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Animais

Nem sempre saio de casa, e quando saio dá nisso. Confusão para todos os lados. Carros, pessoas, desinteresse, pobreza, animais e caos.
– Tô velho demais pra isso. - Digo a minha neta que estava me fazendo passar por aquilo para ir ao médico. Como se eu precisasse disso. Tô bem, tô vivo. Tudo a minha maneira. Nenhum amigo da juventude poderia dizer o mesmo.
– Quantos animais, não? — Digo.
– Sim, vô. Tem alguns. — Ela responde.
– Alguns não, tem centenas, milhares. — Rebato.
Ela responde com uma cara de poucos amigos e um ‘deixa pra lá’ invisível com o olhar. Não valia a pena discutir com velho, ela deveria pensar.
– Ah no meu tempo. As coisas não eram assim. Era cada coisa em seu devido lugar. Pessoas no lugar de pessoas e animais nos lugares dos animais. — Continuo falando mesmo que ela não dê atenção. Nunca é tarde demais para que esses jovens aprendam. Quer eles queiram, quer não. Meu passado militar me imbuíra desse dever cívico.
– Um pingo de bom senso já bastaria, mas os atos da sociedade de hoje tão aí pra demonstrar que já não é pautada pelo bom senso há muito tempo.
– Do que você tá falando, vô?
– De um assunto que me causa uma ânsia, uma vontade de acabar com tudo, algo que deveria ser desnecessário de sequer ser discutido.
– Sei. — Ela disse desanimada.
– Pois então, há algum tempo que venho notando essa tendência por aí de campanhas em prol dos animais, cães e gatos em sua maioria. É um tal de “adote”, “ajude” que não acaba mais. Esquecem dos humanos com uma facilidade absurda. Preferem preterir crianças abandonadas, vítimas de qualquer tipo de abuso, em favor dos animais. O mundo tá acabando em violência e terror, mas se um gatinho bonitinho for salvo tá tudo resolvido. — Só agora acho que consegui a atenção de minha neta que me lançou um olhar de reprovação que dava ser visto da China.
– É isso mesmo, Isabela. É realmente difícil para a minha cabeça aceitar coisas desse tipo. É desmatamento, é criança crescendo sem um mínimo de educação, fragilizadas e prontas para se tornarem os traficantes e assassinos de amanhã, seres humanos, mas tá tudo tranquilo. Imagina que mundo legal não seria esse hein?! Sem árvores, todo poluído, com pessoas marginalizadas pelas ruas e com uma população de gatos e cães maior que a de humanos. — Esbravejei o máximo que meu enfisema permitia.
– Boa sorte para vocês que ainda vão viver por muito tempo nesse mundo. Pois, este mundo novo não farei a menor questão de ver, nem de viver.
Minha neta apressava o passo. Não queria ouvir aquilo. Não estava pronta para aquela conversa, obvio. Ela envergonhava-se por mim, eu sabia disso, mas me divertia com isso. Sei que meu tom de voz estava alto demais, mas quem se importa? Nós velhos estamos errados sempre. Deixe-os terem o que falar.
– Interessante é ver esse tipo de coisa pelo seu lado gramatical, por incrível que pareça diz muito sobre o comportamento social atual. — Continuei — “Adote”, “Ajude”. Note como sempre há a prerrogativa de invocar uma segunda pessoa. Este ato é recorrente nos dias de hoje. A falência da sociedade, a meu ver, se deve muito a esse comportamento. A incapacidade das pessoas em tomarem iniciativa e pôr em prática suas opiniões. É muito mais fácil viver baseado em opiniões alheias do que dar valor às suas próprias. Afinal, caso algo dê errado você terá a quem culpar, e poucos tem personalidade o suficiente para reconhecerem seus próprios erros. Falta coragem no mundo.
Entrávamos no elevador do prédio onde ficava o médico e eu continuava como um trem desgovernado.
– Veja que não sou contra quem pega e faz aquilo que acredita. Que ajudar, quer cuidar, ótimo, então faça por onde, mas não fique no seu sofá esperando que uma mãozinha alheia vá pegar e fazer suas coisas para você. As pessoas precisam treinar o esquecido uso da primeira pessoa.
Isabela, no auge dos seus 16 anos, então disse:
– Não quero ser parte de uma humanidade que se considera superior a natureza. Não há uma hierarquia predita, somos todos modos de expressão do viver. Que seres humanos são esses que não agem com humanidade? Está ficando cada vez mais difícil reconhecer os verdadeiros animais dessa história, vô.
Calei-me.
Era hora do…
O que eu estava indo fazer mesmo?
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Atualizado em: Qui 9 Set 2021

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