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O passado se renova.

Mais uma manhã... Acordei cedo, mesmo sem compromisso. Levantei da cama. Dores nas pernas, nas costas, em tudo. Mas sempre penso que elas me ajudam a lembrar o quanto eu vivi, e como estou viva, viva e sentido tudo, até mesmo dores.
O café da manhã sempre me faz recordar de minha avó, enquanto preparo meu chá, me lembro das fracas e vividas mãos dela, me ensinando como esquentar a água e coar as folhas das ervas.
As vezes penso como é engraçado, em um segundo eu era a netinha, toda encantada com as histórias maravilhosas de minha vó, divertia-me vê-la tentando se manter atualizada com as brincadeiras e gírias do meu tempo, e então eu me tornei a avó. Aquela avó, que tenta entender as mudanças que o tempo trouxe, tanto para a sociedade quando para si mesma. Aquela vó, que espera ansiosamente os netinhos chegarem, para diverti-los com as histórias de minha vida, histórias que a certo tempo foram somente mais um a de minha rotina.
Depois do café, resolvi ir até ao mercado, mais para passear e ocupar meu tempo do que para fazer compras. Fui até o ponto de ônibus e fiquei muito contente ao avistar uma jovenzinha, que não passava dos dezesseis anos. Já fui imaginando como poderia puxar assunto com ela, pois quando se chega à minha idade, a coisa mais preciosa e divertida que pode acontecer é dividir todas as experiências e histórias que todos esses anos acumularam.
Me aproximei da mocinha com um sorriso aberto, leve e feliz. Fui retribuída com um sorrisinho amarelo e fraco. Mal pude cumprimenta-la, para puxar assunto, pois assim que fui abrir minha boca, a moça já estava completamente entretida com seu celular. Cabeça abaixada, olhos fixos na tela, provavelmente em algum texto sem muito conteúdo, das inúmeras redes sociais...
Ri sozinha, ao pensar como essa jovem se surpreenderia com o fato de eu saber sobre redes sociais. E que “redes sociais” não é um por cento do que eu sei... Não sou muito estudada, não é isso que quero dizer, mas o tempo... Ah, o tempo, este me ensinou muito mais do que “redes sociais” ...
Os jovens em geral acham que a idade o torna lento e muitas vezes burro. Mal sabem eles, mas também como poderiam saber, ainda têm tanto o que aprender...
Poderia ter sentindo-me muito mal por essa garota, pois no final das contas, me evitar e fingir que não existo foi uma perda muito maior para ela... Não estou querendo me engrandecer, mas sei como é valioso a prosa de um ancião.
Quando mais nova, para mim era uma honra escutar tudo o que os mais velhos tinham a dizer. Eu sabia que não eram perfeitos, nem tão pouco deuses, mas o que tinham de valioso era o conhecimento. Suas memórias, histórias e experiências são as marcas de uma era, de uma geração.  A única forma de chegarmos mais perto de conhecer nosso passado, é falar com quem o viveu.
Quando percebi que a idade chegava, me senti mais do que honrada em estar me tornando uma dessas pontes ao passado. É lógico que tal honra vem com um preço, as dores e mudanças do meu corpo e mente não foram fáceis de aceitar. Mas saber que toda bagagem, toda vivencia de uma geração inteira, estavam agora armazenada em mim, valeu a pena.
Mas qual foi minha pior surpresa ao perceber que essas novas gerações não viam o quão importante é o passado, e que os idosos são a fonte viva para o mesmo. Essa moça é somente um dos inúmeros momentos que me fazem sentir pena dessa sociedade.
Jovens que não respeitam os idosos, jovens que não cuidam dos idosos, jovens que não se importam com os idosos. Essa é nossa atual realidade, e isso é simplesmente triste. Os idosos não são perfeitos, mas nossas mentes são arquivos do passado, somos museus onde sempre é possível encontrar uma nova relíquia, se explorados sempre poderá encontrar novas e incríveis descobertas.
Mas essa sociedade não sabe a importância disso, me pergunto onde erramos... Quando foi que o passado perdeu o brilho que sempre teve? Muitos dizem que o passado não deve ser lembrado, e que somente o presente e o futuro devem ser vividos. “Quem vive de passado é museu”. Bom para mim, museus sempre foram lindos e incríveis.
Sim, viver o presente e pensar no futuro é sim importante, mas será que lembrar e pensar nas experiências vividas, nos acontecimentos e histórias passados não é também muito importante. Sempre amei aquele velho ditado “Devemos aprender com nossos erros e acertos”, esse talvez seja um dos piores defeitos da sociedade atual, por não se importar com o passado, e não aprender com ele, muito erros não são evitados.
E quanto a essa mocinha, bom ela está entretida com alguma coisa em seu celular, ela perdeu a chance de saber algumas velhas histórias, talvez bobas, mas mesmos assim preciosas.
O ônibus chegou, enquanto a jovem vai para porta da frente, eu espero a porta de trás ser aberta, e penso que essa é apenas uma das muitas diferenças que há entre nós, mas lembro que também já fui essa jovem, e que um dia ela será essa idosa, e no fim só tenho um sentimento, esperança. Esperança que quando envelhecer, ela tenha muitos ouvidos que queiram escutar e saber sobre suas histórias, suas experiências, sua geração. E espero que ela tenha muita coisa para contar, e quem sabe assim os próximos possam aprender com esse novo passado.
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Atualizado em: Sex 18 Ago 2017
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