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Matando luas e domando vulcões

A insônia. Maldita insônia. Era mais uma noite cálida do inverno mais rígido dos últimos tempos e mesmo assim nem o filme mais enfadonho e moroso da madrugada foi capaz de fazer o sono dar o ar da graça. Só João sabia o quanto sofria com suas noites perdidas e dia mal aproveitados. Uma insônia que esbanjava ousadia e poder sobre seu corpo.
Resolveu então dar uma volta ao redor do lago que margeava sua casa. Estava tão escuro que mal se podia acreditar que realmente havia vida ali, quem diria um lago. Foi tateando o ar lentamente, até que se aproximou da velha cadeira de balanço que ficava no deck desde que se entende por gente.
Aquela casa na serra pertencia a sua família há gerações. Quando criança vinha ali para tomar banho de rio, mergulhar e caçar tesouros no fundo da água turva do lago. Eram dias gloriosos e das mais esquisitas descobertas. Infelizmente, para ele, nunca encontrara nenhum anel do poder. Isso o entristecera muito na época.
Caminhando e divagando pelo total breu ao bel prazer do universo o levou a pensar sobre como as pessoas tratam com descaso e não refletem o suficiente da importância da natureza. Acham que por não estarem enxergando nada, nada as enxergam de volta. Que ignorância! Essa reciproca não é verdadeira. Não entendem que possivelmente exista mais vida naquele breu do que em toda a humanidade em si.
Nesse momento, entregue aos devaneios e pensamentos, lembranças infantis vagueavam para um lado e para o outro da sua cabeça, tão superficialmente que dificilmente se apegava a alguma delas. É interessante notar como chega um ponto onde não temos mais nenhuma rédea sobre algo tão íntimo como nossos pensamentos — pensou.
Diz-se por aí que isso é o famoso “pensar na vida”. João considerava isso uma verdadeira fábula, já que apenas pensar por pensar em nada vai contribuir para a vida dele, além do fato concreto de se estar perdendo tempo. Pensava que se cada um parar para pensar, por mais redundante que seja, na quantidade de tempo que se perde futilmente, um tempo que seria bem melhor se gasto trabalhando e assim criando a partir do esforço próprio, a vida em si. Ou seja, era melhor gastar o tempo realmente vivendo do que apenas criando conjecturas de uma suposta vida que nunca iremos ter.
Mas João tinha plena noção de que ele não era a personificação da coerência no mundo. Já que neste exato momento, nada mais ele fazia do que divagar sobre tudo e sobre todos. Pensava que foi assim que havia se tornado tão ranzinza. Ser ranzinza até o alegrava em certo ponto. Se ria em pensar que havia se tornado um velho mais chato do que Bóris, o personagem ícone da “ranzizisse” vivido por Larry David no filme “Tudo Pode dar Certo”.
A madrugada se esvaía pelo tempo, e João ali, recordando de um filme do Woody Allen que ninguém mais no mundo além dele se importava. O frio seco já transformava cada expiração num show de mini cumulonimbus vindas do seu interior diretamente para povoar o céu noturno. Será que foi assim que deus teve a ideia de fazer as nuvens? — Se perguntou. Por que, pensando bem, não tem motivos de existir essas coisas. A não ser que alguém quisesse esconder algo no céu. Riu-se imaginando a cena de um ser superior criando tal aparato. Imaginou um velho barbudo e cabeludo, digno dos participantes mais bizarros vistos pelos encontros de motociclistas típicos de cidades pequenas, com frio por ter esquecido seu casaco de couro e sem ideias do que mais estava faltando nesse novo planeta que estava criando. Quando nota a fumaça branca que sai estranhamente da sua boca e diz — Que maneiro! — e pensa — Por que não?.
– Enfim. — pensou — Que planeta de merda você criou hein! Isso se foi mesmo seu serviço, claro. Não tem porque ficar culpando ninguém sem provas. João podia ser chato e ranzinza, mas ao menos se orgulhava de ser uma pessoa justa.
– Nossa! — falou em voz alta para a noite ouvir, como se quisesse expelir pela simples contração de suas cordas vocais aquele sentimento pantanoso que tomava conta de si. E voltou-se a sua discussão interna.
Estou divagando dentro da minha própria divagação. Minha mente sempre me leva ao impossível. Não é possível que seja apenas eu. Aquela sensação de querer tocar o nada. Querer alcançar o sol apenas com o esticar dos braços. Essa insônia me traz toda essa coisa inútil a mente. Será que o que estou fazendo hoje da minha vida é realmente o certo? Será que vou morrer amanhã? Não creio que alguém ou qualquer ser seja lá o que for saiba dessas respostas. E para dizer a verdade não sei se quero realmente saber.
É como havia lido num livro recentemente — “essa mania de ter esperança é o que acaba com a humanidade”.
Esse pensamento o lembrou de algo que estava protelando em fazer. Se endireitando na cadeira vasculhou pelos bolsos pelo seu caderninho de anotações que sempre mantinha por perto. Não demorou muito a encontra-lo. Cavoucou mais um pouco e logo achou a caneta que recém havia usado em casa. Precisava confessar algo. Não tinha esperanças de que alguém fosse ler ou mesmo se importar, mas era algo que precisava ser feito.
Esse era o verdadeiro motivo da insônia, bem o sabia João. Sabia também que era típico das pessoas querer fugir da realidade, por isso fingia que não sabia de nada. Se sentia fraco por isso, mas isso é algo inato aos homens, o que podia fazer?!
Pegando seu caderninho, começou a escrever com seus garranchos:
“Me chamo João. Sim, mais um João num mundo de milhões de Joãos ninguém. Tenho 42 anos e estou cansado. Paciência não é uma virtude que me pertence há uns bons 20 anos. Moro numa quitinete qualquer da sua cidade. Sim, sou seu vizinho. Não fique mal por não me conhecer, não sou do tipo sociável, nunca te chamaria para assistir uma partida de futebol mesmo.
Por meio desta venho me confessar.
É realmente necessário um crime para uma confissão? Ou a intenção de cometer algo ilícito já basta? Em certas ocasiões as pessoas confessam seu amor e tudo o mais. Mas não se preocupe, esse não é um desses casos. O amor, de mim não sabe nada. A verdade é que quero confessar um assassinato. Porém, longe de mim me considerar culpado. Não, não, isso não. Sou apenas um produto da sociedade como dizem. Cheguei ao meu máximo, só isso. Não suportei mais a pressão. Fui fraco, eu sei. Mas tive que matar. Sim, matei! Matei as crenças humanas, matei todo e qualquer vestígio de coerência imposta pela sociedade e cultura vendida pela mídia. Cansei de aceitar o que me dizem. Cansei de aceitar a gravidade e tudo mais que os cientistas botam na nossa cabeça. O impossível pra mim não existe mais. Tal palavra foi cortada de meu dicionário. Como assim que não posso voar? Ou respirar debaixo da água? Ou simplesmente andar de skate num dos anéis de Saturno? Quem nos impôs essas regras? Regras estão aí para serem quebradas, sempre foi assim na história do mundo.
Por isso, declaro aqui que resolvi matar a lua!
Sei que não se trata de uma ideia inédita. Conheço de cinema o suficiente para saber que um francesinho qualquer do século retrasado já havia tentado isso. Aplaudo seu coração visionário! Minha cabeça nesse momento ressoa ao tom de um turbilhão de borboletas em forma de sinapses nervosas. Quebrar conceitos não é algo fácil. Quem dirá a lógica inata que por séculos foi cultivada nas nossas mentes.
Finalmente posso dizer — Hoje à noite não tem luar e nem nunca mais terá.
Obtive sucesso onde Deuses tentaram e falharam. Venci o impossível! Nada é impossível, só temos de estar prontos para aceitar as consequências. Quando isso acontece, vencemos o medo”.
Ao terminar de escrever, João enfim pode relaxar. Logo vieram as lágrimas. E com elas o sangue voltou a jorrar com mais intensidade. O sangue já coagulado banhava seu rosto. Manchas esparsas de seu liquido visceral mordiscavam suas mãos, corpo e todo o caderno. As letras borradas carregavam vestígios de sangue e lágrimas. Em sua mão direita jazia a sua arma destruidora do impossível, a caneta, que usara para perfurar seus olhos horas antes. Antes de desmaiar e sair cambaleante pela, agora, eterna noite. Se ainda enxergasse veria o rastro vermelho deixado por ele no quintal e até mesmo na cadeira em que estava.
Chorava, mas era de satisfação. Realizara o que ninguém mais pode.
A lua estava morta.
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Atualizado em: Seg 13 Set 2021

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