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Conversa na biblioteca.

— Sempre esbarro em você. Desculpe.
— Não tem problema. Sei que não é culpa sua. E então? Muita leitura?
— No último mês sim. Pra dizer a verdade, já me acostumei. A leitura sendo feita todos os dias em horários específicos é algo que me agrada.
— Então gosta da previsibilidade?
— De fato isso me conforta. Você não gosta, pelo que me parece.
— Para mim tanto faz.
O incômodo silêncio recaiu sobre ambos. A bibliotecária passou na estante de trás limpando o pó acumulado.
Ela cantarolava baixinho e vez ou outra sacudia os ombros ou o quadril, talvez acompanhando a música.
Quando ela se virou para seguir para a outra série de estantes no corredor ao lado, a conversa foi retomada.
— Então, gosta daqui? O silêncio? A calma?
— Eu gosto mesmo é de viajar de avião, é tão emocionante. Você já foi?
— Só uma vez. Não posso dizer que foi minha experiência favorita até hoje.
— Do que você gosta? Além da leitura cronometrada?
— Está sendo sarcástica?
— Um pouquinho.
Outro silêncio até que veio a resposta dele.
— Gosto de andar de trem.
— Já sei qual é a sua. Você curte coisas seguras, previsíveis e familiares.
— Isso.
— Eu sou totalmente o contrário.
— Jura? Nem deu pra notar.
— Sim, eu gosto de aventura, me arriscar e correr perigo.
— O perigo... sabe, é perigoso.
Ela riu com a observação e a bibliotecária, que não estava muito longe olhou na direção do som.
— Shii, aqui é uma biblioteca... - ele disse desesperado com a falta de modos dela.
Após um minuto de contemplação, a mulher voltou ao trabalho e a conversa prosseguiu:
— Vai me dizer que você nunca se machucou?
— Não. Intacto desde que fui feito. Você já?
— Claro, tenho uma ou outra parte faltando. Qualquer dia desses eu te conto quais.
Foi a vez dele rir.
— Quê?
— Sei algo que te falta: bom senso, senhorita aventureira.
— Se eu pudesse te dava um chute.
— Sorte a minha que não pode.
A bibliotecária se afastou ainda mais do ponto em que estavam.
— Bibliotecas tem poeira, eu odeio.
— Nisso eu tenho que concordar. É o ponto mais inconveniente. Porém, é normal que haja pó. Afinal, olha quantos livros estão aqui.
— Sim e alguns deles não são lidos nenhuma vez no ano inteiro.
— A galera gosta mais dos livros digitalizados. É tão injusto.
— Deveriam dividir entre os digitalizados e os físicos. Só que nuncahá um equilíbrio. O ser humano gosta da praticidade e da velocidade. Esquecem o que para eles ficou ultrapassado.
Ouviram a voz da bibliotecária conversando com a colega que registrava as retiradas de livros e devoluções no computador.
— Samantha, Já deu a hora. Eu tô indo embora.
— Pode ir, eu vou esperar o meu namorado e fecho tudo hoje — respondeu a outra.
Samantha tinha a voz mais fina, suave e falava com tom mais doce que a primeira.
— Posso mesmo confiar em você, menina? Não vai se achando a dona do lugar só porque entrou aqui a pedido da supervisora. Você tem responsabilidades — alertou a mulher com tom severo.
— Eu sei. Pode ir. Eu cuido de tudo. Eu prometo — assegurou Samantha agora falando com tom magoado e um tanto agressivo.
— Certo, então até amanhã. — disse a bibliotecária indo buscar a bolsa.
— Queria ter uma câmera agora para gravar nossa noite na biblioteca.
— Seja mais realista. Quem iria assistir se você pudesse gravar?
— Todo mundo! Seria inovador! Já fizeram vídeos passando a noite no shopping, tem um filme que se chama "uma noite no museu", por que não ter um mostrando uma noite na biblioteca?
— Porque a única coisa que veriam seriam livros enfileirados, e o único som seria o tic-tac monótono do relógio. Supondo que ele fizesse um som alto o suficiente para ser gravado, é claro.
— Você é um poço de gentileza. Obrigada por estragar minha fantasia literária!
— Desculpe. Eu não quis...
— Quis sim, então fica calado aí e não me enche mais a paciência.
— Quanta amargura.
— E ele ainda zomba de mim! Atrevido.
— Por favor, me desculpe. É o meu jeito de ser, não quis te chatear. Me conta, por que está se escondendo aqui?
O tempo passou e ouviram o tic-tac do relógio citado por ele antes.
— Não estou me escondendo. Eu não tenho motivo pra fazer isso. Todos gostam de mim. Eu estava na escola, era popular, conhecia o rosto da maioria dos alunos e de alguns dos professores. Era divertido.
— Não entendo...
— Me forçaram a vir para cá. Portanto, não estou me escondendo.
— Quem te forçou?
— E você? Quem te obrigou a ficar aí encolido com medo do perigo? Até rimou!
— Ninguém.
— Opa, que tom é esse? Alguém foi abandonado?
— Você está errada. Ninguém me abandonou!
— Como ela era? Se abre comigo. Eu posso ser legal se eu quiser.
— Não, eu não vou te contar nada.
— Você está morrendo de vontade de contar. Eu prometo que não vou rir e nem debochar muito. Conta como ela era. Eu gosto um pouco de histórias de amor, quando são trágicas.
— Tá. Ela tinha um sorriso único, os olhos eram verdes, as mãos dela eram gordinhas e as unhas estavam sempre pintadas de rosa. Essa era a cor favorita dela.
— Quanto tempo vocês ficaram juntos?
— Uns cinco ou seis anos. Ela parecia nunca cansar de mim. Passamos horas e horas na companhia um do outro. Algumas vezes ela até dispensou os amigos para ficar comigo. Eu me sentia importante. Pensei que a gente não ia mais se separar.
— Você quer que eu acredite que a sua deusa dos olhos verdes nunca te trocou por outro durante seis longos anos?
— Não foi isso que eu disse. Eu falei que eu era especial. Claro que eu vi ela com outros. Eu os odiava! Queria que desaparecessem! Queria picá-los em mil pedacinhos e deixar o vento levar.
— Ui, que medo. Então você foi trocado e ficou bem com isso?
— Claro, eu sabia que ela não podia ser só minha. Mas eu era só dela. Estava bom para mim.
— Então ela era um anjo que caiu do céu? Te tratava muito bem?
— Na maior parte do tempo ela era gentil. Só que as vezes ela descontava os problemas em mim. Uma vez fui agarrado com força, de um jeito nada bom e fui atirado na parede do quarto. Doeu bastante.
— Por que ela fez isso?
— Por que a mãe dela a deixou de castigo por ela ter ido em uma festa com caras mais velhos e sem ter avisado nada. Eu fiquei tão preocupado, imaginei que tivesse acontecido um monte de coisas ruins com ela.
— Fala sério, nunca vou entender esse lance de amor e tal.
— Você nunca se apaixonou por nenhum deles então?
— Uma vez, mas também fui abandonada como se fosse lixo. Então nada de me apegar.
— E como ele era?
— Parecido com sua paixão dos olhos verdes. Ele também me adorava no início. Eu sempre o via de noite, com a luz suave na sala da casa dele. Era só nós dois no sofá de couro. Vez ou outra a esposa aparecia e quando acontecia ele tinha que me esconder depressa. Era um medroso igualzinho a você, mas eu gostava dele.
— Aposto que a esposa dele morria de ciúme.
— o que é uma tremenda injustiça. Ela podia aproveitar daquele homem maravilhoso todos os dias, o dia inteiro, eu tinha só uma hora ou nem isso. Então ele começou a fazer diferente. Só nos víamos pela manhã, quando ele ia trabalhar na delegacia. Hummm, homens de farda são uma perdição.
— E como tudo acabou?
— Conta o seu que eu conto o meu. Serão finais bem diferentes, ou não, já que ambos estamos aqui agora.
ouviram Samantha se levantar e caminhar para a saída.
Ela abraçou o namorado que viera buscá-la.
— Só vou pegar a bolsa e passar o cartão, daí eu tranco a porta e tenho de levar as chaves no prédio em frente tá?
— Beleza, depois você é só minha — ele respondeu beijando a moça.
Samantha o deixou e foi procurar a bolsa. Não a encontrou em seu armário e avisou que ia procurar melhor.
— Conte como tudo terminou entre você e a mocinha...
— Mas eles estão rondando.
— Não importa. Eu estou curiosa!
— Ela me levou até a feira do livro e me deixou lá. Depois eu vim pra cá. Assim mesmo, sem aviso e sem despedidas.
— O policial bonitão fez o mesmo comigo! As vezes eles são tão cruéis.
— A propósito, qual é o seu nome?
— O mistério da família real de Charles Maxuel. Um romance de época repleto de amor, intrigas, mistério, como meu nome já diz e muita aventura! E o seu?
— Dó, Ré, Mi, Fá do amor de Nick Kamme. Minha história fala da vida de um jovem guitarrista. Tem o amor por uma garota, mas também fala do amor dele pela música, os fâs, a banda, a família e tudo mais.
— Uau.
— E eu conto desde a adolescência dele até ele ficar adulto. Ela gostava principalmente do epílogo quando mostro os filhos do guitarrista.
— Que fofo, já entendi porque a garota gostava tanto de você.
De repente ouviram pessoas correndo para o interior da biblioteca. Eram passos que se misturavam. Eles ouviram os rangidos do par de tênis e o baque contínuo do par de saltos se aproximando da estante.
Uma garota usando um uniforme escolar composto por uma calça azul e camiseta branca com o nome da escola, apareceu pela entrada a direita. Ela vinha com uma mochila abarrotada de livros e cadernos, os cabelos negros jogados sobre o ombro. O olhar dela varreu as estantes em ambos os lados com urgência.
Á frente dela um garoto usando um jeans rasgado, boné preto e um brinco na orelha se apressou para o mesmo ponto onde a garota se encontrava.
Eles procuravam algo e então os livros sentiram-se sendo puxados para fora da estante.
O livro com a história de mistério estava na mão da garota e o livro do guitarrista na mão do rapaz.
— Daniel, eu acho que esse é o livro que você precisa — disse a garota de cabelo preto estendendo o objeto para ele.
- Valeu. Você vai ler esse aqui? Dó, Ré, Mi, Fá do amor. Argh, toma, é todo seu gata — ele disse trocando o livro com ela.
— Meu nome é Mônica.
— Eu sei, mas se eu te chamar de mônica você não fica brava, então não tem graça.
Ela não respondeu. Optou por abraçar o livro e encarar o colega de classe.
— Acho que vamos ter um longo fim de semana com as caras enfiadas nesses livros né? — ele comentou com o olhar malicioso. - Poderíamos fazer mil outras coisas.
— Esse trabalho é para segunda. Não podemos mais adiar e não quero fazer mil coisas com você — ela afirmou virando-se e deixando o rapaz sozinho.
— O pior mentiroso é aquele que se recusa a ver a verdade — ele disse enquanto ela se afastava.
— Meninos, ainda bem que eu não achei minha bolsa antes, ou vocês teriam encontrado a biblioteca fechada. — comentou Samantha registrando a retirada dos dois livros.
Ela os colocou lado a lado e procurou o código de barras. Depois de terminar o procedimento simples ela se virou para falar com o namorado.
Distraídos, Mônica e Daniel conversavam baixinho entre si sobre a tarefa do fim de semana.
— Estão falando de nós. Acho que você encontrou outra garota pra se apaixonar querido. Embora ela já parece muito interessada no meu leitor.
— Nos vemos no dia da devolução. Não se perca na gaveta dele. Esse rapazinho me parece do tipo bagunceiro.
— Diz isso só pelo estilo dele? Ai ai, não julgue um livro pela capa meu amor.
Mônica e Daniel pegaram os livros e os levaram. Samantha fechou a porta atrás deles em seguida.
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Atualizado em: Qui 25 Nov 2021

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