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A Namorada do Presidente

Eu cheguei naquela cidade para trabalhar como executivo em uma grande empresa.
Logo de cara o presidente, que também era jovem, e eu tivemos uma grande empatia e logo nos sentimos a vontade um com o outro. Ele me tratava não como um funcionário mas como um amigo.
Eu era sozinho e não conhecia ninguém ali. Fiquei hospedado em um hotel até conseguir um lugar para morar. Numa sexta-feira  à noite eu saí meio sem rumo para conhecer um pouco a noite da cidade. Entrei em um barzinho e lá estava o meu chefe. Cheguei até onde ele estava. Ele estava em uma turma e me apresentou seus amigos e sua namorada. Quando eu olhei pra ela foi como se um encanto imediato tomasse conta de mim. Senti algo inexplicável que me incomodou e me deixou envergonhado. Mas não conseguia parar de olhar pra ela e vi que ela notou.
Muitas outras vezes nos encontramos. Em festas, no clube, em diversos eventos sociais.
Cada vez mais eu me encantava com ela e sentia que ela também estava encantada comigo. Ele sempre estava muito ocupado com o trabalho, com os amigos, com o futebol que gostava de jogar e que não abria mão. Muitas vezes no clube ela e eu conversamos enquanto ele ia jogar futebol com os amigos.
Ela era uma mulher inteligente, sensível, determinada e lindíssima. O namorado dela era desligado, frio e agia como se nem tivesse uma namorada.
Com o tempo fomos nos apaixonando perdidamente e irremediavelmente. Conversávamos muitas vezes por telefone. 
Era uma tortura pra mim vê-la com ele. 
Eu sutilmente tentava fazê-la entender que era comigo que ela tinha que estar e não com ele. Odiava vê-la sendo tratada com tanta indiferença e descaso. 
As famílias deles, ricas e conservadoras, queriam muito aquele casamento e eles se deixavam levar por isto. Estava claro que não havia amor entre eles. Muitas vezes eu me senti mal por estar apaixonado pela namorada de um cara que me tratava como um amigo e por quem eu também tinha este sentimento de amizade. Mas além daquele sentimento ser incontrolável eu sabia que aquele namoro não tinha nenhum futuro. Ele era tão cego e indiferente que nunca notou nada. nunca notou aquele envolvimento entre ela e eu que saltava aos olhos.
Muitas vezes, talvez por um sentimento de culpa, eu tentei fazê-lo ver que se ele não mudasse com ela acabaria por perdê-la.
Uma noite estávamos em uma boate. Ela com ele e eu com uma garota. Nos olhávamos e os dois nem percebiam. Aliás, ele era tão desligado e sonso que nunca percebeu nada.
Num momento em que ficamos sozinhos à mesa eu a arrastei para a pista de dança. A música era suave. Estávamos dançando coladinhos.
-Esta musica bem que podia durar eternamente.
-Não quer voltar pra junto da garota que está com você?
-Por que você se faz de boba? (eu a apertei em meus braços)
-Você está me apertando.
-Eu sei
-Vamos voltar à mesa.
-Pra quê? Sei que você está gostando de dançar comigo.
-Você é muito pretensioso
-Sei que você está gostando de dançar e que está gostando de estar em meus braços.
-Pare com isto. Largue-me, quero voltar à mesa.
-O que ele faria se nos visse dançando juntinhos assim? Será que isto o faria acordar? E se visse isto? (eu a beijei)
-Que atrevimento, solte-me
Ela se desvencilhou de mim e saiu apressada. Eu a alcancei e segurei seu braço 
-Você vai se trair. Ele pode desconfiar.
-Vou contar tudo a ele.
-Sei que você não é nenhuma tola.
-Isto é uma ameaça?
-Não. Eu não saberia ameaçar você e sei também que você não vai querer que ele me quebre a cara, se é que ele tem sangue pra isto. Ele parece não enxergar nada.
Ela soltou-se e foi até a mesa. Na maior tranquilidade ele perguntou se estávamos dançando e pediu desculpas por nos deixar sozinhos. 
Ela começou a me evitar a partir deste dia. Isto me deixava pra morrer. 
Alguns dias depois fui até a porta da faculdade e esperei até ela sair. Disse que precisava falar com ela. Abri meu coração e falei do meu amor. Ela ficou um pouco desconcertada mas disse que também estava apaixonada por mim mas que não podia terminar o namoro pois ele não merecia e suas famílias tinham como certo aquele casamento. 
Eu disse:
-Você vai se casar com um homem que não ama e que lhe trata com tão pouco respeito e consideração porque as duas famílias querem? Não estou lhe reconhecendo. Você vai se oferecer em sacrifício? Acha que pode ser feliz neste casamento? Principalmente agora que está apaixonada por outro? Nem eu nem você merecemos isto. Se houvesse amor entre vocês eu sairia do caminho. Mas não há. Você me ama e eu lhe amo. 
-Você me confunde.
-Não. Eu clareio suas idéias. Seja razoável, seja sensata. Não faça isto com você. 
-Eu tenho que pensar.
-Pense em você e em mim.
Nos despedimos.
Dias depois nos encontramos e conversamos
-Eu pensei muito em tudo que você me falou. Você tem razão. Eu não posso me casar com ele. Eu vou romper nosso compromisso. Conversei com ele ontem mas não tive coragem.
-Ele não merece tanto zelo de sua parte. O modo como ele trata você, lhe deixando sempre em segundo plano mostra que ele não merece a sua consideração.
-Eu não quero magoá-lo.
-E por isto adia as coisas? O que você pretende? Ficar comigo e continuar com ele? Eu não aceito. Eu não saberia dividir a mulher que eu amo com outro.
-Não é isto. Eu também não seria capaz de fazer isto.
-Eu fico pra morrer só de pensar que ele beija estes lábios que deveriam ser beijados por mim. (tocando os lábios dela).
-E por que não me beija?
-Por que você ainda é uma mulher comprometida.
-Você me beijou aquele dia.
-Foi só pra dar uma sacudida em você. Pra você acordar.
-Eu tenho medo da reação dele em relação a você.
-Ele não é um homem violento, pelo contrário. É frio. Nem sei se corre sangue naquelas veias.
-Ele pode tirar o seu emprego.
-Se ele me botar na rua eu consigo outro emprego. Eu me garanto.
-Eu não sei como falar com ele.
-Eu não vou esperar mais. Eu vou falar com ele. Sei que você nunca teria coragem.
Ela me olhou sem nada dizer.
No dia seguinte na saída do trabalho eu disse que precisava falar com ele. Fomos até o Café e eu conversei com ele.
-O que eu tenho pra conversar com você é um assunto muito delicado e que não pode mais ser adiado.
-Diga.
-É sobre Cláudia.
-Sobre Cláudia? O que você tem pra falar sobre ela?
-Se vocês se amassem de verdade, tudo seria diferente.
-Eu não estou lhe entendendo. Seja claro por favor.
-Cláudia e eu nos apaixonamos. Isto foi acontecendo em todo este tempo que fomos nos conhecendo, nas vezes em que você a trocou pelo futebol e pelos amigos e que a perdeu para mim.
-Você diz que está apaixonado por minha namorada nesta calma? Qual é a sua, cara? E você ainda me culpa por isto?
-Ninguém é culpado, simplesmente aconteceu.
-Então vocês estão me traindo pelas costas?
-Não é bem assim. Nunca houve nada entre nós além deste encantamento. Nunca tivemos nada e ela tem medo de lhe magoar e jamais seria capaz de romper este compromisso. Por isto eu estou aqui tendo esta conversa com você.
-Bem que me avisaram que vocês estavam se envolvendo e eu pensando que você era meu amigo. Você é um canalha. um traíra, um mau caráter. Não merece nem que eu perca meu tempo lhe dando uma surra. 
Ele se levantou e foi embora.
Mais tarde ela me disse que eles conversaram e que tinham terminado o relacionamento mas que ele estava muito nervoso e nos acusando de tê-lo traído pelas costas.
No dia seguinte eu cheguei para trabalhar. Não sabia o que ele faria comigo. Provavelmente eu seria demitido. Não me importava com isto. Conseguiria um outro emprego.
Pouco depois ele chegou e parou de frente pra mim e disse:
-Bom dia!
-Bom dia! Que bom você falar comigo. Depois de tudo que me disse imaginei que só receberia minha demissão.
-Você vai ficar com ela agora, não é? O caminho está livre. Conversamos ontem e ela me dispensou.
-Eu não lhe traí. Você que a perdeu. Se houvesse amor entre vocês eu me retiraria.
-Eu devia lhe quebrar a cara.
-Se isto lhe satisfaz, se ameniza seu orgulho ferido, quebre. Eu não vou lhe processar. Só quero que pague as despesas do hospital.
-Você é muito cínico
-Eu não tenho culpa se você não soube conquistá-la. Você não soube e nem poderia  segurar uma mulher como ela. Ela é muito especial. Não é mulher pra ser trocada pelo futebol e  pelos amigos como você sempre fez. Não é mulher de se contentar com migalhas. E você não pode me acusar pois apesar do que eu sentia por ela, eu tentei lhe alertar várias vezes que você a estava perdendo. Você pediu para perdê-la e foi atendido. Não pode reclamar. Não pense que foi fácil pra mim ter que escolher este caminho. Desde que eu cheguei aqui eu sempre fui tratado como um amigo por você. Mas as coisas foram acontecendo. Você a perdeu todas as vezes que a trocou pelo futebol, pelas farras, pelos amigos. Eu a conquistei com carinho, com afeto, com companheirismo, com atenção. E pode ter certeza eu lhe respeitei. Nunca houve nada entre nós. E enquanto ela não se decidisse lhe deixar não haveria. Eu me dou ao respeito e sei respeitar um amigo.
-Você tem coragem de falar em amizade? Que amigo é você que se mete com a mulher do outro?
-Você me entregou sua namorada. Você a perdeu. 
-Você ainda me culpa?
-Isto não tem importância. Não houve culpa de ninguém.
-Você não tinha o direito de fazer isto comigo. Você foi um canalha.
-Bem, o que eu quero saber é o que você vai fazer agora.
-Como assim?
-Se tiver de me botar na rua, faça logo. 
-Você acha que vai ser fácil pra mim continuar a trabalhar com um traíra?
-Não acho nem deixo de achar nada. Está na suas mãos. A decisão é sua.
-Eu não vou lhe botar na rua. Eu sou o presidente desta empresa e tenho que ser profissional e saber separar as coisas. Não haverá a mesma relação de confiança mas você tem feito um ótimo trabalho e eu quero que você termine a reestruturação da empresa, da produção e que continue com sua gerência de excelência. Eu não posso negar que você é um excelente profissional e eu não posso prejudicar a empresa, que é da minha família, por questões pessoais. 
-Ótimo. Vou fazer tudo que me compete da melhor forma possível. Vou continuar sendo o profissional que veste a camisa da empresa e que o faz com competência. Mas muitas vezes teremos que conversar sobre o trabalho. Espero que possamos conviver profissionalmente de forma civilizada.
-Nossa relação será estritamente profissional.
-Perfeitamente. Posso voltar ao meu trabalho?
Ele virou e foi saindo. Eu disse:
-Tenha um bom dia!
Ele virou, olhou pra mim e disse:
-Vai à merda. Vá pro diabo que o carregue.
Eu só sorri e voltei ao meu trabalho.
Passou um bom tempo até que ele me tratasse sem mágoa e ressentimentos e que voltássemos a nos falar com cordialidade. 
Mas o importante é que eu estava livre para viver o meu amor por aquela mulher. A partir daquele dia,  demos vazão ao nosso amor, desejo e paixão. E pela vida afora fomos sempre amantes, companheiros, cúmplices, amigos, amparo e porto seguro um pro outro. 

 

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Atualizado em: Seg 16 Ago 2021

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