quer ir – falava ele, - mas a vila mais próxima de uma cidade é na direção que vou seguir, venha comigo se preferir.
  - Eu quero! – disse aquilo quase que sem precisar pensar, - digo, sim vou segui-lo.
  - Você tem certeza que tem condições de ir hoje? É um caminho de dois dias... e então?
  Ela tinha à vontade, mas seus músculos ainda reclamavam e seu corpo ainda estava um pouco vacilante, ele então decidiu que partiriam na manhã do dia seguinte.
  Naquele dia o garoto mostrou para Su, onde dormia toda noite e disse, sem ser questionado, do porquê não a levara para dentro da caverna quando a encontrou. Ela entendeu assim que viu como o caminho era estreito e acidentado, a entrada não era larga, mas não seria difícil adentrar o local. Depois ele mostrou onde a encontrou, alertando que deviam embora logo para não perturbar o território dos felinos. Suilane achou inacreditável um menino carregar uma mulher adulta por quase duzentos metros, ele devia ser mais forte do que aparentava.
  O dia passou rápido devido ao alto inverno. Suilane fez perguntas sobre o que Kael fazia quando não estava acampando, tentava ao máximo fazê-lo conversar, pois era silencioso demais, o que o tornava ainda mais interessante. Ele então falou que passava o tempo lendo em sua casa, fazia algumas outras coisas, como os seus desjejuns, ela riu daquilo. Mas também lia quando acampava, ela analisou as capas de alguns livros e perdeu o interesse no mesmo momento, livros em Ramar, língua oficial de Ramnúsia, o maldito país que estava assolando sua gente e sua terra com a guerra. As únicas coisas que vem a sua cabeça quando pensa no nome Ramnúsia é apenas terror, estupro, sangue e destruição, os folhetos de notícias estavam cheios de tais relatos e por isso abandonou sua casa com o pouco de dinheiro que tinha. Pessoas diziam para ela que o país estava perdido e que a melhor opção era deixa-lo. Foi o que fez afinal.
  Quando a noite caiu, Kael havia montando a fogueira e ajeitou um pequeno caldeirão enegrecido ao fogo humilde que fazia, ela se ofereceu para ajudar em qualquer coisa, mas ele recusou todas as vezes. Jogou um monte de coisas na água fervente sem se preocupar com tamanho e quantidade, Su ficou chocada em saber que foi daquela forma que ele havia preparado a sopa tão deliciosa que provara de manhã e pensou consigo mesma, “provavelmente a fome a fez ficar tão boa”. Não acreditou ao provar novamente e ter certeza que poderia estar melhor do que a anterior, “ainda devo estar faminta pelos dias que passei fome” pensou ela. Deixou de lado aqueles pensamentos confusos e apreciou a refeição. Carne salgada, legumes ressecados e dois tipos de ervas eram os ingredientes, ele não especificou quais legumes e quais ervas, porem também não o questionou sobre, pois estava deliciosa.
  Naquela noite o vento soprava calmo fazendo o fogo dançar ao seu ritmo, pintando de laranja as rochas cinzenta ali ao redor. Kael estava limpando e lubrificando uma pistola de metal negro, mesmo com a pouca claridade da fogueira, ele a desmontou e montou como se já o fizesse há anos, o que a fez sentiu-se um pouco mais segura de qualquer modo. O céu negro repleto de estrelas tremeluzentes, algumas nuvens finas e apressadas flutuavam por lá. Apenas havia um caminho e era um caminho arriscado a noite, alguém somente veria a luz da fogueira se estivesse voando como aves vendo do alto, em seu lado esquerdo o pé de uma montanha subia como uma coluna de um edifício quase reta, à direita estava a entrada da caverna.
  As lembranças de Narglad flutuaram por sua mente e relembrou de repente dos felinos chamados Seregs, recuando antes dela desfalecer de cara na pedra gelada.
 - Como afastou aqueles bichos? – Perguntou Suilan.
  Quando o menino a fitou, a luz da fogueira tamborilou em seus olhos, tornando-as duas pérolas cor laranja. Mas ele apenas puxou o rifle que estava ao seu lado para o colo e deu dois tapinhas no objeto e o devolveu para onde estava.
  Ele continuou calado.
  - Mas você atirou contra eles? – quis saber Su, - não lembro de ouvir tiros.
  - Eu atirei para o alto – disse ele, - o estalo incomoda seus bons ouvidos de felino.
  Kael deu de ombros e voltou a mexer nas peças da arma. Suilane tinha dúvidas sobre aquilo ter feito os felinos terem se afastado daquela forma, podia ser coisa da sua cabeça, mas aquele menino devia estar escondendo algo. Mas não quis questionar mais sobre aquilo, ela tinha outra preocupação que voltou a sua mente como um raio de luz.
  - Por algum acaso você viu quatro homens por aí? – o coração dela apertou e sua garganta tinha um nó.
  Ele fez que sim com a cabeça e disse.
  - Pouco antes de encontrá-la, eu vi de longe quatro pessoas fugindo de três Seregs. Dois deles foram pegos, os outros fugiram e então eu desci, ouvi sua voz e fui averiguar. Lá estava você.


(Por não ser um texto definitivo e completamente de teste, estou aceitando críticas, sugestões e comentários sobre qualquer dúvida. Obrigado.)
Pin It
Atualizado em: Dom 2 Jun 2019

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222