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A sociedade perfeita

Nessa barafunda que se transformou a eleição presidencial, eu li – dias atrás – um enunciado do tipo: “O Brasil precisa de trabalhadores, mas não de professores, artistas e intelectuais”. A pessoa deve ter se aplaudido e julgado muito criativa ao emitir tal opinião. Ocorreu-me que talvez não o fosse.
            Se eu não me equivoco, Platão, em “A República”, esboçou um ideal de sociedade. Em primeiro lugar, segundo o filósofo, as mães eram nocivas aos filhos e, por isso, eles seriam apartados após o nascimento; até os 10 anos praticariam exercícios físicos e estudariam música – para moldar o caráter. Até os 20 anos, teriam uma iniciação religiosa, que lhes permitisse conhecer o bem, naquela concepção clássica de mera oposição ao mal. Nesse ponto, os jovens passariam por uma grande prova de “eliminação”, em que os reprovados passariam a atuar como “guardiães” (soldados), fadados aos trabalhos braçais, que não exigissem esforço intelectual; os bem sucedidos teriam mais 10 anos de estudo e enfrentariam uma nova prova, cujos aprovados, a partir daí, poderiam dedicar-se à Filosofia, ao mundo das ideias, à intelectualidade. De qualquer forma, para alguns restaria o trabalho sem reflexão, a mera repetição de atividades físicas, enquanto que a outros seria dada a possibilidade da divagação, da contemplação, de elevação da alma, de “cultivo” do caráter. A sociedade era e é múltipla, os diferentes não se excluem, mas se respeitam, logo, em tese, a convivência deveria e deve ser pacífica.
            De qualquer forma, grosso modo, na sociedade perfeita de Platão, a classe inferior era formada pelos fazendeiros, lavradores e negociantes; a classe média reunia os soldados; e os sábios, os filósofos, dotados de uma mentalidade superior, mais afeitos à arte e ao livre pensar, compunham o extrato mais elevado da população.
            Discutir aqui a função da arte e, como corolário, a função do artista é impensável. Não há espaço. Mas lembro que, entre tantas possibilidades, Aristóteles, discípulo de Platão, postula que a arte está a serviço da moral. A ideia básica – corrijam-me se estiver errada – é que a riqueza e a cultura não são, muitas vezes, suficientes para tornar um ser humano virtuoso. O exercício das nossas virtudes morais é uma recorrência diária e elas podem ser subvertidas pelas circunstâncias que nos são externas (não atire pedras porque todo seu telhado é de vidro!). Revisitar as tragédias gregas, reler os romances consagrados pela literatura pode libertar-nos dos preconceitos mais simplórios.
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Atualizado em: Qui 11 Out 2018

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