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Colina - TEOMAKIA Prólogo

O trato era mútuo: Caio ajudaria Maria a encontrar pistas sobre o passado de seu mestre enquanto ela o ajudaria a fazer o mesmo com relação ao seu. Era tarefa difícil mas, desde que foram nomeados para suas Cátedras, receberam permissão do próprio imperador para agir conforme lhes parecesse melhor. Desde que, é claro, não colocassem em risco a vida de terceiros. Seus mestres eram os dois ex-catedráticos mais misteriosos da geração passada. Quando perguntados, os outros dois se limitaram ao mínimo, dizendo que eles eram poderosos, tinham um entrosamento fora do comum e surpreendiam os inimigos sempre. Até o dia em que os surpreenderam a todos.Aidan, então catedrático do fogo, foi primeiro a nomear alguém completamente fora do padrão para sua sucessão. O paladino Éolo, catedrático do ar, foi primeiro a desertar e matar um companheiro.

Hoje estavam atrás de pistas sobre Aidan. Sua mãe residia na casa grande atrás da antiga colina, 3 léguas a noroeste, seguindo a estrada do verão desde o portão leste. Após saírem pelos portões, ainda por meia légua havia a periferia da cidade. Apenas a estrada principal era calçada com pés de moleque¹, sendo as demais ruas, finas e tortuosas, de terra batida. Crianças descalças dividiam as poças de lama com porcos, cães, galinhas e patos, brincando e correndo. Foi assim por alguns minutos até que os dois catedráticos, montados em seus jovens garranos, finalmente encontraram a estrada rural, ladeada por chácaras pequenas. Do lado norte-nordeste as propriedades se estendiam até uma alta cadeia de montanhas. Do lado sul-sudoeste, as pastagens e pequenas plantações se perdiam de vista até o horizonte distante. A medida que avançavam, distanciavam-se das montanhas e adentravam mais na planície do grande Rio dos Bois.


Uma estrada de terra numa região acidentada. Montes com vegetação verdejante ao fundo.

Seguiram conversando sobre seus antecessores. Ambos estavam órfãos de mestre desde a mesma data. Num fatídico dia, dois anos antes, os dois haviam protagonizado uma luta totalmente improvável. A dupla, até então, era considerada a esperança de vitória na guerra. Sempre encontravam solução para qualquer crise, vencia batalhas impossíveis, realizavam verdadeiros milagres. Mas a fatalidade ocorreu, e até hoje ninguém soube explicar o motivo.


Maria e Caio tinham um certo entrosamento também. Tinham idades semelhantes, dezessete anos, e gostavam de conversar sobre livros e idéias. Contudo, muito por conta do ocorrido entre seus antecessores, os dois não eram assim tão próximos. Sempre pairou sobre eles o fantasma da insegurança, que os impedia de se aproximarem um do outro sem imaginar que isso poderia acabar como acabou antes.


Aliás, diferente dos outros dois catedráticos, eles viviam a sombra de seus mestres. Caio era visto com desconfiança por todos, por ter aprendido por anos a arte da guerra com um homem que traiu o Império e passou a servir os deuses pagãos. Maria, de uma forma completamente diferente, também amargava um destino semelhante. Nunca antes uma mulher, cabocla² e plebeia havia sido escolhida como Catedrática. Presente de Aidan, o homem que admirava, e que lançava sobre ela uma sombra gigantesca. Ela tinha que mostrar valor para provar que podia ser sucessora de um Dragão, mas não qualquer Dragão. Era Aidan, o "herói improvável", o sucessor indesejado. Ele tinha uma aura tão mitológica que nem parecia que esteve com Maria durante anos.

Um calor abrasador, logo após o final de uma chuva pela manhã, dava o tom quente e úmido daquele dia. As pedras escorregadias da estrada logo deram espaço a uma via sem pavimento, com lama e terra batida. Ao longo do caminho, encontraram algumas pessoas, para as quais sempre perguntavam se estavam no caminho certo. Primeiro, um pai com três filhos numa carroça de leite, lhes disse que estavam próximos da antiga colina, que ela ficaria a direita da estrada após a próxima subida. Durante a subida, um homem com uma enxada e chapéu de palha que caminhava e cruzou com eles lhes disse o mesmo. Quando chegaram ao topo encontraram um casal com dois filhos pequenos, uma menina mais velha e um de colo. O homem mostrou a casa atrás da colina, mas não havia colina. Na verdade haviam dois pequenos declives que acabavam num descampado plano e redondo onde deveria haver uma. A mulher confirmou que era isso mesmo. Não souberam dizer o que houve com a colina, mas insistiram que ela existiu.

Ao entrarem pela estrada de cascalho, após atravessarem uma porteira e mais um mata-burro a frente, chegaram a porta da casa. Era um edifício relativamente novo, em arquitetura colonial clássica, com dois andares, portas grandes de madeira vermelha e duas janelas da mesma cor de cada lado. Encima, uma varanda de fora a fora. Tinha um curral pequeno próximo e parecia ter uma horta nos fundos. Aparentemente não haviam escravos. Era um tanto modesto, levando em consideração que já foi a casa de um dos generais do império.

Bateram na porta. Caio e Maria estavam vestidos mais informalmente, para não passar estranheza. Logo, dona Maria José, ultima integrante da família Silva, abriu a porta. Era uma mulher triste, muito abatida, de baixa estatura. A maioria dos cabelos já brancos e presos, óculos simples sobre seus olhos de um profundo negro, tão tristes como uma mãe que acabou de perder seu único filho poderia ter. Ver ela assim partiu o coração de Maria, que ficou profundamente abalada. Caio ficou mudo, todo sem jeito. Talvez fosse melhor assim, já que ele era irreverente demais. A voz dela, fraquinha, deu até um nó na garganta da menina.

- Boa tarde meus filhos, vamos entrar, tomar um cafezinho?! - aparentemente dona Maria reconheceu os dois. Isso encurtava a parte das apresentações, o que era bom, ainda mais naquelas circunstâncias. Abraçou os dois com toda a força que nem aparentava mais ter. - Estou tão feliz de ver vocês bem. Seu olhar me lembra do meu filho. Os olhos vermelhos lhe caem bem também. - Boa tarde dona Maria. Obrigada. - respondeu a jovem. - A senhora está bem?

Após um cumprimento tímido de Caio, a conversa prosseguiu. Foi melhor ele ser mais discreto mesmo. Se o olhar da catedrática lembrava o de seu mestre, o olhar do companheiro certamente a lembraria do que o matou. Não tinham pensado nisso antes, agora esperavam que isso não piorasse as coisas. Vendo que não seria um problema, Maria perguntou a dona Maria José se poderiam entrar num assunto mais delicado. Ela já imaginava o que era, consentiu com a cabeça. - Eu queria saber mais sobre seu filho. Como ele era? como a senhora o via? - Ele era meu filhinho. Foi uma criança ativa, mas educada e bem comportada. Seu pai faleceu na guerra quando ele tinha 6 anos, e acabou deixando para ele tanto o título de Barão quanto a cátedra, já que acabou sobrando como único homem chefe da família Silva vivo. Por conta disso, foi atrás de aprender com um tutor na Marca Oriental. Eu tive que aceitar, era o ultimo pedido do pai dele. Por isso, por quase 10 anos em que ele foi criado como irmão daquele homem, eu tive pouco contato com meu menino. E mesmo depois que voltou, ele sempre se referia a aquele bandido como irmão dele.

- Senhora, me desculpe por perguntar sobre isso, mas eu preciso saber mais sobre meu mestre. Sei que dói muito perder alguém importante. Afinal, ele também era importante para mim. Mas sei que para a senhora foi uma perda muito pior.

- Menina, a gente cria o filho é pro mundo. Eu sabia que um dia ia ter que deixar ele ir, mesmo que eu nunca tenha querido isso. Mas perder um filho pra vida é normal. Perder pra morte? A dor é grande demais! Não é justo que uma mãe enterre um filho. Ele tinha que viver muito depois que eu me fosse. Eu devia ter poder de protegê-lo a minha vida toda.

Era algo muito pesado de ouvir, quanto mais deveria ser, de sentir. Maria entendia a dor de perder alguém, que era amado com tanta força por ela, mas não podia imaginar o que era para uma mãe perder um filho. Entretanto o que mais impressionava era a forma como a mãe via o filho. Maria já tinha ouvido todo tipo de história sobre seu mestre, mas nunca que ele tivesse sido dócil, tímido, frágil ou comportado. Educado era, mas quando tratava com desconhecidos e quando era necessário. Quando estava sério confrontava aqueles de quem discordava com energia. Quando não, fazia chacota com tudo e com todos, passava raiva nos adversários, humilhava opositores, fazia piadas de duplo sentido. Nunca viu ele realmente nervoso, mas ouviu falar que era uma cena atemorizante. Já ouviu histórias de que asters ou até mesmo deuses foram orientados a abandonar o campo de batalha se ele estivesse presente. Gostava de lutar, sorria sempre que estava em combate e preferia estar em desvantagem. Mas agora estava ouvindo sobre a outra face desse mito. E, por incrível que pareça, conseguia imaginar. Com ela ele já havia sido gentil, humilde, tímido e até mesmo tinha demonstrado insegurança. Cruzar esses fatos fazia dele uma pessoa de verdade. E dava uma saudade dele grande por demais.

Para os colegas de cátedra, ele era um palhaço, mas quase sempre a certeza de uma vitória, já que era o mais poderoso deles. Para os novos catedráticos, ele fazia medo, parecia ser imprevisível e um tanto desequilibrado psicologicamente. Para os inimigos, o apelido que o deram, Flagelo dos Santos, diz muito. Eles o consideravam a arma suprema da Igreja dos Santos para eliminar os deuses, dando a entender que o próprio rei dos deuses deveria ter cuidado com ele. Mas, para essa mãe, ele era simplesmente seu menino.

Por fim, antes de ir embora, Maria perguntou sobre a suposta colina que haveria em frente a casa. Era uma história comprida, mas resumindo, os deuses haviam descoberto sobre a família de Aidan, 12 anos atrás. Naquela época os Asters faziam incursões profundas dentro do Império, e pela vastidão do território, eles conseguiam chegar perto da capital sem muita dificuldade, antes de serem interceptados por cavaleiros de elite. Ocorreu, então, que um grupo de dezenas de Asters cercou aquela casa. Pela época e pela quantidade, certamente era o Destacamento Dourado do Carneiro. Quando eles começaram a atear fogo entorno da propriedade, de alguma maneira que ela não soube explicar, Aidan caiu do céu, controlou as chamas, as fez atear-se nos inimigos e se colocou a frente da casa. Dona Maria José, mesmo muito preocupada, conseguiu apenas olhar para o que estava acontecendo.

Aquele que parecia ser o capitão do destacamento, provavelmente Hamal, Aster Capital Major, que estava sobre a colina que havia ali, começou a descer em disparada. Quando ele estava a meio caminho, Aidan encheu o peito e cuspiu uma rajada de fogo. Após um forte estrondo, muita fumaça e poeira, sobraram inimigos mortos nas duas laterais e atrás da casa. Porém, onde estava o grosso do destacamento e seu capitão, nem a colina sobrou. O incêndio do outro lado da estrada só foi ser controlado no dia seguinte, com a ajuda do exército imperial. Desde esse dia nenhuma incursão foi vista dentro do império novamente sem ao menos um deus no meio e a guerra passou a ser majoritariamente do outro lado da fronteira. Tempos depois, passou a ser conhecido como Flagelo dos Santos. Apenas uma coisa não mudou: a mãe continuou a ver seu filho como um menino frágil e dócil. Somente ela, no entanto.


¹ pés de moleque: um tipo de calçamento de estradas e ruas caracterizado por pedras irregulares encaixadas, que com o tempo tendiam a ficar pretas e lisas. Foi um método bastante utilizado durante o Brasil Império.

² caboclo: mestiço de indígena com branco europeu.

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Atualizado em: Sex 1 Maio 2020

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