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Um bom dia para voar

“A brisa cheia de maresia do mar, o ar puro ao sobrevoar as grandes florestas, o brilho do sol refletido nos olhos. Tudo isso é maravilhoso nos primeiros anos de voo. A liberdade de não se ter fronteiras. Ir para o lado que soprasse meu coração.
E acreditem esse sopro já me levou para vários lugares por todo o planeta. Conheço todos os continentes de cor. Desertos, mares, florestas verdes e até mesmo as florestas cinza habitadas pelas criaturas mais comicamente trágicas que já vi.
E as caçadas? Ah a primeira caça!
A emoção de sair do ninho e obter o sustento por si só. Como era bom! Dos roedores aos anfíbios e algumas outras coisas que a gente acaba comendo por aí quando não se tem muita coisa para fazer, sabem como é. Mas não vamos nos ater ao meu cardápio nos dias áureos.
Tenho o dever de dizer algo sobre essa ilusória liberdade dos meus primeiros anos de voo.
É falsa! Simplesmente uma farsa que os sacanas dos ventos beberrões nos contam quando somos jovens e temos nossos sonhos como combustível básico pra nosso vindouro futuro. Dia a mais, dia a menos, a maquiavélica, a horrenda e necromântica rotina nos pega. E ela nos suga todos os sonhos, combustíveis, pele e alma. Suga tudo!
E aí num fatídico dia você percebe não ser o personagem principal no filme do universo. Nem a classe alfa do mundo, o rei dominante. Pelos deuses! Vocês não podem imaginar o baque que foi quando tive essa revelação, essa verdadeira epifania.
Não sabem como é para uma águia real descobrir que os reis desse mundo são aqueles seres asquerosos que vivem nas florestas sem vida. É deprimente, lhes digo! São uns animais sem penas, cabeçudos, de asas finas que não voam e patas longas. Lembram de longe os macacos. Mas que meu amigo Nunga não leia isso, ele não gosta nada da analogia. Diz não ser de bom grado religioso compará-los a seres que obviamente são o mal do mundo.
Passei por todos aqueles processos semelhantes ao do luto: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Agora vejo como são engraçados certos acontecimentos. Por exemplo, mesmo para quem sempre esteve com o mundo sob as suas asas, um universo de detalhes pode passar despercebido.
Não somente através da visão, pude enxergar melhor onde eu estava e o que eu representava nisso tudo. Quanto mais me aproximava daquela selva cinza e deprimente percebia o quão ensurdecedora era a confusão de sons que vinha dali, o gosto das coisas também mudava. E o ar?! Por Fênix! Era verdadeiramente impossível de respirar quando eu me aventurava a entrar na redoma de todos os tipos de poluição que envolvia esse mundo sem cor e sem vida.
Era assustador fazer minhas tocaias e investigações desses bichos escrotos. Alguns amigos contavam histórias que diziam que eles nos caçavam e éramos o prato principal de seus banquetes. Ainda bem que nada de mau nunca aconteceu comigo, entretanto era preciso muita coragem para manter minhas investigações sobre esses autoproclamados seres superiores. Achava engraçado, quando por força do vento, eu acabava me aproximando demais deles.
Os que aparentavam serem os mais velhos costumavam apontar um equipamento estranho e alongado para mim, e então pressionavam algo dentro dele que fazia um barulho gritante e seco que julguei ter o objetivo de me afugentar. E funcionava, claro. Mas achei interessante eles quererem me enxotar dali, já que isso demonstrava medo.
Anos depois descobri qual era a verdadeira função de tal equipamento nefasto. Fiquei mortificado!
Porém, nas vezes que eu me aproximava de jovens da espécie, eles ficavam me observando. Era palpável o modo como me olhavam com gosto, como que hipnotizados pela minha simples presença em seu céu amargo. Seus olhos brilhavam e um tipo de espasmo tomava conta de suas caras. A experiência me ensinou que eles tinham nome para esses espasmos, davam o nome de “sorriso”.
Só sei que era medonho. Eu ainda os repreendia com toda a minha valentia e gritava “Tô de verde, por acaso?”. Mas isso só os fazia aumentar os espasmos. Era nojento. Claramente eles não me entendiam. Eram incapazes de se comunicar, como eu suspeitava.
Assim o tempo foi passando. Tanto para mim quanto para o mundo. Era páreo duro supor quem se deterioraria antes. Eu, infelizmente, apostaria no mundo. Ele sofria de maneira excruciante.
Os biomas artificiais dos humanos (descobri ser assim que chamavam uns aos outros) cresciam cada vez mais. Consumia tudo que tivesse verde e vida como um vírus alcoólatra ao ter a sorte grande de parar num mausoléu de vikings. As estações do ano se perdiam e se confundiam umas com as outras. Surgiam novos desertos e os antigos ampliavam-se. Chover era raro e quando chovia causava mais destruição do que benfeitorias. O mar tentava invadir das formas mais brutais possíveis as terras dantes verdes e alegres.
Todos os animais do mundo, os verdadeiros e eternos responsáveis por controlar e organizar a natureza desde os tempos ermos eram agora exterminados. E, além disso, os que restaram ainda vivem com medo e traumatizados. São usados em experiências fúteis, ou ainda escravizados e utilizados para divertir os filhotes de humanos.
Em suma, tudo está desregulado e errado. Muito errado!
Percebendo o tamanho de minha insignificância neste mundo irreal, eu desisti de só ficar olhando e reclamando da vida. Se o futuro pode ser algo melhor, eu devo levantar minha velha asa e fazer algo de realmente significante que possa mudar esse quadro temerário que nos encontramos hoje.
Tive uma ideia magnífica!
Eu iria mudar isso. Eu iria prover o fio de esperança, há muito perdido, à sofrida terra em que vivo. Mesmo que tivesse de dar a minha vida pelos meus ideais.
Eu vou atacar uma daquelas aves de metal que esses parasitas usam para fazer suas migrações!
Devo dizer que assim que vi essa distopia da natureza me espantei astronomicamente. Alguns amigos desavisados e mais religiosos julgaram ser a grande deusa Fênix transcendida dos sete céus. E logo um bando foi querer ter uma palavrinha com a divindade. O resultado foi um suicídio em massa e pane geral da deusa mecânica. Foi um dia triste para todos nós.
Mas voltando ao meu plano.
Serei mais esperto que meus desafortunados amigos. Aprendi com o tempo onde atacar exatamente para ter o resultado esperado. Se tudo der certo, mato toda uma manada de humanos que ali estiverem viajando. E como ponto bônus, se eu tiver sorte e mira laser, posso fazê-lo cair em cima de uma daquelas árvores quadradas de pedra em que vivem aos montes.
Muito bem, amigos, é isso!
Aqui vou eu para ficar na história. Espero que esse dia marque a reviravolta da natureza sobre essa doença.
Adeus.”
Termina aqui o relato com as justificativas deixadas pela folclórica águia conhecida como Gusty, o Insano.
O que se viu a seguir nessa conturbada história foi algo como uma formiga atacando um tiranossauro. A águia acertou com o bico de raspão numa das turbinas do boing. O que serviu perfeitamente para quebrar seu pescoço e matá-la, porém sem efeito algum ao avião que por segurança achou melhor realizar um pouso forçado e nada mais.
Para acrescer catastroficamente o azar de todos os seres vivos terráqueos que não tiveram sua revolução, dias depois, após reclamações das empresas aéreas em relação ao excesso de animais voadores sujando o céu. Que segundo eles atrapalhavam o progresso da sociedade mundial, uma junta governamental, em resposta, decidiu-se por adotar medidas “fundamentais”, segundo seu porta-voz, no que tange a tais infortúnios no tráfego aéreo.
Foi anunciado um ousado novo projeto de engenharia internacional nomeado de DESMATAMENTO PARA UMA SOCIEDADE MELHOR.
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Atualizado em: Seg 13 Set 2021

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