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Gigante

O telefone toca.
Número desconhecido.
Luís atende.
A conversa não durou nem 30 segundos. Ele só diz — Sim. Sim, muito obrigado.
As coisas ao seu redor ficam levemente embaçadas. Pequenas poças se formam em seus olhos. A notícia o atingiu como uma montanha russa de desejos e sentimentos antagônicos. Era difícil discernir o quanto o que ouviu o havia abalado. Havia conseguido um emprego, um trabalho. ENFIM!
Algo tão almejado, mas que vinha carregado com o inconfundível teor de bile estomacal em seu íntimo. Não aceitava, era um negacionista convicto dos seus próprios sentimentos, mas tentou de recapitular o que se passava no seu maltrapilho pensar.
Estava feliz pela notícia, sim estava.
Estava devastado pela vaga conseguida não estar altura do que sonhava para si, dos ganhos que sonhava para si, sim estava.
Luís ficou estático por alguns minutos. Um blackout interno generalizado que poucas vezes se viu. A sala de máquinas estava em frangalhos. Era uma ideia complicada demais de se conceber. Sabia que na atual conjectura econômica e social (por mais que odiasse com toda sua força a palavra conjectura pelo rancor adquirido após anos de percepções de que tal palavra só era utilizada por pessoas que queriam de maneira fútil demonstrar sua pseudo-superioridade intelectual sobre outrem, mas não dava para lhe escapar agora) não podia renegar-se o privilégio de comer e pagar as contas no fim de mês. Isso jamais! Mas a sensação de contrariedade, de antonímia, estava entranhada em seu eu de corpo e alma, e penava em dissipar-se.
Havia estudado por anos: escola, cursinho, faculdade, especialização, mestrado, doutorado que de nada pareciam servir. Maldita estatística! Nada desse passado acadêmico poderia dar-lhe de comer nesse momento. Livros não alimentavam o físico, somente a alma. E uma alma sem sua complementação física, não valia mais que um galo de rinha pacifista.
Há tempos que considerava o desperdício de tempo e o desgosto como velhos amigos. Daqueles inseparáveis mesmo. Não recordava de si mesmo sem tê-los ao seu lado. Sentia pena dos seus pais por ter-lhes causado, e ter sido o único possível culpado, o desconforto de uma vida. Sentia pena das pessoas que de alguma forma lhe ajudaram nesse percurso. Pobres coitados! E, principalmente, sentia culpa de si mesmo por não ter sido capaz de prever tudo isso. Afinal, sempre se considerou uma pessoa inteligente. Um übermensch! Mas agora via o monumental erro preditivo de autoconhecimento que havia cometido.
Hoje vivia às penas.
Hoje vivia, apenas.
Era um emprego em outro Estado. Um lugar distante, ganhando-se pouco, mas ganhando. Não sabia ainda como iria e nem como iria, mas iria e isso estava materializado e aferroado em seu pensamento desde que desligou o telefone.
As lágrimas agora deslizavam pela sua face como se nenhum atrito ali houvesse desfazendo-se de toda lei da física conhecida. Não era tristeza e decerto não era alegria também. Seu emaranhado de conexões neurais era um sítio obscuro e sem destino aparente, Luís tinha 38 anos de idade e ainda não havia uma explicação plausível que os decifrassem.
Aprumou-se internamente. Disse a si mesmo — Seria mais uma batalha que travaria na vida. Está decidido! — Já passara por tanto. Lembrava-se da frase que vira num filme e que desde então navegava os mares tempestuosos de sua mente, “Quem disse que seria fácil?”.
Pois é, quem disse?
Após silenciosa resignação e ressignificação de tudo que havia divagado, juntou forças e enfim ligou para sua esposa para contar o acontecido. Ela estava no trabalho.
No terceiro toque ela atendeu. Luís deu-lhe todos os detalhes. Contou tudo. Tudo o que sentia, tudo o que não sentia, tudo o que pensava que deveria sentir e tudo o que faria.
Percebeu ela como se do seu lado estivesse. Uma simples inspiração seguida de expiração. Então, serenamente ela respondeu:
Te amo.
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Atualizado em: Sex 1 Out 2021

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