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Pela paz

Andei dezesseis Quadras do Plano Piloto, em Brasília – oito quilômetros – por conta da Marcha pela Paz, contra o ataque ao Iraque, num domingo à tarde. Era o ano de 2003. Metade do percurso eu segui o pessoal e, a outra, arrastei-me de volta ao carro. Tinha pouca gente. O jornal noticiou duas mil pessoas e concordo. Daí para menos. Mas um público representativo. Tinha árabe, judeu, prefeito de Quadra e Lago, e os familiares de jovens assassinados, cada grupo usando camisetas com a foto das vítimas da violência urbana. Lá estavam, também, professores, políticos de vários partidos, representantes de embaixadas, sindicatos, ONGs, associações, e muitas crianças, de todas as idades. O cover do Itamar Franco, com o grisalho topete caindo na testa, não falhou. Figura carimbada dos movimentos em Brasília, ele andava pra cá e pra lá, metido numa impecável calça branca, de pregas. Uns dois ou três estavam enrolados na bandeira nacional e, como em todas as manifestações de rua, tinha um grupo considerável usando o boné do MST.

Os organizadores distribuíram um triângulo de pano branco. Então, tinha paninho amarrado em braços, pernas, cabeças, pulsos, carrinhos de bebê e até em cachorros. Alguns levavam balões igualmente alvos. Do carro de som, nos incentivavam a cantar um hino pela paz, com um ritmo desolador, difícil de acompanhar, chatíssimo de ouvir e entoado por poucos corajosos. As palavras de ordem, sem graça, também não colaram. Parece que houve um erro de percepção, como que se o vigor do tom só valesse para reivindicar salários e pedir “abaixo o governo”. Alguém achou que, para acompanhar o branco das roupas e pedir pela paz, só pudéssemos andar na ponta dos pés e falar a meia voz. Como que se não coubesse ali uma boa indignação pela situação indigente que nos encontramos, enquanto humanidade.

Fui sozinha e acabei responsável por carregar uma comprida faixa da UnB. Na outra ponta, uma senhora que aparentava estar na casa dos oitenta anos de idade. Elétrica. Ela se manteve sempre alguns passos na minha frente, fazendo com que a nossa faixa fosse a única enviesada de todo o evento. Com gritos de "olha a faixa!", ela obrigou alguns grupos de pessoas a se abaixarem, e, a mim, a erguer a minha ponta e sorrir um sorriso amarelo, de puro constrangimento, enquanto passávamos ventando pelos manifestantes. Ela só não ia ainda mais à minha frente porque eu a segurava, o que me fazia alvo de seus olhares de desaprovação e de comentários como "a minha parceira está cansada". Pode?

Uma bela hora, eis que passa por nós o Professor Cristovam Buarque e ela não teve dúvidas. Mudou o curso, literalmente me arrastando para presenciar o choro convulsivo que a acometeu enquanto se abraçava ao aturdido ex-governador do DF. Agradeceu a ele, entre soluços, as sei lá quantas medalhas num esporte que nem desconfio qual seria – o choro tornava impossível compreender o que falava. Enquanto ela tietava o político, eu tentava adivinhar o esporte, a partir das informações que tinha. Como ela ignorava o fato de que havia alguém segurando a outra ponta da faixa, eliminei a possibilidade de ser algo em equipe. Como também se mostrasse incapaz de caminhar no ritmo da passeata, conclui que corrida se encaixaria perfeitamente no perfil. E, com aquele fôlego, tratava-se de uma fundista. Isso! Só podia ser.

Terminada a conversa e retomada a caminhada, o meu desconforto com o comportamento dela foi se tingindo de outras tonalidades e, lá pelas tantas, eu estava irritada. Meus dedos doíam pela força que eu fazia para contê-la em sua correria e os comentários a respeito da minha moleza há muito tinham perdido o lugar. Foi quando caiu a ficha. Em plena caminhada pela paz e contra a discriminação e eu ali, em pé de guerra com a senhorinha. Ri. Como somos imperfeitos.

Quando chegamos ao local do culto ecumênico, paramos. Massageava o meu pulso quando a senhora veio até mim e entregou-me a sua ponta da faixa. Sorrindo com pureza e me olhando diretamente nos olhos, pediu desculpas "se não foi a melhor parceira". Fiquei aturdida. Além de ela ser uma senhora, era ativista social e, ainda, grande o suficiente para ser humilde. Foi um aprendizado estilo soco no estômago.  Dei a caminhada por encerrada e voltei para o carro. Tinha muito em que pensar.
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Atualizado em: Seg 12 Mar 2018
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