person_outline



search

O estranho

Estranho
Anoitecera.
Praia deserta. 
O luar esvaia-se levado pelas nuvens.
O Sudoeste havia acabado de entrar e trazendo consigo um vento gélido e cortante. A luz do luarnão duraria muito mais tempo. 
Era melhor fechar a barraca e torcer para que fosse algo passageiro. Um mero erro de cálculos de São Pedro.
Daniel não era religioso e muito menos fã de acampamentos. Tinha para si que sempre quando acampava chovia. 
Foi isso que aconteceu em Ilha Grande.
Foi isso que aconteceu no Sana. 
Foi isso que aconteceu em Araras. 
Ou seja, ela tinha bons motivos para não gostar de acampar.
Mas cá estava ele novamente. Acampanado e à trabalho. 
Daniel era biólogo e as vezes fazia parte de seu ofício essas inserções em locais ermos que o levava a acampar por uma noite ou duas.
Ele estava em Jurubatiba, norte do estado do Rio de Janeiro. Mais de 40 km de restinga, mais se 40 km de praia deserta, mais de 20 lagoas. Poucos seres humanos no percurso.
Ele arrumou sua barraca próxima a uma construção abandonada. No folclore local diziam ser de um assassino em série que rondou a cidade alguns anos atrás. Mas quem era Daniel para se apegar a isso, certo?! Isso apenas serviu para o divertir.
A construção, que agora na verdade era só um amontoado de pedras com meia dúzia de muros, ficava próximo a uma lagoa e também próxima a praia. Em caso de algum imprevisto seria uma boa referência para que outros o encontrassem. Afinal, nesse tipo de trabalho tem-se que pensar em todas as possibilidades. Nunca se sabe quando virá o Sudoeste pesado a levar a calmaria e os sons da floresta consigo.
Daniel guardou suas coisas. 
Guardou o que deu dentro da sua humilde barraca,fechou todos os zíperes corta-vento possíveis, mas estava certo de que se o vento apertasse isso de nada serviria.
O vento aumentou um pouco, esfriara, mas nada demais. Já havia passado por coisa pior. Teve uma vez que a chuva levou seu colchonete! Então, uma esfriadinha dessas não seria nada demais.
Seu telefone vibrou.
Ele se assustou porque o telefone havia passado o dia inteiro sem sinal e agora estava ele ali revivendo mensagens recebidas por um dia inteiro.
Daniel respondeu algumas, mas não tinha nada de sério. A não ser que você considere séria uma mensagem da sua mãe querendo carona para o pilates na semana seguinte.
Daniel percebeu como o som da floresta havia diminuído. Os bichos estavam, assim como ele, abrigando-se do frio e buscando aninhar-se. As corujas em suas tocas, os cachorros do mato deitando encaracolando-se um em cima do outro, as capivaras dentro da água porque elas não estavam nem aí para isso, capivaras nunca estão muito preocupados com nada nessa vida.
Mas um som não parava, não dava trégua, o som infinito que banhava todas as praias do planeta, o som das ondas. Ondas forte e descompassadas.
Daniel estava a uns bons 100 metros do mar, mas a cada pancada que ouvia parecia que o mar chegava mais perto de si. A cada nova onda, a cada nova lufada de vento era como se o mar desse um passo em sua direção. Era assustador se parasse para pensar muito nisso. Estariam as ondas atrás dele?
Por isso Daniel resolveu bisbilhotar e ver como estavam as coisas lá fora. 
Não precisou abrir a barraca, o que significaria deixar o frio entrar de vez, só precisou se esticar um pouco, se contorcer em meio a bagunça e o pouco espaço dentro da barraca, para olhar pela janela tela mosquiteiro e ter uma ideia do que acontecia lá fora.
Por sorte sua janelinha/tela ficou virada para o mar. Não que ele tivesse previsto essa neurose com onda caminhando em sua direção. Não, isso foi por puro acaso. A ideia era ter um bonito nascer do sol para chamar de seu.
No momento o nascer do sol era algo tão distante que até o deixou triste.
Ainda mais que quando olhou pela sua janelinha,o som das ondas cessou. 
O que fez com que seus olhos e ouvidos aguçassem-se ainda mais.
Nada que o preparasse para o que viria a seguir. 
No horizonte. 
Entre ele e o mar. 
Uma silhueta.
Uma pessoa.
A silhueta de uma pessoa como que invocadapelos mares caminhava em sua direção. 
Estava distante, estava escuro, estava ventando, estava frio. Mas definitivamente havia uma pessoa ali. O reflexo do que restava do luar no mar não deixava dúvidas.
Daniel tentou não se exasperar. Poderia muito bem ser um pescador ou… ou… não conseguiu com que nada mais viesse a sua cabeça.
Não queria admitir, mas estava entrando em pânico.
Estava num lugar deserto a dezenas dequilometros distância do povoado mais próximo. Em suas incursões a campo sempre esperava encontrar qualquer sorte de animais e plantas, mas encontrar pessoas e ainda mais a noite, não podia ser boa coisa. 
Pensou, pensou, pensou…
Pegou o celular e resolveu conversar com alguém para avisar, e também tentar esquecer o que estava acontecendo. Mas quando pegou o celular lá estava ele zerado do maldito sinal novamente. Isso foi um balde de água fria em suas expectativas e esperanças de que alguém pudesse persuadi-lo da ideia de que uma silhueta numa praia deserta a noite pudesse ser uma coisa ruim.
Daniel pensou se o melhor a fazer não seria ir lá de uma vez e conversar com essa pessoa. Se apresentar e explicar o que estava fazendo ali e assim descobrir o que ela também estava fazendo por ali.
Olhou para a bagunça de sua barraca e viu seu facão.
Na pior das hipóteses essa seria sua arma. Sua espada de Greyskon. 
Não que ele tivesse a menor noção de como usar um facão a não ser para abrir uma trilha ou outra.
Tentou tirar isso da cabeça.
Não era nada demais aquela pessoa ali. Tentou convencer-se disso por mais de uma vez.
Olhou novamente para a fora e a silhueta continuava imóvel.
Daniel cogitou a ideia de ser uma árvore ou algo do tipo que por acaso estava dando a impressão a ele de ser uma pessoa. Isso poderia facilmente acontecer.
Uma árvore escrota querendo assustar ele.
Mas quando olhou dessa vez, a árvore andou. Ela realmente andou e ele viu.
Daniel deu um pulo dentro da barraca. Caiu por cima de suas coisas jogadas de qualquer maneira e por pouco não se machucou.
Sentiu-se naquelas cenas dos safáris africanos e filmes quando um leão ronda a barraca de um turista desavisado.
Pegou o facão, muniu-se de coragem a abriu o zíper da barraca.
Não poderia ficar ali esperando ser devorado pelo desconhecido. Tinha que saber. Tinha que lutar de alguma forma contra seus medos. E afinal, muito provavelmente não seria nada. Ele ainda acreditava fielmente nisso. 
A gente sempre acredita que vai dar tudo certo. Mesmo quando as chamas nos consomem.
Daniel saiu da barraca e caminhou lentamente em direção a silhueta que agora, assim como ele, ele percebeu ter algo em sua mão. 
Ele lembrou da tal história do assassino em série, mas aquilo além de ser lenda, a própria lenda diz que o cara foi morto pela polícia com sei lá tantos tiros. E mortos não voltam. Daniel podia estar assustado, apavorado, mas não havia perdido seu discernimento.
Ainda não.
Sem tirar os olhos da figura que se erguia a sua frente, Daniel tentou reparar no que acontecia ao seu redor. A lagoa estava bela e brilhante. O vento amainara, mas a temperatura caíra certamente uns 5ºc repentinamente.
Munido de coragem, um facão e uma bela dose de ‘vai ficar tudo bem’, ele caminhou em direção a sombra em forma de gente.
A sombra fez o mesmo.
Daniel sobressaltou-se, mas agora não tinha mais volta.
Era tudo ou nada.
A silhueta que lhe dera impressão de estar caminhando em sua direção na verdade não se mexera muito. Daniel que fez a maior parte percurso. 
Chegou à praia. O som das ondas retumbava em seus ouvidos.
Mesmo a poucos metros de distância a silhueta não ganhou forma. Era como se a luz morresse em seu corpo. 
Uma escuridão em forma humana. 
E em sua mão uma faca negra como a noite.
Será esse o fim?
O fim de suas esperanças.
O fim de sua sanidade.
O que era aquilo? O que estava acontecendo? 
Com os olhos marejados de pavor Daniel deixou-se levar pelo medo e ajoelhou-se na areia fofa àbeira-mar. 
A escuridão fez o mesmo. 
Ainda com o facão em sua mão Daniel o levou ao próprio pescoço. 
A escuridão fez o mesmo.
Foi então que percebeu.
A escuridão era ele. 
Ele era a escuridão.
Com um breve movimento o terror cessou.
O vermelho manchou a areia branca.
O ventou voltou a soprar e as ondas a limpar o que havia de ruim no mundo.
Pin It
Atualizado em: Qua 15 Set 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222