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Todo dia é exatamente igual

Era apenas mais uma noite enevoada dentre tantas outras que Nelson já vivera e trabalhara. Estava, neste dia em especial, organizando os últimos detalhes da chegada de seu mais novo inquilino. A burocracia desses processos o perturbava imensamente, mas fazer o que, era o administrador de todo o certame.
Nelson nunca se acostumara por completo a ser um administrador do Condomínio, como gostava de pensar que fosse, Jardim de Mória. Não que tivesse medo de assombração nem nada, muito pelo contrário, a tranquilidade dali reavivava em sua mente os seus dias de criança nos longínquos anos 70 na região serrana em que morava e tinha apenas o breu como amigo.
Ele sempre pensou ser um cara de sorte, afinal administrava o condomínio mais tranquilo da cidade. Sem síndicos, sem reuniões, sem entreveros entre vizinhos, sem crianças sapecas e encapetadas para perturbar a vizinhança. Por maior contraste que fosse, o cemitério em que trabalhava era aos seus olhos um verdadeiro paraíso. Podia fazer o que gostava, da forma que quisesse e não teria ninguém para ficar enchendo a sua paciência.
Tudo ia na mais pura normalidade. O último coveiro de plantão, o velho Val, já estava preparando suas coisas para sair.
Vem pra cá, Tripa! Vem, cachorro desgraçado! — Ele urrava pelos ares em busca de seu cão, um vira-lata xexelento indigno dos melhores mendigos da cidade. Seu nome era Estripador, carinhosamente chamado de Tripa por todos do condomínio. Nada tinha de violento o velho Tripa, mas, de acordo com Val, não custava nada gritar de vez em quando Estripador! por aí e assim já afastar da cabeça de alguns meliantes a ideia de roubar algum dos residentes do condomínio. Sim, isso acontece muito, tem maluco pra tudo.
- Tchau, seu Nelson. Boa noite. — Val disse se despedindo. Nesse momento Tripa já tinha reaparecido com seu rabo abanando como sempre e recebia um afago de adeus na cabeça.
- Boa noite. — Respondeu Nelson enquanto Val já fechava a porta atrás de si com um estrondo totalmente desnecessário.
Neste momento Nelson se viu sozinho no escritório. Um calafrio percorreu sua espinha, mas nada que não pudesse suportar. Já estava finalizando seu serviço e então também poderia ir para casa.
Faltava apenas conferir um relatório aqui, uma assinatura ali e pronto. Acabaria tudo. O resto dava para esperar o dia seguinte. Já era meia noite e ele não morava tão perto assim.
Começou a guardar suas coisas, seu notebook, fechar gavetas, checar as trancas das janelas e por fim fechar as portas do escritório. Por uns segundos perdeu a chave, como de praxe de um canceriano, porém em minutos já estava tudo trancado e nos conformes.
Atravessava o pequeno pátio que cercava seu escritório e se encaminhava para o seu carro quando ouviu um latido ao longe. Logo pensou — Puta merda, maldito cachorro. Tranquei ele lá dentro de novo! — E tomou o rumo do escritório de novo arrastando os pés como uma criança contrariada.
Entretanto o latido continuava a soar distante, por mais que se aproximasse do prédio do escritório. Notando isso, Nelson logo parou seu passo e repensou o que estava acontecendo.
- Ueh, se ele não tá lá dentro. Por que diabos esse cachorro tá latindo? — pensou quase que em voz alta. — Ah Tripa, ah Tripa! — Esbravejou como se quisesse que todos os seus inquilinos o ouvissem.
Era de veras incomum Tripa ficar reclamando assim após tudo já fechado. Há tempos que não se tinha problemas por ali com góticos fanáticos e outros malucos. Muito raro também era ele encontrar algum gambá pelos arredores do condomínio e travar uma batalha com ele. É, era uma batalha. Tripa já não era nenhuma garoto e qualquer rival que fosse já se transformava em Golias.
- Tripa! Tripa! — Gritou.
Gritou e gritou até a garganta começar a reclamar.
Tinha chegado a percorrer alguns poucos metros após a porteira de ferro antigo deteriorado que dava de frente para a entrada dos corredores de túmulos e mausoléus. O rangido angustiante que a porteira fez ao abrir o lembrou que precisava urgentemente contactar o serviço de manutenção. Não era digno de um Condomínio tão respeitado esse tipo de sonoplastia digna de um filme de terror que para aterrorizava seus moradores e seus visitantes.
Ficou ali dentro por menos de cinco minutos. Três ou quatro mausoléus já haviam ficado para trás. Eram 10 mil m² de terreno e o dia havia sido longo, não estava entre seus deveres ficar caçando um cachorro perturbado da cabeça que deve estar latindo para a própria sombra por aí.
Reparou então que já não mais podia ouvir os latidos lamuriantes do Tripa. O silêncio imperava como que num passe de mágica, e tudo parecia ter retornado ao seu mais normal estado. Silêncio entre os mortos.
Nelson não queria ter pensando, mas nesse exato momento a sua mente burlou suas ordens de se negar ao fato presente, olhou para seu relógio, meia noite e meia, e pensou: Droga, é nessa hora que em todo filme de terror onde tudo começa a dar errado.
Continuando a involuntariedade com a qual seu corpo agora se movia. Se viu virar-se abruptamente para trás, um 360º completo, para fazer o caminho de volta ao seu carro. Uma invisível pedra de gelo passeava em sua pele. Pelos arrepiados. Apertou o passo em direção a saída. Sentia saudades daquele portão velho agora.
Se alguma alma ainda estivesse viva naquele local, poderia ter visto claramente o que se passou a seguir e poder narrar mais claramente o susto que Nelson levou ao sentir alguma coisa passar entre a suas pernas como o Ricochete em seus dias áureos. Tal alma conseguiria expor melhor como o ditado “meu coração veio na boca”, adquiriu novas facetas e atingiu um novo nível no cagaçometro universal.
Nelson ficara tão branco que quem visse diria que aquele era um cemitério assombrado sem nenhuma dúvida. Porém, para si, ele não havia esboçado nenhuma reação além de se travar por completo como se acabasse de trocar olhares com a medusa. Isso só durou centésimos de segundo, mas em seu eu havia durado algumas eras. Durou tempo o suficiente até que seu cérebro se adaptasse àquele novo ambiente e percebesse que o vulto que passou por ele era apenas uma versão desregulada e maratonista do Tripa.
Pois, diferente do humano ao seu lado, morto de medo, Tripa se mantinha numa posição tão cheia de confiança que obviamente ele deveria estar se achando o verdadeiro lobo das estepes russas nesse momento. Não que alguém saiba ou vá saber algum dia, de onde um vira-latas desses ficou sabendo sobre tal animal altivo e feroz, mas era isso que aparentava.
Tripa correu e parou exatamente entre Nelson e a saída. Virou-se para Nelson e recomeçou a latir. Nelson desacelerou seu passo, porém continuou a caminhar em direção a saída. Agora também em direção a Tripa. Enquanto se aproximava ia dizendo:
- Calma, Tripa. Calma! — Tentando apaziguar os nervos do cão que agora tinha posto na própria cabeça que era um lobo.
Logo percebeu que Tripa não latia para si e sim para o que quer que fosse que estivesse atrás dele. Ele latia para todo o cemitério e não para alguém em especial. Torcia e rezava por todos os santos em quem não acreditava para que não houvesse nada e ninguém ali.
Continuou caminhando até ultrapassar o cão e se pôr atrás dele para tentar ver para o que o animal estava voltando toda a sua ira. A princípio não viu muito além da total escuridão que cercava o lugar. Os bosques e ruelas que formavam o cemitério não eram iluminados. Afinal, seus inquilinos não necessitavam mais de tais regalos.
A vista de Nelson lacrimejava involuntariamente de tanto que ele a forçava em vão na busca por alguma resposta para o que afligia tanto assim ao cão. Uma ponta de alegria surgira. Não tinha nada ali — Pensou. Voltaria para o seu carro e para sua casa onde não correria nenhum perigo. Não que seu ceticismo permitisse concretamente de que ele estava correndo algum eminente perigo ali, mas em casa é sempre mais seguro, ou pelo menos é mais tranquilizador pensar assim.
Foi então que as folhas secas não varridas do dia enfim prestaram para alguma coisa. Como se tivessem ligado um ventilador, todas elas começaram calmamente a levitar e rechaçar umas nas outras.
Algo estava vindo em sua direção.
E o pior. O que quer que fosse, não estava sozinho.
- Zumbis?! — perguntou Nelson a Tripa sem acreditar nos próprios olhos e nem esperar uma resposta.
Criaturas torpes e apodrecidas caminhavam em sua direção bem a sua frente. Corpos dilacerados e em estado de putrefação avançada passeavam pelos corredores com um destino nada agradável. A si. Era algo tão inexplicável que Nelson nem tentou argumentar demais com a massa cinzenta que pensava ainda habitar seu crânio o tamanho da impossibilidade que presenciava.
Pensou em tudo o que conhecia sobre o assunto enquanto decidia o que fazer a seguir. — Correr deveria ser o mais indicado, ou seria pegar uma enxada e cortar suas cabeças?
Um murmurinho ergueu-se sobre o som do vento que aumentara proeminentemente nos últimos minutos. Subitamente, Nelson percebeu algo ainda mais estranho: Os zumbis conversavam entre si.
Por mais que quisesse fazer e pensasse em milhões de maneiras diferentes de sair dessa situação, ouvir mortos conversando e vindo em sua direção o deixara estático. Isso era algo que nenhum filme ou série antes havia comentado. Em algum ponto da sua cabeça veio a ideia de que ele era o primeiro ser humano a presenciar isso e então uma curiosidade colossal e inútil invadira sua mente: Sobre o que conversariam zumbis?
Quanto mais olhava para eles vindo, menos medo sentia. Estavam todos claramente estragados e mortos. Mas vivos? O fato de conversarem entre si o deixou com aquele gosto de querer saber mais, o que sempre acabava na morte de personagens secundários nos filmes de terror. Nelson sabia disso. Tinha expertise cinematográfica para estar cansado de saber disso. A curiosidade era uma merda. Tinha certeza disso agora.
Ficou.
Foi e será para sempre a experiência mais mirabolante e inimaginável de sua vida.
Meia hora depois sua vista já tinha se acostumado àquela cena. Perdera alguns inquilinos, mas presenciara algo único na vida de qualquer um. Algo que o fez repensar tudo o que vivera até então.
Passado o terror, Nelson não conseguiu ir pra casa de tanta empolgação que fervilhava em seu corpo. Andou de um lado para o outro por tanto tempo que mesmo Tripa já havia desistido de tentar segui-lo com os olhos. Tripa que já estava deitado e com um osso na boca que se sabe lá de onde tinha conseguido.
Sem muita certeza de como deveria agir, fez o que seu serviço pedia, tratou de tentar administrar a situação. Perambulou pela última vez os corredores do Condomínio. Anotara algumas coisas. E pôs-se novamente dentro de seu escritório. Tentar pôr tudo em ordem não seria algo simples.
Pegou o telefone para dar início aos trabalhos. Estava prestes a realizar a ligação mais estapafúrdia do século. Eram quatro da manhã, mas sua mente ignorara completamente este fato. O telefone chamou umas cinco vezes até ser atendido por uma voz masculina sonolenta do outro lado.
- Alô? — Respondeu uma voz mais desanimada que um coala com dengue.
- Olá, aqui é do cemitério Jardim de Mória, desculpa o inconveniente, mas é que seu pai estava enterrado aqui, e… — Nelson foi cortado abruptamente.
- Como assim estava? — interrompeu a voz deixando um pouco de lado o desânimo.
- Pois então senhor, nós tivemos meio que um probleminha aqui nessa madrugada. Não sabemos se teve alguma coisa a ver com alguma profecia Maia que chegou atrasada ou não. Penso que se hoje em dia está difícil até para os meteorologistas repletos de tecnologia acertar alguma coisa, imagina um povo que viveu há mais de dois mil anos. Errar por alguns meses seria até aceitável. Porém são só suposições por enquanto. — Disse na voz mais calma possível.
- Mas de que tipo de ‘probleminhas’ estamos falando aqui? — Perguntou a voz já alterando um pouco seu humor.
- Bom, senhor, é que hoje tivemos aqui o que se pode chamar de Invasão Zumbi. — Nelson ouviu risinhos abafados do outro lado, mas continuou a retratar o acontecido para o cliente. — Pois então, seu pai se retirou do local onde descansava e está agora aqui, do meu lado.
A voz do outro lado da linha, num misto de raiva e sarcarsmo, ria-se forçosamente. Estava sendo alvo de uma pegadinha, obviamente. Respondeu rindo dando orgulho ao seu tio José:
E ele não está tentando comer o senhor não?!
Nelson manteve-se sério e respondeu:
- Senhor, seu pai está aqui no meu escritório e trabalhando. Creio que em vida ele trabalhava em algo do tipo, não?!
O cara da pegadinha saber em que seu pai trabalhava tirou toda a graça da situação. Estaria ele falando a verdade? — Pensou. — Impossível!
- Sim. - respondeu pôr fim a voz — Ele era gerente de banco.
- Ahá! Então isso explica tudo. Ele está aqui dizendo que tem uns contratos para serem assinados. — Disse Nelson como se fosse a coisa mais normal da face da Terra.
Mas como isso é possível? — disse gaguejando de tanta incredulidade a voz do outro lado da linha.
- Como eu disse antes senhor, ainda não sabemos direito como isso aconteceu. Mas o fato é que hoje perdemos uma boa parte de nossos inquilinos aqui no cemitério Jardim de Mória. Mais estranho do que eles terem virado zumbis, foi o fato de terem ficado conversando entre si. Todos saíram daqui dizendo que iriam fazer ou terminar algo que estavam fazendo em vida antes de morrerem. — Respondeu Nelson.
- Tipo o que? — disse a voz agora mais do que desperta.
- Ah, todo tipo de coisa. — Disse Nelson tentando lembrar resquícios do que ouvira. — Tiveram vários deles dizendo, assim como seu pai, que tinham que acordar cedo para trabalhar e não sabiam o que estavam fazendo ali numa hora dessas. Outros falavam que tinha que correr porque estava na hora do último capitulo da novela começar. Alguns disseram até que tinham que ir pra um cyber para atualizar o status do facebook. E por fim tiveram os zumbis que saíram de suas covas louvando e gritando, dizendo que não podiam perder o horário da missa, culto e esse tipo de coisa. Uns mais missionários, já tentavam converter outros pelo caminho, falavam que iriam abrir sua própria igreja cada um e que todos tinham que ir para poder ir para o céu depois que morresse. — A ironia era tanta que Nelson se permitiu rir pela primeira vez na noite.
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Atualizado em: Sex 1 Out 2021

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