person_outline



search

Fuga

Preciso fugir.
Preciso continuar fugindo.
As coisas lá fora só estão piorando.
Eles estão atrás de mim. Sei que estão. Todos eles continuam atrás de mim.
Quando tudo isso começou, logo em minha primeira fuga, eu tentei uma cirurgia cerebral. Algo bem invasivo, sim, eu sei, mas foi até que bem-sucedida. Superou minhas expectativas, porém durou pouco. Eu conseguia escapar deles facilmente usando minha inteligência apurada tecnologicamente, mas, assim como aconteceu com Algernon, a minha felicidade durou pouco. Estava muito fácil para ser verdade. A realidade bate mais forte do que a verdade, e logo já estava eu em fuga desvairada novamente.
Logo foi a vez de tentar outras dimensões. Não gostei. A ânsia de vomito das viagens era demais para o meu físico já debilitado do racionamento de comida. Davi foi quem me indicou essa rota, porém me arrependi completamente. Não se deve confiar em anões! Passei por pandemias, nevascas, mundos radioativos e de nada aprendi. Saí pior do que entrei. Uma verdadeira perda de tempo para quem não tinha tempo a perder.
No Irã fui mulher. Parece fácil e banal transformar-se em mulher, mas tenta viver essa persona num mundo fundamentalista religioso e machista?! Durou o tempo de um bordado. Mas foi um aprendizado profundo para mim. Hoje, vivo em fuga, mas elas, nada podiam fazer. Nada podiam fazer que não fosse se calar e seguir a vida. Vida? Bom, elas tentavam. As que ousavam pensar diferente, ousavam a fuga, podiam sofrer pelo resto da vida com as represálias do estado ou da sua própria comunidade e família. Mulheres mais fortes não há.
Então parti rumo a São Tomé e Príncipe, duas ilhotas perdidas no continente africano. O ano era 1.906. Achei que o idioma pudesse me ajudar no convívio local, porém pior do que uma sociedade racista, é uma sociedade hipócrita e racista. Dessas que juram de pés juntos que não são racistas quando todas as suas atitudes evidenciam o contrário. E isso eu já vivo no Brasil há séculos. Por lá havia um rapaz bem-intencionado que tentou de tudo e lutou até o fim para que as recentes leis abolicionistas não passassem de mero papel para inglês ver. Infelizmente ele morreu tentando. Espero não ter o mesmo fim. Foi um período de muito aprendizado, que me mostrou por A mais B como toda sociedade nunca deixou de viver estruturada no abismo do racismo.
Resolvi então retornar para próximo de casa. Fui parar na Colômbia de Gabriel Garcia Márquez. Vivi na pele de um coronel, um dos muitos oficiais da revolução, recém aposentado e a espera de sua pensão no ano de 1950. Foram 15 anos de espera e nada. Não vivia, esperava. Pior do que qualquer fila de banco hoje em dia. Foram tempos muito tristes. Passei muita fome e frio. Tempos de apego à pequenas coisas da vida. Mas saí de lá garantindo que o galo de meu filho permanecesse longe das rinhas e bem alimentado.
Apesar das voltas que dei a perseguição continuava. Era eu abrir os olhos e lá estavam eles. Na TV, no rádio, nos jornais, na janela, as vezes até dentro de casa. Eu seria mais feliz se não olhasse. Se meus olhos não abrissem, se meus ouvidos não ouvissem.
Infelizmente, sentir faz parte do que sou.
Minha última parada foi na cidade de Chiba. A cidade que tinha o céu igual a uma TV fora do ar. Carlos foi meu guia por esse mundo. Um mundo futuro onde a tecnologia alcançou níveis de criatividade e inserção mental que os cientistas de hoje sequer sonham em conceber. Um lugar demasiadamente complicado para alguém de fora como eu. Foi um show pirotécnico da capacidade humana de criar mundos, mas era além do que minha mente tinha capacidade de discernir.
Será que ainda me perseguiam?! Não sei.
Afinal, eu estava mesmo sendo perseguido?
Também não sei a resposta para essa pergunta, mas acredito que sim. Melhor continuar minha peregrinação do que apostar no azar e acabar preso num porão com as mãos amarradas com fita isolante num cano enferrujado de gás.
No momento o que me incomoda mais é o sono. Será que um dia terei meu sono de volta?! Faz 17 dias que não durmo. Hoje foi mais um dia. Meu sono foi raptado de mim pelo cantarolar das ondas do mar batendo lentamente na costa que, mesmo ausente, meu cérebro tratou de criar. Tratou de recordar-me que estou em fuga. Não há tempo para sonhar. Não são tempos para sonhadores. Eles não deixam. A patrulha dos sonhos é uma entidade muito atuante nos dias atuais. Nada mais revolucionário do que pessoas que pensam e sonham. E nosso falido sistema não pode permitir isso.
Tenho que ficar acordado. Sempre alerta. A cada duas ou três semanas materializo um novo porto seguro. Uma nova fuga. Vou de Paris a Tóquio como quem sobe um lance de escadas rolantes. Sei que não é o suficiente. Fugir é um ato continuo.
Fujo para manter minha sanidade mental. Para me manter longe da loucura que toma conta lá fora. Se não fujo, enlouqueço-me. Ou pior, enlouquecem-me! Esse é o preço a se pagar pela sanidade? Pelo bom senso? Pelo livre arbítrio? Devo fugir até essa conjunção de tempestades passar. A manada armada está em todos os lugares. Nos noticiários, nas igrejas. Está no poder e se espalha como um vírus.
– Facistas! Rascistas! — Ouço um canto ao longe.
Como queria estar com eles. Mas cá estou eu. Longe. Estou sempre longe. Minha voz não chegaria até lá por mais que eu tentasse. Sou um espectador fervoroso do entoar progressista e libertário que vem das ruas. Vivo desde que me entendo por gente nesse personagem.
– Camaradas, vocês têm todo o meu apoio, mas continuarei a fugir. É o que faço de melhor. Se não fugir, eu não vivo. Se não fugir, explodo. Fujo hoje para que eu exista amanhã.
Hoje embarco para o sul dos EUA da metade do século XX. Espero ser feliz por lá. Sei que o tempo será curto, assim como em todas as outras idas e vindas, mas tento aproveitar ao máximo esse exílio auto imposto. Tenho que aproveitar-me dessa biblioteca esquecida e empoeirada.
Torço para que os tanques de guerra não cheguem nunca. Que a vida real seja ficcional, pois somente na ficção o bem sempre prevalece sobre o mal. Mas, principalmente, espero que as pessoas vejam onde está alojado o mal. Essa percepção vem erodindo nos últimos anos e hoje pagamos um preço alto por não ter previsto esse naufrágio ético e moral em que vivemos.
Pensando bem, fico feliz por ter o sono me abandonado. Graças a isso posso agora deixar este relato a todos. Posso quebrar a corrente mecanicista do cotidiano em que era refém.
Não canto, mas escrevo. Não grito, mas penso. Fujo, para me encontrar. Fujo, para encontrar humanidade.
Pin It
Atualizado em: Seg 13 Set 2021

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222