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Oito anos

Oito anos de um relacionamento absolutamente impecável. Acreditavam ambos terem encontrado a fórmula do relacionamento perfeito: silêncio e intimidade física absoluta. Trabalhavam extensamente, os dois, mas o final do dia era um prazer habitual. Chegavam ao apartamento comum, normalmente não ao mesmo tempo. O primeiro acendia a lareira, servia duas taças de vinho e sentava-se à espera do próximo que, invariavelmente, chegava, tomava sua taça, beijava o outro na testa, olhava-o ternamente nos olhos por alguns segundos e se sentava na poltrona vaga. Nem sempre era o mesmo vinho, a mesma poltrona, mas sempre era o mesmo olhar.
Certa noite, após a habitual ingesta de álcool acompanhada de boa música ou alguma leitura genérica, contemplação ativa do luar ou, quem sabe, do outro, deitaram-se como de costume. A mulher, como selado em seu pacto silencioso completamente independente de termos e parolas, esperou que o marido se deitasse, ajoelhou-se à beira da cama, tirou seu robe de cetim e começou a beijá-lo. Sempre na exímia perfeição minimamente exigida para a não necessidade de uma discussão posterior, de teor qualquer .
Mais tarde, deitados um de frente para o outro, com as mãos dadas sob os lençóis, o marido observava sua esposa adormecida, iluminada fracamente pelos raios que invadiam os entremeios das persianas recentemente instaladas. Ela era estonteante. Não o era de uma forma juvenil, ideal, mas a natureza de sua relação absolutamente pura tornava sua esposa a mulher mais admirável que já pisou na superfície terrestre, ao menos sob o filtro das lentes de seus olhos. Comovido com aquele sentimento, estupefato como nunca antes, atreveu-se a dizer uma palavra. Não fora um risco calculado, não fora meticulosamente programado; não tinha, sequer, uma intenção: foi como um reflexo tendíneo.
"Lúcia", sussurrou. Sem resposta. Do outro lado, a esposa ouvira seu nome pela primeira vez saindo daqueles lábios. A voz dele de nada se assemelhava a seus sonhos eventuais. Que diabos ele estaria fazendo? Teria perdido a razão depois de tantos anos perfeitos? Queria jogar tudo que haviam construído aos ventos? Não teria o mínimo respeito por aquela relação? "Lúcia, o que você sente quando está aqui deitada comigo todas as noites?". O corpo de Lúcia se congelou com o pavor que aquelas palavras causaram. Contemplava aí o início do fim. Não conseguiu responder, apenas abrir os olhos e fitá-lo com extrema repreensão - fato inédito naquele relacionamento perfeito.
"Pois eu sinto vontade de clamar ao mundo a intensidade do meu amor. Lúcia, como pude ser tão cego? Preciso saber todas as suas histórias, todos os seus medos, todos os seus vieses, suas dores e chagas, seus fetiches e rompantes, suas drogas, seus venenos, seu perfume. Lúcia, como pude viver nessa cegueira absoluta? O que sinto nesse momento exímio, tomado pelo sentimento absurdo de te possuir, de ser digno de seu carinho, é impronunciável. Danem-se os deuses do destino: estou aqui, contra todas as evidências, deitado ao lado da mulher mais magnífica já esculpida pelas benesses do acaso e da genética. Seu cheiro está impregnado em toda a mobília, em todos os lençóis, na extensão completa do meu ser. O puro toque da memória de seu rosto traz à tona esse perfume indigno de comparação com as mais primaveris flores de laranjeira. Lúcia, saiba agora, saiba sempre, você é minha e eu sou seu. E não há nada mais no mundo que tenha a mínima importância enquanto essa máxima preponderar".
Lúcia saiu de seu estado torporoso e, mantendo o silêncio monástico, levantou-se, enrolou-se em seu robe de cetim, pegou uma pequena necessaire que mantinha no criado-mudo e desapareceu, para nunca mais voltar.
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Atualizado em: Sáb 5 Ago 2017
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