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Nem toda estrela brilha

Uma bela manhã de segunda-feira despontava no céu. Para Leandro era mais uma segunda-feira qualquer. Na verdade, para ele era mais um dia qualquer. Afinal de contas já não se preocupava com dias da semana fazia tempo. O período sem trabalhar afetava diretamente sua noção de tempo, semanas e meses escorriam como um rio. Ao contrário do que acontecia com as horas, a isso ele ainda estava apegado, pois delas dependiam sua noção de fome e de sono.
Nessa segunda feira em especial, algo de muito incomum estava para acontecer. O mundo estava para ser notificado de algo extraordinário. O início de tudo ou o fim de tudo, dependendo do seu ponto de vista.
Seguindo sua rotina matinal de qualquer dia que fosse, Leandro acordava, botava a primeira roupa que surgia na frente de seus olhos, e ainda lutando para acostumar com a luz do dia lavava a cara e saía para comprar seu pão e queijo de sempre. Dizer ou não bom dia ao seu vizinho que estava realizando a mesma rotina que a sua, era opcional, afinal não é porque estamos tendo um bom dia, que queremos desejar o mesmo a outro ser humano, seja ele um assassino em série ou um coroinha da igreja. O egoísmo é mesmo interessante.
Após retornar da padaria, Leandro mirava sua velha e puída poltrona. Sentava nela com a sensação de estar sentando num verdadeiro trono dos deuses do Olimpo, afinal não importava o dia, para ele, era dia de descanso. Desde a pandemia de cinco anos atrás que Leandro não permanecia firme num trabalho. A alcunha de vagabundo permeava suas conversas nada amigáveis nos grupos de família. E como todo vagabundo que se preze, julgava-se um guerreiro digno de poder relaxar em sua poltrona puída após realizar suas parcas tarefas de casa que a ninguém importava.
Aguardava então o preparo de seu desjejum pela esposa, assim como fazia há mais de 15 anos. Pegava seu smartphone e lia as notícias do dia até onde os trendtopics lhe mostravam. Considerava-se um exímio perceptor de fake news. A toda hora gritava para sua mulher: “Olha só isso, amor, eles pensam que a gente é bobo.” Enfim, essa era sua rotina básica de qualquer dia, porém, não desta vez.
Não importava a página que fosse, as notícias e manchetes eram sempre as mesmas e em letras garrafais “NEM TODA ESTRELA BRILHA”. Optou por ler a história diretamente da página do jornal de maior circulação no país. Além do temor óbvio que o título trazia, a fonte da letra era ainda mais tenebrosa, parecia riscada numa lousa pelo próprio Freddy Krueger, mas em vez do verde escuro de uma lousa normal, havia um plano de fundo em preto mórbido. Após a análise do que acabara ler e chocar-se, ele começou a notar os pormenores que aquela capa trazia. Bem lá embaixo, no rodapé da página vinha o subtítulo, que com suas letras miúdas lembravam os contratos demoníacos e mirabolantes assinados por aí em milhões de filmes, o que lhe causou mais estranheza ainda.
Lá estava escrito “Cientistas russos descobrem o que pode se tratar do fim dos tempos, mais informações no link’.
Ele leu por alto de que se tratava de algo beirando uma matéria da Super Interessante. Mas com a aprovação de cientistas de vários lugares do mundo. Normalmente não se daria muito conta disso, pelo menos não antes de ver as notícias de seu time, porém seu time ia tão mal no campeonato que pensou “Quer saber, esses putos não merecem minha atenção”, e então voltou suas atenções à matéria da capa. A astronômica e axiomática matéria.
Logo no início a matéria já causou um loop na sua cabeça. Astros, estrelas, planetas, satélites, cometas e etc. Não lia dessas coisas desde sua longínqua 7ª série. Isso o fez ligar o título da capa ao que estava perdido em alguma parte de seu subconsciente, que agora emergira preguiçosamente à superfície de sua mente cansada de não fazer nada. Lembrou que aprendera algum dia que estrelas possuíam luz própria e já os planetas e satélites não. Tendo isso em mente já pode pular diversos parágrafos que explicavam isso aos leitores mais desavisados e desmemoriados. Após essa introdução de nível fundamental a matéria o conduzia para a reportagem em si, a tal descoberta dos russos.
Leu e releu ao menos duas vezes tentando compreender do que se tratava aquilo tudo. Não que tenha sido feliz nas conclusões que tirou, mas pelo desenrolar da coisa nem os russos sabiam muito bem o que pensar.
A matéria trazia a seguinte história: Esses malucos russos tinham descoberto numa de suas observações rotineiras do espaço que uma ‘Estrela Negra’ se encontrava mais próxima da Terra que o normal. Não era um cometa e diziam não ter certeza de se tratar realmente de uma estrela, mas não tinham outra opção senão usar esse nome. Uma estrela morta, talvez. Porém, com as peculiaridades estudadas desse novo astro celeste, entenderam que não se tratava disso também. O que quer que fosse, não estava ‘morto’. E claro, o nome estrela é um nome artístico muito mais impactante que qualquer outro, logo, ficaram com esse mesmo. Nomearam tal enigma de Estrela Negra e pronto.
Havia no texto uma transcrição fiel de uma entrevista que o chefe de pesquisa russo tinha realizado, nela ele dizia:
“Imagine um dia qualquer. Ou melhor, uma noite qualquer. Você olha para o céu e ele está lá, todo estrelado como deve ser. Diversos pontinhos brilhantes que você sabe estar a trilhares de anos luz de distância. Mas, e se, bem mais próximo que isso, há apenas alguns milhares de quilômetros de distância, algo negro e obscuro também está nesse mesmo céu que você tanto vê e tanto se encanta? Há diversos pontinhos de luz, mas temos de convir que o negro cobre um espaço bem mais amplo. Não acha? Isso nos traz inúmeras possibilidades do que pode estar ali e não conseguimos enxergar. Foi isso que conseguimos mapear. Apenas um minúsculo ponto preto em uma área ainda por cima toda sem luz. Se até o dia de hoje as pessoas tinham dificuldade em contar estrelas, dessas que brilham, imagine agora, quem conseguiria contar os pontos escuros em meio à escuridão?”
Leandro terminou de ler isso e ficou alguns minutos pensando no que era essa reportagem. Estava neste momento viajando pelas tais estrelas. Seu café da manhã esfriava na mesinha próxima. Porém a matéria não parava por aí. Algo ainda mais estranho estava por vir.
O desconhecimento dos cientistas sobre o que tinham descoberto era tanto que beirava a incompetência. Mas em suas pesquisas haviam cravado com toda a certeza que lhes cabiam alguns fatos até então inimagináveis e impossíveis. Tal estrela, diziam eles, possuía um tamanho de quase um terço do da Terra.
Porém não era só isso, o impossível vinha no próximo dado que eles revelaram.
A Estrela Negra, não possuía ou exercia nenhuma gravidade sobre qualquer outro objeto ao seu redor. Isso significava que ele não possuía massa. Pelo menos não o tipo de massa que os cientistas e a humanidade estavam acostumados a ver. E pelo visto, essa bola negra estava vindo em direção a Terra.
Leandro já até pode imaginar o rebuliço dos ufologistas ao ler isso. “Ataque alienígena!”, diriam. Não que ele fosse totalmente cético a existência de vida fora da Terra, só não era um aficionado por isso. No final da reportagem eram trazidas algumas considerações de algumas autoridades em ufologia, astronomia, astrologia, filosofia, porém nada de muito interessante aos olhares de Leandro.
Era bem mais interessante para ele ter o seu próprio entendimento das coisas do que ler algum que jogassem na sua cara sem o menor respeito de ao menos perguntar “Posso tacar merda na tua cara, por obséquio!?”. E a gente sabe que isso ocorre muito hoje em dia. E sabemos também que cada vez maior é o número de pessoas que idolatram a merda jogada na sua própria cara.
Levantou-se, foi até o quintal e viu vários de seus vizinhos empacotando tudo que viam pela frente e pegando seus carros velhos e saindo pela rua afora.
“Como tem gente burra”, pensou consigo mesmo.
“Até parece que ninguém sabia que o mundo estava sendo consumido pela escuridão”
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Atualizado em: Qui 23 Set 2021

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