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Ao vivo é muito pior

A vida no pântano não era das mais fáceis, porém Leila já estava mais do que acostumada.
Ria-se dos seus desprazeres, pois para ela eram motivo de alegria. Ria-se ainda mais quando podia causar desprazeres nos outros. Nada melhor para uma mente pequena do que a desgraça alheia. Não qualquer desgraça como uma topada na calçada, não. Uma desgraça como a fome, frio ou perda de um ente querido. Era isso que a divertia mais.
Mesmo com sua formação de professora, Leila tinha uma mentalidade retrógrada e até mesmo vil. Cantarolava mentalmente as marchinhas militares dos anos 60 e 70 ao sair de casa e ter de atravessar o pântano todo dia para ir trabalhar.
Há tempos que não sabia o que era lavar sua bota velha e lamacenta. A lama já fazia parte de sua alma. Era algo já indissociável que para ela de nada importava. Sua alma era lamacenta assim como o local onde vivia.
Pé ante pé ela ia caminhando. Com um pé afundando depois do outro. Esquerda, direita, esquerda, direita. Sempre afundando um pouco mais numa mistura perfeita entre água, plantas aquáticas, lama, seres microscópicos e, é claro, um certo teor elevado de eutrofização que dava àquele emaranhado biológico um odor de podridão capaz de inutilizar os olfatos mais sensíveis.
Ela não se importava. Gostava de viver nesse lugar horrível. Gostava de viver no que outros considerariam uma merda. O cheiro e as profundezas daquele barro pegajosos eram coisas já entrelaçadas ao seu ser. Desde que o Fürhermorreu, sua família vivia a beira da sociedade. Muitas fugas, muitos países. Muitos lugares inóspitos.
Ou seja, ela só estava continuando o legado da família. Um legado de desprezo pela vida. Depois descontaria suas mazelas nos alunos e estava tudo certo. Essa era sua satisfação do dia a dia.
Leila ensinava biologia.
Sim, por mais contraditório que fosse, uma disciplina para aqueles que buscavam entender um pouco mais a natureza, para aqueles que de certa forma eram amantes da natureza.
Não no seu caso. Nem tudo é o que parece. Cada vez mais a vida nos joga na face que não devemos nos amarrar nos pré-conceitos que criamos.
Leila gostava do obscuro, gostava do que é feio. A natureza para si significava crueldade, significava sobrevivência a qualquer custo. A sobrevivência do mais apto. E ela era a mais apta. Ela era um exemplo a ser seguido. Uma imagem a ser contemplada e venerada por todos. Quem não cumprisse seus padrões de vida, ela desejava nada menos que a morte. Lenta e tortuosa. Essa era sua teoria da evolução. Sua teoria de vida. Sua visão de mundo impregnada como lama seca e fedorenta em sua mente. A natureza, assim como a sociedade, lhe era somente um lugar onde as mais variadas atrocidades aconteciam diariamente e ninguém se dava conta. Sua existência era uma dessas atrocidades.
Por isso resolvera morar ali, rodeada por um pântano, um brejo repleto de jacarés do papo amarelo, jiboias e sabe-se lá mais o que. Onde kodamas eram expulsos e repelidos. Não tinha medo dos animais. Eles é que tinham medo dela. Ela gostava disso. Humanos são superiores em relação a qualquer outro ser vivo, disso ela tinha certeza.
Na sua varanda ficavam penduradas algumas lembranças dos animais que por algum ato importuno do destino toparam com ela pelo seu caminho. Crânios de jacarés. Peles de cobras. Lagartos empalhados. Até mesmo insetos dos mais variados tamanhos e impensáveis para os moradores da cidade. Sua casa era definitivamente um circo dos horrores para os desavisados que esbarravam com ela quando se davam por perdidos durante alguma trilha.
Felizmente, poucos tinham esse desprazer.
Quando estava na escola, Leia era bem calada.
Bem medíocre também.
Só conseguia trabalho correndo atrás de político. Nunca teve a capacidade de passar em algum concurso ou conseguir trabalho por mérito próprio. Se não fosse a indicação política, não sei o que seria dela. Teria que viver do pântano. Comer lama. Não que fosse algo novo em sua vida.
Nenhum aluno gostava dela. Ela dava as piores notas. As provas mais difíceis. Tratava todos com o mesmo desprezo com que tratava a vida. A palavra empatia não existia em seu vocabulário. Um ser que vive na merda tem prazer em transformar a vida dos outros em merda também. Leila representava bem esse personagem. Sentia-se solitária nesse caminho que escolhera para a vida, mas de forma alguma infeliz.
Nem com outros professores conseguia manter alguma amizade. A direção da escola era obrigada a suporta-la somente para cumprir a legislação. Leila sabia disso, mas nem por isso deixava de levantar seu nariz pelos corredores da escola na tentativa de se mostrar superior aos outros.
Superior em que?!
Pois é. A auto ilusão é realmente um traço de personalidade a ser estudado com mais afinco.
E sua vida seguia nessa toada. Escola, casa, pântano.
Até que certo dia ao retornar da escola percebeu um murmurinho vindo do abismo brejoso que era sua vizinhança.
Sons mecânicos vinham da direção sua casa.
Eram maquinas. Muitas maquinas.
Eram pessoas. Muitas pessoas.
Por mais inacreditável que fosse Leila estava ganhando vizinhos.
Encucada com o que estava acontecendo, Leila correu o mais rápido que pode em meio a lama. Se é que isso era possível. Sua bota já tinha ficado pelo caminho, mas depois ela pegava, pensou. Conhecia aquele lugar como a palma das mãos. Ao se aproximar do primeiro ser humano que vira, ela foi logo inquirindo-o:
– Ei você, o que está acontecendo? Vocês estão malucos?! Por acaso vocês vão construir alguma coisa aqui?
– Oi, senhora. Tudo bem? Vamos sim, se Deus quiser. Nós vamos morar aqui. Por enquanto está programado dez casas e duas igrejas. Dez famílias no total. — Continuou — Mas não se preocupe, são todos cidadãos de bem. Assim como a senhora.
Leila ficou boquiaberta.
Pensou: “Isso está realmente acontecendo? Será mesmo verdade isso?! As pessoas finalmente estão reconhecendo que a vida que levo é a melhor forma de viver? Melhor forma de criar uma sociedade? Ah se a Oma pudesse estar aqui pra ver isso!”
O homem, ao ver que a moradora mais antiga do local estava sem palavras, continuou:
– Pois é, senhora. Ninguém aguenta mais a roubalheira dos políticos. Nos roubam cada dia mais esses comunistas. Todos estamos cansados disso. Aqui, em meio ao pântano, com esse ar puro e límpido a sociedade brasileira há de se erguer, há de se reestruturar. Aqui fincaremos raízes pautadas no respeito à família de bem brasileira. A senhora é uma previu isso tudo, não é mesmo? A senhora é uma visionária, uma inspiração para todos nós!
Leila, incrédula, já ia retornando para sua casa quando o homem finalizou:
– Deus te proteja, senhora.
– Sim, sim. — Ela murmurou.
As obras iam de vento e popa. Os dias iam passando. Semanas. Meses.
Cada vez mais pessoas chegavam.
Leila já perdera a conta da quantidade de vizinhos.
Ela nunca fora tão feliz. Finalmente encontrara pessoas que a compreendiam. Fizera amizade com todos. Todos que chegavam eram pessoas como ela, pessoas que viam a beleza em viver naquela lama, naquele lugar em eterna decomposição. Idolatravam o que era precário.
Era um verdadeiro milagre.
Obra do Messias.
Obra de Deus.
Leila percebia que aquele sentimento se espalhava pelo país. Aquilo em que ela sempre acreditou ia se tornando realidade. Na escola ouvia os burburinhos. Na TV não se falava em outra coisa.
Não era um milagre pontual, não era só ali que isso acontecia.
“Mais e mais pessoas optam por viver em brejos e pântanos.”
Essa era a manchete do Jornal Nacional.
Enfim seu sonho estava se realizando. A sociedade se transformando. Era um sinal de novos tempos para o povo brasileiro. Tempos de justiça, sem criminalidade e sem bandidagem estavam por vir.
Na escuridão que estava por vir, enfim via sua vida fazer sentido.
Não conseguia controlar sua alegria.
Seu riso estava frouxo.
Tão frouxo que sentiu um dente cair e ficar perdido pela sua boca com a língua a tentar domá-lo.
Ela acordou. Um suspiro alucinado.
Olhou para os lados assustada. Olhos arregalados. Desesperados. Pupilas buscando o melhor formato para visualizar onde estava.
A memória vinha aos poucos.
Quarto branco. Roupas brancas. Braços imóveis. Pernas imóveis. Cabeça imóvel.
Somente seus olhos mexiam e tinham liberdade.
De repente uma porta, grande e incólume, surge em meio ao branco das paredes que a rodeavam.
Uma pessoa toda aparamentada dos pés acabeça de um traje típico de usinas nucleares amarelo entra no quarto.
Mesmo abafado pela máscara que usava, é perceptível o tom de deboche em sua voz quando ele fala:
– Vamos, presidente. Acabou a mamata.
Pegando seu radinho na cintura, o enfermeiro comunica:
– Solicito a liberação da estação de choque. Levando o sujeito 01 agora.
– Confirmado. Pode trazer. — disse uma voz eletrônica do outro lado.
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Atualizado em: Qui 23 Set 2021

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