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Amor Amigo

Eu nunca tive pai e mãe. Meu pai abandonou minha mãe quando soube que ela estava grávida. Dizem que ela ficou tão desgostosa e decepcionada que foi definhando e faleceu poucos dias depois que eu nasci. A dona da fazenda onde ela trabalhava, e que eu sempre chamei de Madrinha, me criou. Era uma fazenda linda e produtiva. Uma casa muito grande e  muito confortável. Nunca me esconderam que eu não era filha deles mas sempre me trataram como uma pessoa da família. Mas no fundo eu não me sentia da família. 
Minha madrinha e seu marido, meu padrinho, tinham dois filhos. Um era muito mais velho que o outro. O mais novo veio meio que de surpresa, temporão e é só alguns anos  mais velho que o primeiro neto de minha madrinha. E eu sou praticamente da idade deles. Nós três crescemos juntos, embora o neto dela morasse em outra fazenda. Mas estava sempre lá e a gente se divertia pra valer.
Já na adolescência eu me senti apaixonada pelo neto de minha madrinha. Ele também olhava pra mim de maneira especial. Mas eu que conhecia a história de minha mãe e me sentia inferior a ele, ficava com um pé atrás. Um dia estávamos na cachoeira e ele tentou me beijar. Eu fugi. Não por medo mas por timidez e vergonha. Naquele tempo havia ainda muito respeito e pudor entre um homem e uma mulher séria. Eu saí correndo e o deixei lá na cachoeira. Depois deste dia ele nunca mais tentou nada e me tratava como uma amiga querida. Eu nunca demonstrei que o amava e nunca o incentivei a tentar novamente.
Pouco tempo depois ele foi estudar em outra cidade.  Eu me sentia sozinha, triste e morria de saudade dele. Quando ele vinha para o final de semana era uma festa. Eu o conhecia mais que a mim mesma. Sabia quando ele estava feliz, quando estava triste, quando estava preocupado. Só de olhar pra ele eu sabia o que ele estava sentindo. E éramos confidentes.
Uma vez ele passou quase dois meses sem aparecer. Quando chegou estava tentando mostrar alegria mas eu sabia que ele não estava bem. Mais tarde quando estávamos a sós eu perguntei a ele o que estava acontecendo. Ele me disse que estava apaixonado por uma garota e que tinham brigado. Meu mundo caiu. Eu nunca soube de nenhuma namorada dele antes. Isto me deixou triste e deprimida. Ele me contou tudo e disse que ia tentar reconciliar com ela pois estava realmente amando esta mulher.
Da próxima vez que ele esteve lá, estava feliz. Estava namorando e muito animado. 
Um tempo depois ele trouxe a namorada para a família conhecer. Eu fiquei triste e decepcionada. Era uma mulher linda, inteligente, simpática e elegante. Notei que o filho mais novo da minha madrinha, que já estava casado nesta época, ficou um tanto sem graça quando foi apresentado a ela.
Quando ele se formou dentista  e ia voltar para trabalhar na nossa cidade ele veio com a novidade que ia ficar noivo e se casar em breve pois não queria ficar longe da mulher amada. Eu fiquei pra morrer de tanta decepção e tristeza. Mas ele não notava nada. Parecia me ver apenas como uma irmã. 
Por esta época o tio dele veio me dizer que sabia que eu era apaixonada por ele e que se eu quisesse eu poderia acabar com aquele casamento. Que eu devia me declarar que ele ia ficar confuso pois quando adolescentes ele era apaixonado por mim. Eu disse que não sabia porque ele estava me dizendo aquilo mas que não faria nada. Eu jamais iria atrapalhar a felicidade dele.
E eles acabaram se casando. Neste dia eu chorei tanto, chorei todas as lágrimas que eu tinha. Mas ele não percebeu nada. 
Um ano depois nasceu o primeiro filho deles. Os dois eram muito jovens e passaram por muitas brigas, mas foram se ajustando pois se amavam muito. Estavam sempre juntos e enfrentaram todas as dificuldades sem nunca deixar que o amor deles fosse afetado.
Sempre que ele estava muito pra baixo, muito baixo astral vinha conversar comigo. E eu sempre tinha uma palavra de consolo ou de motivação pra ele. Ele sempre me dizia que eu era muito triste e que precisava sair da minha letargia e procurar ser feliz, encontrar alguém. E eu dizia pra ele que eu amei muito um homem e que ainda o  amava, mas que não deu certo. Que ele não me quis. Ele não desconfiava de nada e dizia que se ele não me mereceu que eu precisava encontrar um outro amor. Eu me calava e depois chorava sozinha.
Sete anos depois a esposa dele estava passando pela quarta gravidez. Era uma gravidez de risco. Estava sendo muito difícil e ele muito preocupado. Ela entrou em trabalho de parto antes do previsto. O bebê nasceu mas pouco depois ela teve uma hemorragia. Fizeram uma cirurgia de emergência mas ela estava muito fraca e entrou em coma.
Neste momento eu percebi a dimensão do amor que ele sentia por ela. Talvez fosse um amor tão verdadeiro e sincero como o que eu sentia por ele.
Ele estava desesperado, numa tristeza sem fim. Eu ficava muito mal de vendo-o assim. 
No dia seguinte ela faleceu. Foi uma tristeza tão grande! Ele estava desesperado, inconsolável. Todos estavam muito tristes por uma perda tão estúpida. 
Ele não saia de perto dela, chorava e se desesperava. Eu estava preocupada e querendo fazer alguma coisa por ele. Foi quando o tio dele me disse:
-Deixe que ele faça o que quiser. A dor é muito grande e cortante. Ele precisa viver esta dor. (e ele chorou nesta hora)
-Você também está muito triste. Você sempre foi meio distante dela.
-Eu não consigo vê-la morta. A todo tempo eu penso que ela vai levantar e andar pela casa.
-Ela era uma pessoa muito querida.
Ele como que não aguentando mais sufocar aquele segredo disse:
-Eu me lembro dela com quinze anos. Uma linda garota. Tão tímida que ficava toda sem jeito quando a gente olhava pra ela. (sua voz foi cortada pela emoção e pelas lágrimas)
-Você a conheceu?
-Muito. Na época eu era apaixonado por ela mas ela nunca quis saber de mim.
-Então é ela o seu amor antigo, de adolescente?
-Você nunca notou, não é? Mesmo sendo você também apaixonada secretamente. Devo ser um ótimo ator.
-Você deve estar sofrendo muito.
-Eu não sou mais apaixonado por ela como você é por ele. É só uma tristeza de vê-la morta assim tão jovem. Eu amo minha esposa. 
Eu fui até ele tentando consolar e tirá-lo dali um pouco. Ele me abraçou e chorando copiosamente perguntou como podia ter acontecido aquilo. Disse que não sabia se iria suportar. Disse que estava sentindo um vazio e um desespero imenso. Que parecia que ia morrer também.
Eu disse:
-Pense em seus filhos. Ele vão lhe dar forças pra você seguir em frente.
-Eles não mereciam isto. Perder a mãe assim tão precocemente. O que será deles e de mim?
-Tudo vai passar e você não está sozinho.
-Não vai passar tão cedo. Eu não vou saber viver sem ela. (chora).
Passou o tempo, passou o sepultamento.
Alguns dias depois o bebê, que ainda estava no hospital por ter nascido um pouco prematuro, recebeu alta. Nesta hora eu não o reconheci. Ele disse que não queria aquele bebê. Que ele era o responsável pela morte do amor da vida dele. Eu sabia que ele não estava nem sabendo o que estava fazendo, que quando se acalmasse ele voltaria atrás. 
Todos tentaram convencê-lo a aceitar o bebê. Mas ele estava irredutível.
Ele estava no quarto escuro. Eu entrei e perguntei se podia lhe falar. Ele disse:
-Se você também vem falar do bebê, pode voltar daí.
-Não vou falar sobre o bebê. Eu não tenho nada com isto. Ele é seu filho e não meu. Mas você sabe que ela falou no filho, que ela nem conheceu, antes de morrer?
-É mentira. Você quer me convencer.
-Pergunte à sua mãe. Pergunte ao médico.
-Não é verdade.
-Ainda que não fosse, aquele bebê é fruto do amor de vocês. Ela morreu por ele. Ela o amou até o fim. Tenho certeza que ela não culpa o filho por ter morrido. Você acha que onde quer que ela esteja ela vai aprovar a sua atitude? Você acha que ela vai estar tranquila seja onde for vendo o filho dela ser renegado pelo pai? Ele é uma criança inocente que não tem culpa de nada. Ele não merece ficar sem mãe e sem pai. Como ela lhe amou ela amou este filho que é seu. Seu filho não sabe o que se passa. Mas ela aprovaria e lhe perdoaria esta atitude? Pense um pouco. Este é o último elo do amor de vocês. É parte dela que ficou entre nós. E é seu filho, é parte de você. 
Ele me olhou com uma tristeza imensa, as lágrimas rolando pelo rosto e disse:
-Por favor, deixe-me só.
Eu saí do quarto. Eu ia saindo com a mãe dele para ir buscar o bebê quando a porta do quarto se abriu e ele saiu abatido, envelhecido e disse:
-Vamos buscar meu filho.
Nos olhamos e a mãe dele disse:
-Você mudou de idéia. Graças a Deus!
-Eu vou buscar meu filho, talvez ele possa me fazer entender. (as lágrimas escorriam por seu rosto).
Passou uns dias, as crianças foram acostumando à ausência da mãe.
Dias depois, na fazenda, ele estava muito triste e deprimido. Ele saiu. Eu fui atrás e vi que ele estava chorando sozinho. Eu cheguei e disse:
-Engraçado, eu sempre me julguei infeliz, você sabe… Eu sempre…Mas lhe vendo nesta situação eu acho que minha infelicidade não é nada.
-A infelicidade e a tristeza têm muitas faces.
-Eu sempre tive que ver a pessoa que eu mais amo neste mundo, sim, porque eu amo este alguém como um irmão, como um amigo, como um homem, como uma pessoa muito especial…
Ele me cortou:
-Por favor, eu sei que tenho obrigação de lhe ouvir e gosto quando você abre seu coração pra mim. Mas eu estou assim, tão arrasado. Nenhum consolo adiantaria. Eu não me consolaria por você porque é muito diferente o que eu estou passando.
-Eu sei mas por favor, deixe que eu fale. Pelo menos para que você saiba que pode contar comigo pra qualquer coisa que você precisar. Eu jamais sairia do seu lado, caso você não quisesse.
-Eu conto com você. Você sempre me ajudou em tudo e eu sempre fui egoísta pois quando estou na pior é no seu ombro que eu vou chorar.
-Eu nunca reparei nisto.
-Porque você é uma pessoa maravilhosa.
-Eu quero lhe dizer que por muito tempo eu tive que ver o homem da minha vida, o único homem que eu amei, feliz ao lado de sua esposa.
-Por que você me fala disso agora? Acha que é algum consolo pra mim? Eu não estou com cabeça pra isto. Eu peço desculpa, mas peço que respeite a minha dor.
-Eu quero lhe dizer que… que este homem hoje está muito triste e arrasado e isto me corta o coração.
-Por quê? O que aconteceu com ele?
-Você sabe mais do que eu a dimensão da dor e da tristeza que ele está sentindo.
-Você está querendo me dizer que… que…
-Estou querendo dizer que este homem é você.
O quê? Você não pode fazer isto comigo. Está querendo me enlouquecer? Não pode ser.
-Por que não pode ser?
-Respeite a minha dor. Respeite o meu luto.
-Eu não estou desrespeitando nada. Apenas quero que você saiba como é grande, sincero e puro o meu amor por você e que você pode contar comigo pra tudo.
-Não vamos falar disto agora, por favor.
-Eu nunca vou pedir nem cobrar nada. Só quero estar do seu lado pra lhe ajudar.
-Deixe-me em paz, deixe-me sozinho. (eu saí e o deixei sozinho)
Ele nunca mais voltou a se casar.
Dois anos depois, quando minha madrinha e avó dele faleceu,  ele me convidou pra morar com ele e ajudá-lo a criar os seus filhos. Eu fui. Era tudo que eu queria e sonhava. O tempo passou e ele me dava tudo, carro, roupas, jóias, conforto, viagens   e uma vida digna. Eu sempre o acompanhava onde quer que ele fosse. Mas nunca me deu o que eu mais queria: amor. Todos pensavam que vivíamos como marido e mulher mas na realidade ele nunca me tocou como mulher. Ele dizia que a amizade e o respeito que sempre teve por mim não permitia que ele me levasse pra sua cama.
Eu o ajudei em tudo. Era amparo e força no que ele precisasse. Em suas dores, em suas perdas, em seus problemas. Fui uma mãe para os filhos dele. Compartilhei também de suas vitórias, dos seus sucessos, de suas alegrias. Estive presente quando seus filhos  se formaram, se casaram, quando seus netos nasceram. Mas nunca tive o seu amor. Nunca tive seus beijos, seu carinho, seu toque, nunca experimentei o prazer de me entregar a ele. Mas eu o amo tanto que o fato de estar ali presente em sua vida, de compartilhar a vida com ele, ainda que como uma amiga, foi pra mim uma felicidade. 
Hoje, passados muitos anos, somos felizes ao nosso modo. Sorrimos, brincamos e divertimos juntos O nosso amor foi diferente do amor dos casais mas nem por isto foi menos feliz. 

 

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Atualizado em: Seg 23 Ago 2021

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