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Uma história para fogueira

A vida sempre parece ter como objetivo nós fazer acreditar em algo tal como o destino ou uma divindade graças a inconveniente força do acaso agir. As vezes é impossível não atribuir alguma força maior a fatos cotidianos que nos ocorre.
Me recordo que quando criança, olhava meus amigos e sempre estávamos juntos brincando e a vida era perfeita. Conforme o tempo foi passando o olhar desses meus amigos sobre as meninas foi de amigas para amores em potencial. Junto com essa mudança de pensamento veio algo que eu chamo de “amor elitista”, aqueles que não tinham namorada era desconsiderado e deixado de lado pela elite amorosa daquele recinto. Na maioria das vezes só tinham namoradas para status na escola. A escola gera uma sensação destorcida da sociedade em que vivemos. Eu, sem sucesso algum com meninas sendo sempre o grande amigo, nunca me veio a vontade de ter uma namorada. Desconsiderava o amor como algo feito pelos filmes hollywoodianos, apenas algo feito “sinteticamente em laboratórios”.
Foi aí que ela apareceu, ela não era considerada pelos outros como bonita porém era a garota mais inteligente que conheci, ela gostava dos mesmos desenhos e jogava os mesmos jogos e ao contrário das outras me dava uma exclusiva atenção me ajudando com os problemas que tinha de aprendizado na escola. Conversávamos todo dia e a cada dia ela me fascinava mais e mais, foi a primeira vez que me deparei com o sentimento hollywoodiano. Ao passar do tempo foi trocando de amigo para amor em potencial. Depois de tomar toda a coragem fui me declarar para ela, a resposta foi a altura de uma pessoa inteligente e muito à frente do seu tempo: “você é legal”, porém namorar vai estragar meus planos futuros”. Foi aí que me deparei com meu terrível destino, a possível solidão. Muito tempo depois conheci uma menina totalmente diferente do esperado, ela era alta, loira, boca suja, carismática e totalmente ignorante. No início me julgando como “nerd” e “cdf” para depois de 2 anos estarmos intimamente envolvidos. Porém, como anteriormente a resposta foi a mesma: “Eu adoraria namorar com você, porém o futuro me aguarda”. Mais que tipo de “futuro” é esse? E o que ele aguarda para sempre me trocarem por ele?
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Após isso disse para mim mesmo que iria focar totalmente em estudar e me preparar para esse tal de futuro. Mesmo minhas tentativas amorosas serem poucas para um adolescente decidi parar com isso, aceitei meu destino por uma primeira vez. Tudo ia como planejado até um amigo de forma irônica solta “ao menos alguém já me amou nessa vida”. Apesar de passar despercebido pelos outros essa frase, ela bateu bem no meu peito, encima do meu coração e implantou uma certeza. Eu nunca fui amado por alguém, para mim o amor tem significado diferente. É algo que inicialmente me deixa nervoso a ponto de sentir frio na barriga e no final me deixar triste me desapontando totalmente. A vida era preta e branca, apesar de quando perguntado responder que eu sou um robô, não preciso de namorada estava claro que era mentira já que por dentro estava vazio, precisando de algo.
Eu parava e refletia, pensando se era algo que eu estava falando para afastar elas de mim. Porém a resposta de que era o destino pregando mais peças e se divertindo parecia fazer mais lógica. Eu só sabia o que era amor por obras literárias e filmes, só estudei o amor. Que tipo de pessoa é essa que trata o amor como uma ciência? É uma pessoa que nunca foi amada. Me sentia amaldiçoado as vezes, quando teoricamente começo a gostar de alguém e me declaro essa pessoa vai embora, deixando como cartão de visita a saudade e um amor incorrespondido.
Aquele mesmo destino que gostava de brincar comigo me colocou de frente com aquela que mudaria minha forma de ver o mundo. Só a conheci por um terrível e trágico acontecimento. Após isso ela me reconheceu dentro do ônibus, puxando assunto aleatoriamente comigo. Ela era falante, engraçada e muito estranha. Mesmo ela lembrando do meu nome só a lembrava como garota do ônibus, já tinha esquecido seu nome. Foi quando disse que gostaria de ler exatamente um livro que eu tinha comprado, exatamente nesse momento olhei para dentro de mim e pensei, essa é minha chance, o universo está conspirando a meu favor. Ela que me adicionou no Facebook, ela que puxou assunto, ela que me fez repensar meus atos, ela que mudou tudo. Mesmo com comentários alheios dizendo que ela gostava de mim eu simplesmente os repudiava já que ela apenas estava sendo legal comigo, não me deixaria levar como a primeira vez. Mais em algum momento que não me lembro, eu pensei, e si ela realmente gostar de mim? E se ela for minha última chance de sair por cima?                                                 2
Ela pensava em várias coisas que eu pensava, admirava coisas que eu gostava e deixava de lado todos os seus amigos para falar comigo. Sua risada era cômica e dentro do seu olhar tinha um farol que estava mirado diretamente para a escuridão presente dentro da minha vida. Quando vi ela dançando e em seu rosto vi o sentido real da palavra felicidade, me fez entender que deve se fazer qualquer coisa, mesmo que você passe vergonha, se o objetivo é ser feliz nada pode impedir. Mesmo agora pensando que possivelmente ela poderia estar gostando de mim eu barrava esse sentimento que sabia que para mim não servia de nada, agora me fazia ter vontade de tentar mais uma vez, minha última tentativa desesperada de mudar meu destino.
Foi em um dia chuvoso que os dois em um único guarda-chuva me senti em um filme hollywoodiano, mesmo com a chuva caindo e me molhando estava aquecido pelo fato de estar muito próximo de alguém que gostava de mim. Aquele momento senti que me lembraria mais tarde, me lembrarei por muito tempo dele. Um dia, inconformado com o que sentia, usei um tom sarcástico para tentar achar uma resposta. Quando eu li não me senti sugado por um buraco-negro. Em questão de segundos todo aquele sentimentalismo sumiu de repente, me veio uma resposta que mais servia como uma válvula de escape “ela só está sendo difícil”. Apenas prossegui adiante com uma missão. Eu preciso fazer com que ela goste de mim. Eu não poderia suportar todo aquele sentimento sozinho. Um dia quase que admiti todo o amor que sentia por ela, porém quando eu percebi que se fizesse aquilo mudaria tudo, me colocaria talvez em um relacionamento sério e precisasse encarar ela como uma namorada dei um passo atrás. Pensei, preciso ir com mais cautela velocidade não vai me levar a lugar nenhum. Eu não estava pronto, nem menos ela, fiz questão de perceber isso e pelo bem de ambos ir com mais calma.
Quando ela disse expressou de forma matemática que gostava de mim em 1% eu me senti anestesiado com a real chance de conseguir algo que eu mais do que precisava e que a tempo não sentia, amor. Todos os dias que passei ao lado dela foram admirando seu olhar destemido e determinado. Tentava fazer ela rir só para poder admirar seu sorriso que preenchia meu dia como uma dose da droga mais viciante. Pela primeira vez não sabia o que fazer, meu coração dizia sim porém minha razão não.
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Enquanto tudo isso acontecia eu pensava comigo “aproveite enquanto está durando, faça ela rir e tente faze-la esquecer da tristeza”. Passava o dia conversando com ela fazendo das cantadas mais apaixonadas até as mais cômicas, só para testemunhar sua reação. Ela era como uma grande amiga que conheci a pouco tempo, as vezes sentia que a conhecia a mais tempo que o próprio tempo. Precisava de alguém assim ao meu lado pensava, porém lembrava das outras vezes em que pensei o mesmo e o contrário me aconteceu. Apesar de estar indo com cautela percebia que estava indo rápido demais, as vezes eu era tão rápido quanto as batidas do meu coração, não lembrava que a conheci a pouco tempo, nem sabia quais são as flores preferidas dela.
Em algum dia olhei para mim mesmo no espelho e não enxerguei mais aquele robô sem sentimentos que era anteriormente, era tão assustador quanto engraçado, aquele que todos conheciam como “A Máquina” estava mudado completamente por causa de uma garota totalmente maluca e fora do comum. Como pode uma pessoa mudar completamente outra em tão pouco tempo? Amigos meus estavam furiosos já pela mudança proporcionada por essa garota. Passava a maior parte do tempo destinado a conversas nossas conversando com ela, gastando o nosso precioso tempo dos finais de semana para conversar com ela. Deus é a prova de que eu tentei. Ela era tão meiga e me fazia enxergar a vida com outros olhos, em uma fração de segundos senti que talvez o que sentia fosse amor, pela primeira vez em todos esses anos senti o sentimento que é dito por alguns como a síntese da humanidade.
Sempre tive o costume de admirar as estrelas e a lua de cima da minha casa, me sentia pequeno em comparação a tudo e grande por fazer parte de tudo. Após conhecer essa lunática admirar as estrelas não era mais a mesma coisa, era algo totalmente diferente. A lua era maior e mais bela e o sentimento de inferioridade sumiu de uma vez por todas. Era como se usasse uma lente diferente em um telescópio com tecnologia de ponta. Um grande literato da cultura japonesa fez uma aproximação da palavra “eu te amo” com “como a lua é bela”, dizendo que a pessoa está tão presa aquele sentimento que é capaz de perceber uma beleza oculta sobre a lua, sendo usado até hoje na cultura japonesa.
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Foi em um domingo de manhã que a notícia veio como um torpedo de um submarino à espreita do seu inimigo. “Eu quero que sejamos amigos para sempre”. Em um primeiro momento aceitei a ideia, tudo bem ao menos eu tentei. Porém ao longo do dia fui percebendo o quão triste isso era, minha maior oportunidade jogada fora, a decepção contida dentro de mim era gigantesca. Eu senti que meu mundo voltou ao mesmo preto e branco. Olhar para a lua agora nunca mais terá o mesmo sentido, escutar essas músicas não farão mais sentido. Mais uma vez o destino prega mais uma peça comigo, enquanto tomava banho coloquei a temperatura da água no mais gelado possível e enquanto a água gélida caía sobre mim pensava “Por que Deus ou universo ou destino ou o que seja? Por que preciso sempre ficar com esse sentimento preso ao meu peito? Por que o amor precisa me machucar tanto? Só me diga a resposta disso tudo...
Sabia que mesmo ela dizendo “ a culpa não é sua, é minha” eu sabia que a culpa era sim de minha responsabilidade. Sabia por que as anteriores sempre usaram desse mesmo artificio, assim como “ainda é cedo”. Eu não fui capaz de demonstrar o quão profundo era minha paixão e de demonstrar até aonde eu poderia ir. Desisti sem mesmo tentar me levantar já que mesmo se lutasse como em casos anteriores a situação iria de pior a pior. Nada eu poderia fazer, apenas aceitar meu destino novamente. O vazio de antes voltou, me transformando aos poucos na velha máquina de antes. Deixando tudo de lado novamente para virar aquele ser sem sentimento algum, apenas virado para livros, esportes e o conhecimento, a verdadeira paixão do homem. Todos os momentos valiosos serão destinados a um lugar na minha memória aonde guardo todos os acontecimentos parecidos, ao esquecimento. Todos os momentos valiosos serão perdidos como lágrimas em uma chuva.
Todos esses acontecimentos serão de um dia para outro, esquecidos para que eu possa continuar minha caminhada a um lugar desconhecido destinado ao desconhecido, o futuro. Nada me resta a não ser jogar tudo isso na fogueira. Queimando as letras, as frases, os versos, acontecimentos, as poesias e por último meu amor.
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Atualizado em: Seg 11 Set 2017
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