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Menina dos seus olhos (capítulo 1)

Era por volta das vinte horas e quarenta minutos.
         O salão estava cheio. O som tomava conta por onde aglomerações de pessoas se concentravam dançando a música tocada.
         A poucos metros do lado de fora estacionava o veículo, onde: Moabe, Valéria e Davi acabavam de chegar.
        Davi trazia Valéria por ser a sua namorada. Já Moabe viria com eles, não com o intuito de segurar vela, mas sim, por saber que naquela noite amigos era o que não faltaria no ambiente.
         Eufórica, Moabe não pensava duas vezes em adiantar os passos deixando-os sozinhos para trás.
         Porém, logo que Moabe entrava pelo salão, sentia que realmente amigos e gente nova era o que não faltavam naquele instante. Cumprimentava a todos os conhecidos, e por último se apresentando à nova galera enturmada à roda de amigos.
         No meio da galera, Moabe sentia uma espécie de atenção maior por um dos integrantes. Virava e mexia não desgrudava os olhos dele. Parecia mais um estilo de paquera no olhar. Um paquerando o outro. Seus olhares eram tantos, que ela chegava a ponto de constranger-se com a tal situação. Educada, pedia licença, ausentando-se do grupo, num trajeto com a direção ao balcão.
         Já o tal rapaz não perdia tempo, logo tratando de segui-la.
         Notando o quanto aquele momento poderia ser-lhe aproveitável, aproximavam-se espontaneamente:
         — Pois não?
         — Posso te acompanhar?
         De pedido aceito ambos caminhavam trocando palavras.
         A poucos instantes, ambos aproximavam-se do balcão. Ela solicitando a informação do toalete. Ele, escalando uma maneira de arrumar mais tempo deles ficarem a sós.
       De braços apoiados no balcão, com o rosto apoiado sobre uma das mãos, atencioso para que ela logo reaparecesse, Elmano permanecia atento. Afinal, qualquer pessoa que tivesse feito o trajeto que Moabe havia tomado, retornaria pelo mesmo caminho.
         Há poucos instantes, Moabe reaparecia:
         — Puxa, ainda por aqui? – perguntava ela, pasmada pelo tempo em que o teria deixado por ali.
         — Pra você vê? – disfarçava ele, insinuando-se indignado. — Ainda estou aguardando para ser atendido.
         Sem que terminasse de falar, Moabe o interrompia.
         — Não é melhor chamarmos o balconista?
         Após aquela pergunta, Elmano notava que ela alterava a voz chamando por um dos balconistas. Cena em que, de repente, de um modo gentil, ele tocava sua mão esquerda nos braços dela, que, acabava de apoiar no balcão, lhe dizendo:
         — Hei, não precisa. O pedido já foi feito!
         Temeroso que que o plano viesse a estragar, Elmano prolongava as palavras, a fim de ganhar de vez aquele momento.
         — Enquanto não somos atendidos... Por que não sentamos naquela mesa e nos conhecemos melhor?
         — Boa ideia! – concordava ela, em sua companhia dirigindo ao local indicado. — Quem sabe não estão nos esperando sairmos daqui para nos atender?
         Segundos após, ambos se aconchegavam à mesa.
         — Obrigada! – agradecia ela, sentando à cadeira ajeitada por ele.
         — Pelo jeito teremos que arrumar muitos assuntos. – ironizou Elmano. Demora na realidade já tramada por ele com um dos seus conhecidos do balcão.
         — Coitado deles! – compadecia Moabe, sem ter noção do que na realidade já estaria acontecendo. — Eu que não gostaria de estar na pele deles.
         — Não se preocupe. As pessoas quando nascem para ter uma determinada profissão, o gosto a essa profissão já nasce nas veias.
         — Interessante. Mas que mal me pergunte, qual é a sua profissão?
         — Garçom!
         — Então você entende muito bem do que estamos falando. – ria Moabe.
         — Mais ou menos. Mas e a sua profissão?
         — Eu? – constrangia ela. — Posso dizer que sou a gerente do local onde trabalho.
         — Desculpe. Vejo que não gostou da pergunta que fiz.  
         — Não é isso. Na realidade eu que deveria te pedir perdão. Já que é ignorância de minha parte tomar uma postura dessas.
         — O que te faz sentir assim?
         — Tudo. – desembuchava ela, voltando atrás. — Sabe como é viver alguém que não corresponde a nós mesmos? Porque bem lá no fundo só fazemos isso para não magoar aqueles que amamos. – suspirava ela. — Assim sou eu, filha do dono de um restaurante onde exige que pelo menos alguém de seus filhos se empenham nos negócios. Mesmo que isso não seja o que a gente quer.
         — Pense no lado positivo. Verá tudo isso de uma forma mais simples.
         — Que nada! Às vezes isso se torna pior ainda. Fica até impossível não levar o serviço pra casa. Ainda mais quando o assunto se trata de questão financeira.
         Conversas entre eles se prolongavam de certa forma que acabavam envolvendo-se um pelo outro.
         Porém, no meio de suas conversas, Elmano descobria que ela era nada mais do que uma colega de sua ex–namorada, Cremilda. Fato em que momento antes ele descobria o quanto ela teria mexido fortemente com seu coração. Sentimento que o corroía por dentro em se deparar com tal realidade. Mas, que não se intimidava, não deixando de maneira alguma que aquela reação negativa transparecesse no seu rosto. Ao contrário, aproveitava-se do momento para deliciar em ficar do seu lado.
       As horas passaram...
         Moabe e sua irmã, Valéria, tinham um acordo de saírem juntas da festa.
         Valéria, com toda intimidade, sem raciocinar que poderia atrapalhar a conversa da irmã com Elmano, logo que os avistavam, aproximava-se:
         — Com licença. - pronunciava Valéria, colocando as mãos no ombro esquerdo de Moabe. — Temos que ir.
         Moabe apegava o braço dela apresentando-a para Elmano:
         — Vou te apresentar minha irmã. – abusava Moabe. Estratégia que a ajudava esticar suas conversas. Conversas interferida com a chegada de Davi, cobrando o trato delas cujas haviam assumidas com seus pais.
         Moabe logo se despedia. Apesar de sua vontade era de continuar um pouco mais na companhia dele, mesmo tendo noção da responsabilidade de arcar com as consequências diante dos pais.
         Diante de tudo isso, pelo menos uma coisa Moabe tinha certeza: de que daquela noite em diante nada mais seria como antes. Afinal, acabava de conhecer alguém que mexeu verdadeiramente com seu coração.
         Já Elmano, também sairia empolgado. Por certas ocasiões, depois de tantas decepções carregado da ex, parecia que realmente na sua vida algo de bom estaria acontecendo: era uma nova mulher, um novo amor! O aparecimento de um novo amor, que, já no primeiro olhar, seu coração declarava que ambos teriam nascido um para o outro. Encontrando a alma gêmea.
         Porém, do outro lado algo de complicação também estaria pintando em sua vida. Como era de seu conhecimento, esse seu novo amor, nada mais era do que uma simples amiga da sua ex.
**********
       Já na manhã do dia seguinte, por volta das nove horas, Elmano levantava-se da cama um pouco mais tarde. Enfim, estava de férias e isso lhe daria um bom proveito.
         Elmano mal se espreguiçava, e já ouvia um barulho que o incomodava. Era um ruído que vinha do outro lado da porta. Ao escutá-lo, chamava por sua mãe, perguntando o motivo do barulho. Resposta que não tardava a ser respondido.
         — Tem uma visita te esperando na sala e pelo jeito está com pressa. Vai atendê-la?
         — Visita pra mim? Mas quem é? - empolgava ele, de porta fechada.
         — Cremilda. Vai atendê-la?
         Emburrado, Elmano, sem camisa, só de short, com a toalha de banho na sua mão direita se dirigia à porta. Escorando-a com a mão esquerda, resmungou:
         — Preciso atender?
         — Seria uma gentileza. Afinal, sabe tanto o quanto eu o que ela veio fazer aqui.
         — Se estiver referindo-se ao fato de sermos namorados, é bom parar. - repreendia Elmano, fechando a porta.
         — Como assim? – desentendia Maria Helena, impedindo-o de fechar a porta, com o pé direito escorado sobre ela. — Pelo que sei, ontem à noite vocês teriam saído juntos!
         — Isso é o que a senhora pensa. E agora que está ciente de tudo isso, pode me dar licença? Estou dentro do meu quarto e quero tomar um belo de um banho.
         Pedido negado, da qual sua mãe, Maria Helena, demonstrava perplexa com a notícia.
         — Não, senhor! Até quando não me esclarecer tudo o que está acontecendo, não sairei daqui. Afinal, com quem você estava ontem na festa? – perguntou Maria Helena, aguardando uma resposta, enquanto abusava do momento em que Elmano deixava de se escorar na porta, dando os passos para dentro. Elmano, porém, não se intimidou apenas tomava posturas silenciosas na qual ela notava que a pergunta veio em vão. — Elmano, não pense em fazer com ela o mesmo que teu pai fez comigo!
         Acostumado com o gênio da mãe, Elmano zangava-se, dando-lhe as costas caminhando para o banho.
         Maria Helena, porém, notando que sua atitude só viria a azedar o dia, retirava-se, arrumando desculpas improvisadas à Cremilda.
         Enquanto isso em outro canto da casa.
         Cremilda encontrava-se de pé, virada de costa para quem estava nos demais cômodos, enfatizada com a paisagem que seus olhos contemplavam da janela do apartamento, à vista panorâmica da cidade.
         Cena interferida com a chegada de Maria Helena:
         — Nossa, ainda de pé? Senta um pouco pelo menos!
         — Obrigada pelo convite. Prefiro o convite para uma outra ocasião. Estou com um pouco de pressa.
         — Se eu fosse você não pensava desta maneira. Ele acabou de entrar no banho e pelo que indica deve demorar.
         — Obrigada pela sinceridade. Mas é que estou com muita pressa mesmo. Senão não pensaria nem duas vezes pra aceitar o convite.
         Confusa, mas percebendo que a paisagem da janela concentrava a atenção de Cremilda, Maria Helena aproximou-se prolongando a conversa.
         — Vocês ainda estão namorando?
         Cremilda deixava de avistar a paisagem, encarando-a com um olhar incrédulo:
         — Ele não quer me atender, não é?
         — Não foi isso que eu quis dizer!- inibia Maria Helena.
         — Então por que me perguntou? – amargurava Cremilda, distanciando-se e caminhando em direção ao sofá. — Apenas brigamos como um casal de namorado qualquer.
         — Ele me diz que o namoro de vocês chegou ao fim!
         — Ele diz isso? – revoltou Cremilda. — Mas é um tremendo cara de pau, mesmo.
         — Hei, calma lá! É bom que saiba que estamos falando do meu filho!  
         — Pode ser. Mas não deixa de ser um tremendo..., – desembuchou Cremilda, voltando atrás as palavras. — Ah! Quer saber de uma coisa? A senhora não tem nada a ver com o que nos aconteceu. É ele que tem que escutar a realidade.
         — Posso até entender o que está passando. Mas nervosismo nesta hora é o menos que deveria ter. – tranquilizava Maria Helena. — Senta aqui, vamos conversar um pouco.  
         — Me desculpe. Mas piedade é o que menos me interessa neste momento.
         — Cremilda, não diga isso, também já passei por isso. Inclusive pelo próprio canalha do pai de Elmano.
         — Não me apaixonei por teu filho só para te dar um neto não. Apaixonei-me para tê-lo para a vida toda.
         — Você está grávida? - espantava Maria Helena.  
         — Infelizmente não! Mas bem que deveria! Aí sim ele pagaria muito caro!
         — Muita calma, nessa hora. Filho nenhum segura um homem. Pois se isso fosse real não haveria tanta mãe solteira por aí...
         Fatigada, com a suspeita sobre o possível chá de cadeira que Elmano estaria lhe dando, Cremilda se levantava.
         — Bem, deixe-me ir, pelo jeito não vai querer me atender mesmo. Mas por favor, diga-o para me procurar. Temos muito que conversar.
         Constrangida, Maria Helena acompanhava-a até a porta, logo se despedindo.
         Aliviada, Maria Helena fechava a porta. Em seguida encosta-se sobre a porta e simultaneamente fechando os olhos, num gesto de agradecimento com as mãos para cima.
         Cena em que ela não imaginava, mas que, Elmano presenciava tudo, escondido atrás do corredor onde dava de frente a sala.
         — Parabéns, Dona Maria Helena! Agradecendo a Deus pela saída da visita indesejável? – caçoava ele, de braços cruzados, logo reaparecendo a sua vista.
         — Não sei do que está falando. – incomodou ela, desencostando-se e caminhando à copa. — Inclusive, nem sei o que estava fazendo aí? Ah! Já sei, deve estar fugindo do rabo de fogo do qual você procurou.
         — Não sei por que está dizendo isto? Não são vocês mulheres que vivem falando que isso é da nossa própria natureza?
         Maria Helena parava o trajeto, encarando-o sombriamente, era como se seu gesto fosse o suficiente para o recado passado.
         Reconhecendo aquele olhar; Elmano imediatamente se apressava para o café, logo se despedindo e saindo para rua com a intenção ao cúper.
         Já do lado de fora do apartamento, Elmano pressentia estar perseguido. Um pressentimento no qual ele logo se deparava com a realidade, ganhando a companhia de Cremilda. Companhia ignorada, sem trocar um olhar ou uma palavra sequer, por mais que ela se pronunciasse.
         Ofendida, Cremilda dava-se de idônea, ignorando a frieza.
         — Gostaria de caminhar sozinho. – sugeria Elmano, a um tom não muito gentil.
         — Só depende de você. – repudiava Cremilda, seguindo seus passos.
         — Como assim? – ria ele, deixando de caminhar e segurando seus braços.
         — Depende. Se houver cavalheirismo de sua parte para conversarmos?
         — Cavalheirismo? Dá pena, ao mesmo tempo uma tremenda vontade de rir de sua cara.
         Constrangida, Cremilda interrompia-o arrumando uma justificativa:
         — Te amo! Não sabe como dói ouvir isto. Talvez ainda não entenda, mas dói, aqui dentro do peito ser desprezada por alguém que a gente mais ama neste mundo!
         — Ah! Pare com isso Cremilda. – repreendia ele. — Agora diz que me ama?
         Enfurecida, Cremilda segurava um dos seus braços, logo que ele lhe dava as costas.
         Gentil, Elmano pedia que ela o soltasse. Mas, ela persistia, logo que estando de frente lascando-lhe um beijo.                
         Cena em que tudo poderia dar certo. Afinal, seus lábios teriam se encostado. Faltando apenas o consentimento da parte Elmano.
         — Você é louca! – zangou Elmano, limpando-se daquele suposto beijo.
         — Sou louca sim. Mas é por amor a você. – revidava Cremilda.
         — Isso já não pesa mais nada sobre nós.
         — Tenho certeza, que não está me deixando por ter-te traído. Vamos me diga, quem é ela? Quem é a cretina, me responda Elmano!
         Inconformado, Elmano procurava não se descontrolar, ignorando-a de vez, reiniciando a caminhada, enquanto ela o perseguia.
         — Você não tem o direito de me tratar assim. Foram anos de namoro. E agora por um deslize meu, achou mais fácil passar uma borracha em tudo do que vivemos. – irava Cremilda, com lágrimas descendo pelo rosto.
         — Você não sabe do que está dizendo. Eu sempre te amei.
         — Tenho lá minhas dúvidas. Se me amasse mesmo não teria deixado a nossa história terminar assim como um ponto final.
         Palavras que não o sensibilizava, ao contrário, dava-lhe força pra falar do novo amor que surgia na sua vida.
         Decepcionada, Cremilda sentava no banco de uma praça da qual estaria próximo deles, deixando Elmano prosseguir a caminhada.
         Entretanto eles não percebiam, mas bem próximo dali, estaria Luciano parado num carro, avistando suas conversas. Uma visão que, logo aproveitaria para conversar pessoalmente com Cremilda.                
         De início Cremilda recusava atendê-lo, culpando o pelo fim do seu namoro. Luciano, mesmo discordando de suas acusações, deixava-a em paz. Comprometendo-se de se encontrarem mais tarde ainda naquele dia.
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Atualizado em: Dom 9 Jun 2019

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