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Vida rapada

Vagner era uma pessoa simples, de uma vida simples, de uma cidade simples e de uma família simples. Era feliz assim e não tinha a menor pretensão de um dia mudar isso.
Seu cotidiano era: casa, trabalho, casa. As vezes uma reunião com amigos entrava nesse circuito, mas eram raros os casos.
Mal sabia ele que esse seu pequeno bioma social estava para trocar as mãos pelos pés. Dia mais, dia menos, esse dia chegaria. Não que ele estivesse ciente disso na época, mas algo em nossa vida nos impele a isso. Retorno de Saturno, alguns diriam. E no caso de Vagner foi o dia em que ele foi apresentado a televisão, que por força de presente de aniversário, não lhe poderia negar, pois seria uma desfeita.
Sim, algo tão banal para alguns, sequer existia em sua casa. Talvez nisso residisse sua felicidade, mas agora eram águas passadas.
Lá estava ela. Com seu espelho negro e brilhante a cantar como uma sereia.
O presente era de um vizinho mais abastado, que ele tinha como compadre. Sinceramente não esperava por este mimo, mas ele veio. Não sabia o que fazer. Sua humilde sala de estar não parecia digna de tal objeto. Por fim apenas acenou e sorriu.
Nunca quis uma televisão, não precisava de uma.
Ao menos achava que não.
É aquela velha história do capitalismo: você pode não precisar, pode não querer algo, mas a partir do momento que esse algo é criado, inventado, você passa a não conseguir sobreviver sem ele.
Vagner até então nunca nem gostava de ouvir falar em cidade grande. Era daqueles que quando perguntavam.
– Já foi no Cristo Redentor?
Ele respondia.
– Não fui e nem quero. Do Rio de Janeiro já me basta o caminho que o ônibus faz quando eu vou ver a minha vó lá em Caxias. Tem tempo que não vou para aqueles lados, mas lembro que era tudo muito feio.
Porém, agora com a televisão em sua sala, era obrigado a conviver com aquele mundo distante. Novelas fúteis agora faziam parte de seus prazeres diários. Jornais com notícias sobre bairros que antes ele nem sabia que existia agora permeavam sua cabeça com violência e perigo. Coisas que até então nunca fizeram parte de sua pacata vida em sua cidadezinha.
Mas o que realmente mais o maravilhou foi a descoberta dos filmes. Foi o que fez com que seu pensamento carrancudo e temeroso sobre a televisão começasse a mudar de verdade. Simplesmente adorava os filmes de super-heróis. Assistia filmes e mais filmes daqueles super-humanos realizando tarefas impossíveis com seus poderes místicos, científicos e até alienígenas. Esses últimos, em especial, traziam a sua mente toda uma mitologia de seu cotidiano, já que era usual o avistamento de Óvnis na sua cidade esquecida pelo resto do mundo. Era uma alegria que dava gosto de ver.
Entretanto, era uma alegria passageira.
Acabava o filme. Acabava a felicidade. Vinha o desgosto. Desgosto da sua vida simples, de sua cidade simples e de tudo mais o que fosse simples em sua vida.
Seu Norte já não era mais o mesmo. Seu conceito de vida já não era mais o mesmo.
Nada do que vivera até então fazia mais sentido. Estava tudo ali. Tão perto e tão longe. Ele via que tudo em sua vida podia ser mais. Ele acreditava fielmente nisso.
É essa a sensação que a televisão trás. A vida que Vagner conhecia antes dela passa a não ter valor. A valorização da vida é feita por um comercial, uma novela, um filme. Quem antes se sentia bem consigo mesmo, agora se sente incompleto. É um desejo de consumo que só se satisfaz quando se compra algo, que é quando se torna um pouco mais próximo do ser perfeito que a televisão apresenta. Não que as pessoas não devam buscar crescer e ser mais do que eram ontem, mas quando isso se transforma em desespero, o ser humano perde.
A vida simples de Vagner não era mais o suficiente para ele. Queria mais, sempre mais. Queria conhecer o Rio de Janeiro tão bonito que aparecia nos comerciais. “A Cidade Maravilhosa” com tudo mais o que tivesse direito.
Até que um dia desistiu do tédio, pegou todas as suas economias e partiu para aventura da sua vida. Conhecer o Rio de Janeiro!
Nota: “Tédio”. Palavra maldita que até então Vagner desconhecia. Foi conhecer somente através da televisão. Nunca antes ouvira falar disso. Tinha seu trabalho, tinha sua família, tinha seus amigos e de nada mais necessitava para ser feliz. Até que um desejo dentro de si começou a despertar. O desejo inventado e imposto na sua cabeça por aquele aparelho desgraçado. O querer. Querer algo que não se tem e não precisa. Esse é o carro forte do tédio. Um dos grandes vilões de nossa geração.
Mesmo contra os anseios de sua família, Vagner foi para o Rio de Janeiro. Juntou uma muda de roupa e foi tentar a sorte seguindo o que seu coração mandava. Afinal é sempre assim que os personagens principais das novelas fazem e no final dá tudo certo, não é?! Por que não haveria de acontecer a mesma coisa com ele.
Chegando lá não houve nem tempo dele se maravilhar com muita coisa. Vagner nunca tinha se sentido tão mal como se sentira ali andando pelas ruas do centro da cidade maravilhosa. Suas construções antigas e imponentes lhe causaram um efeito totalmente reverso ao que esperava. Em vez de se sentir bem consigo mesmo por poder estar ali e ver com seus próprios olhos as magnânimas construções antigas e de tanta história, logo percebeu algo que a televisão não mostrava. O quanto as construções diminuíam a importância do ser humano para o todo ao seu redor. Verdadeiros monstros de concreto e aço tão grandes e ameaçadores à espreita de sua alma fazia com que ele passasse subitamente a não entender o porquê da sua existência. Nunca antes se sentira tão pequeno, tão ínfimo no universo como agora. Tão nada.
Porém, o pior ainda estava por vir, o golpe fatal em sua autoconsciência.
Ao virar por uma esquina qualquer se deu de cara a um grupo de mendigos. Na sua cidade isso não existia. Não sabia como uma pessoa podia chegar a tal ponto de sujeira e podridão. Ficou triste por eles e por toda aquela situação. Andou alguns metros até não aguentar e sair correndo sem rumo pelas ruas desconhecidas. Enquanto corria sentia saudade de sua casa, de sua cidade. Enquanto corria, chegou à rodoviária.
No seu retorno a para casa manteve-se trancado por dias em seu quarto. Sua família estava preocupada, achava que algo de muito sério deveria ter acontecido a ele na cidade grande. Mas, como era de costume, o tempo iria tratar. Era assim que as coisas funcionavam por ali. Com paciência e tempo.
O tempo passava e passava. Vagner aos poucos voltava a sair de casa, porém claramente já não era mais o mesmo dantes. Sua cabeça funcionava de maneira completamente diferente. Havia presenciado toda a sua insignificância em relação ao mundo e ao universo. Ele desaparecia aos poucos.
Os áureos tempos de desejar ser um super-herói estacionara num passado distante. Sonhar em voar por aí sem compromisso. Resgatar uma donzela em apuros. Destruir um vilão com seu raio laser. Tudo não passava de infantilidade da sua cabeça. Na verdade, se martirizava por ter sido tão ingênuo.
Tentava aos poucos por sua vida novamente nos trilhos. Sentia agora saudade de quando tinha toda a felicidade do universo e não sabia.
Procurou velhos amigos de escola. Reviu antigos amores. Ligou para todos os familiares que tinha pelo Brasil. Retornara seu contato com os humanos. Os mesmos reles humanos que por toda a sua vida estavam a sua volta.
Sentiu-se bem com isso.
Os dias iam passando e Vagner devaneando sobre o que ele significava em meio a tudo aquilo.
Certo dia resolveu dar uma volta pela pracinha de sua cidade. Toda cidade pequena tem sua praça. A praça na qual toda a cidade crescia envolta, digna das mais ínfimas lendas e causos. Em sua cidade não era diferente. Jardins espalhados por todo o seu entorno, uma igrejinha caindo aos pedaços, alguns banquinhos e alguns jogos de cadeiras e de mesas de cimento com tabuleiro de damas e xadrez de alvenaria. Um parquinho. Isso era tudo que tinha por ali. Este provavelmente era o maior tesouro da cidade e ninguém dava muito valor, Vagner somente o percebera agora.
Era uma noite quente e estrelada. Vagner botou um chinelo e uma bermuda qualquer e foi divagar pelas bordas da cidade que tanto conhecia. Era um “Oi” aqui, um “Boa noite” ali, e por assim foi. Chegando na praça notou nas crianças que brincavam no velho parquinho. Toda pracinha que se preze há de ter um parquinho velho e cheio de nostalgia acumulada das pessoas que por ali passaram e deixaram um pedaço da sua infância.
Sabe aquelas ideias que vem na nossa cabeça sem o menor sentido do por que ela estar ali, e logo naquele exato momento onde nada levaria um ser humano dentro da sua sanidade mental a pensar naquilo?
Pois foi mais ou menos isso o que ocorria com Vagner nesse momento. Pode-se até dizer que foi vítima de uma epifania psicodélica qualquer, mas vá saber.
Neste exato momento foi como se o tempo parasse para ele. As crianças que saltavam de um lado para o outro alegremente na praça pareciam ter combinado de brincar de “vivo ou morto” bem nessa hora, pois estavam fazendo um magnífico “morto” onde nada nem ninguém se movia.
A mente de Vagner finalmente tornava real algo que ele tanto almejara dentro de si.
Ele possuía um superpoder.
Seus olhos ficaram marejados.
Percebia agora que possuía o poder da “Invisibilidade Imposta”.
Sempre o possuiu na verdade e nunca dera conta, assim como todo e qualquer ser humano ali em sua cidadezinha. Um pensamento que espreitava sua mente ultimamente explodiu.
– Somos todos invisíveis!
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Atualizado em: Sex 1 Out 2021

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