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Um conto (causo) pantaneiro

Um conto pantaneiro (causo, por assim dizer). Deve ter sido ¨contado¨ oralmente inúmeras vezes, não tenho ideia quanto. Adaptado e escrito  por mim, minha versão desse conto:
 TIÃO CARNIÇA RUMO À FAZENDA SÃO BENEDITO
Não era dia e nem era noite. Era a hora do ¨lusco-fusco¨, onde o dia está terminando e a noite começando. Seu cavalo, um tubiano velho, cego de um olho e troncho, mas acostumado com os caminhos do brejo, ia a passos lentos, mas seguros. Juntos, cavalo e cavaleiro, formavam uma só figura, meia tosca e mal desenhada, sombreado e iluminado ao mesmo tempo pelo lusco fusco. O velho chapéu de palha de carandá completava a figura. As patas do cavalo atolavam maciamente na grama molhada da baixada. Tinha que chegar logo em algum lugar bom pra pernoitar, porque a chuva fina insistia em cair em seu lombo mal protegido por um ponche velho cheio de furos. Era melhor pernoitar e descansar porque ainda tinha mais seis léguas, uma marcha bem dizer, pra chegar ao seu destino: Fazenda São Benedito. Novamente iria vender seus bons serviços de peão vaqueiro a um novo patrão. No seu último trabalho, desentendeu com o patrão que lhe prometeu pagar muito bem pela doma de um burro redomão que teimava em não ser dominado por gente. Não aceitava a monta, nem arreio em seu lombo. Pois, Sebastião (Tião Carniça, como era conhecido nessas bandas), o dominou e domou o burro. Ficou tranquilo o burro. Até puxar carroça com sal, o bicho agora aceitava. Tião era insistente, não desistia fácil de nada. Principalmente na lida. Por isso o apelido, Tião carniça. No final, burro bem domado, e a quantia que lhe foi paga não chegou nem na metade do que foi prometida. Por tamanho desaforo, Tião Carniça, ¨demitiu o patrão¨. Saiu daquela fazenda derramada, tão logo juntou suas traias. Um alforje com alguns remedinhos, cigarro, mate, fósforos... Recolheu suas poucas mudas de roupas e jogou de qualquer jeito em sua mala de garupa. Despediu rudemente da peonada do galpão. E foi embora, procurar seu rumo. Já tinha andado umas quatro léguas e lembrou que esqueceu de pegar sua velha rede. Paciência, daria um jeito para pousar em algum lugar. E, não tinha mais como seguir, o lugar que teria que pernoitar era ali mesmo, um murundu quase em frente a um braço de corixo. Lugar bom pra passar a noite. Água e uma arvore de bom tronco para encostar o lombo. Apeou do cavalo, e pra piorar a ¨coiseira¨, a chuva engrossou. Tião Carniça estava ¨feio na traia¨: sem rede, sem lugar coberto pra dormir e com um ponche velho que mal lhe cobria meio corpo. Ele não conhecia o lugar, mas teria que ficar por ali mesmo. Desencilhou o tobiano velho e o colocou na soga, bem comprida que é pro cavalo velho poder pastar a boa grama verde do lugar. Sentiu um ¨fedor¨ de carniça velha e viu a uns dez ou quinze metros de onde estava, a carcaça de um velha vaca. A cabeça da vaca de um lado e o couro, mumificado, praticamente inteiro do lado. Acomodou-se junto ao tronco da arvore, usando a mala de travesseiro e o ponche lhe cobrindo o que podia. Só agora percebeu que o vento sul, fraco mais cortante, estava lhe causando frio, muito frio. Pegou seu velho alforje de tantas viagens e pegou um ¨remédio¨ para conter o frio e confortar seu corpo. O remédio era um meio litro de pinga que havia comprado de um mascateiro no dia anterior. Essa pinga seria seu cobertor. Essa pinga seria seu remédio por hoje. Tomou um gole comprido e até se engasgou. Com a pinga ainda queimando em sua garganta, seus pensamentos aquietaram-se. O peão pantaneiro, agora, parecia um buda em meditação profunda. As gotas de chuva caiam como em câmara lenta. Escutava o barulho da grama crescendo. Saindo um pouco de seu torpor, percebeu que ali pertinho estava um grupo de capivaras sentadas. Pareciam também estar meditando. A chuva para as capivaras também caia em câmera lenta e também podiam escutar o barulho da grama crescer. De repente, como se o céu estivesse caindo ou coisa pior, o barulho mais aterrorizante que Tião escutou em toda a sua vida: o esturro inconfundível de uma onça pintada! As capivaras gritaram praticamente junto com o esturro e correram para a água quase que na velocidade da luz. O medo tomou contou do Tião Carniça. Seu cavalo? Com o esturro da onça, arrebentou a soga (um maneador comprido, mas fraco) e disparou campo fora. O tobiano velho não ia ser comida de onça. Tião se viu, então, na pior situação que já passou em toda em sua vida. Sem arma de fogo, tinha apenas uma velha faca coqueiro e uma chaira solinge. Ficou com a faca na mão, e procurou ver aonde estava a onça e como faria para enfrentar o bicho. Estava com medo, mas não iria se entregar fácil. Iria lutar com o bicho. Um raio iluminou o céu e Tião pode ver a danada. Era uma onça macho. Grande e cabeçuda. Já ouvira falar desta onça. Era onça boliviana, cabeça grande e ¨cu de chaira¨. Um monstro daqueles que faz cachorro ruim mijar de medo e terror no pé do dono.  Controlou seu medo e aflição e começou a pensar uma estratégia para enfrentar a situação. Subir na arvore não era uma idéia boa, pois onça sobe também. Ele não podia era ficar exposto ali, quase uma isca para a grande onça. Viu, com a ajuda de outro relâmpago, a onça bebendo água. Lembrou da carcaça de vaca seca, distante poucos metros de onde estava. Veio a ideia de que poderia se esconder entrando no couro seco da vaca. Juntou sua garrafa de pinga (um gole antes, claro), sua faca e sua chaira e, sem pensar muito, correu como nunca até chegar no couro. Se jogou por baixo e entrou ¨na vaca¨. Seu coração batia aceleradamente, ele até podia escutar. Ficou quieto ali, escondido. Por um pequeno buraco, viu que a onça estava com o olhar direcionado para o couro da vaca. E agora? Olhou mais uma vez e a onça veio andando em direção ao seu esconderijo.  E ele ali dentro de um couro seco de vaca. E como fedia o tal couro. Mas, fazer o que? Foi a única coisa que tinha por ali para se esconder. Agora precisava fazer algo contra a onça que se aproximava cada vez mais. A onça veio na direção do couro, andando sorrateiramente, como todo felino. Vinha desconfiada, devagar, sentido o cheiro de carniça do couro, mas também de algo vivo. Tião esperou a onça chegar para tomar atitude. Talvez levantasse e com a faca na mão iria tentar assustar a onça. Mas, será que ela correria? A onça começou a cheirar o couro e andar em volta dele. Tião escutava até a respiração da onça. Um relâmpago mais forte deu um clarão suficiente para Tião enxergar o rabo da onça que entrou para debaixo do couro. Sem pensar direito, Tião pegou levemente o rabo desta onça e enrolou na sua chaira solinge. Tudo muito devagar. Segurou, com a outra mão, nas costelas da vaca que ainda estavam pregadas no couro. Segurando firmemente a chaira com o rabo da onça, tomou coragem e soltou o maior grito que já tinha soltado até hoje. A onça tomou o maior susto da vida dela e saiu correndo pela vazante a toda velocidade. Tião segurava firme o rabo desta onça e o couro da vaca. A onça correu tanto que o couro, com Tião dentro, começou a voar. No meio da vazante, Tião soltou o rabo da vaca. Não sentiu, porém, nada abaixo de seus pés. Estava voando e, pelo vento que fazia ou pela sensação que tinha, estava bem alto, muito alto. Relaxou um pouco, tomou o restante da pinga, e amarrou as duas mãos junto a costela da vaca. Tião Carniça voava alto agora. Como estava muito cansado, mesmo com o medo da onça e da altura que estava, adormeceu profundamente. Não se sabe quantas horas ficou voando, mas acordou com os barulho de cachorros latindo e o sol já forte. Estava com dores no corpo todo, mas estava vivo! Bem devagar foi levantando o couro e, para sua surpresa, estava no campo de pouso da Fazenda São Benedito. Voou as seis léguas de distância e chegou ao seu destino. Todo dolorido, sem seu cavalo, cheirando a carniça do couro, com uma ressaca daquelas, mas vivo! A peonada da fazenda gargalhava de ver aquele peão todo desgualepado, sem traia, sem nada! Tinha uma garrafa de pinga vazia na mão, e estava cheirando a carniça. Para Tião Carniça a história verdadeira é a da onça. Para ele, o apelido Carniça era porque não desistia fácil de nadas. Para os peões é porque na chegada o homem fedia a carniça.  Para a peonada é mais um que a danada da cachaça derrubou. Vai saber, né? Nas fazendas vizinhas, tem gente que jurou ter visto um disco voador parecido com uma vaca sem cabeça na noite anterior....
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Atualizado em: Sáb 5 Ago 2017
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