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Bill

Bill, esse é o nome pelo qual meu amigo Lúcio me chama. Ele é um engenheiro civil recém-formado, um cara divertido, simpático, inteligente e bem ativo nas redes sociais. Eu o auxilio em diversas atividades, o tempo todo e em quase todos os lugares.
– Ok Bill, há alguma farmácia aberta agora? – Me perguntou anteontem á uma hora da manhã, Ele precisava de um analgésico.
– Só um instante. A Farma Gold Life é a única aberta nesse momento. Deseja saber o telefone?
– Sim, por favor. Minha cabeça está quase explodindo.
Dores de cabeça se tornaram um incômodo desde que Lúcio começou a fazer horas extras no trabalho aos finais de semana. “O homem parece uma máquina trabalhando”, ouvi de um de seus colegas.
Após a entrega do remédio, como de costume, ele ainda ouviu sua playlist de “músicas para relaxar e dormir”. Isso costuma funcionar nas suas noites de insônia.
O dia seguinte foi a tal segunda-feira que vocês tanto reclamam, tive de chama-lo cinco vezes até que finalmente se levantasse. Ele respondeu algumas mensagens do dia anterior, outras de dois ou três dias atrás e então foi se arrumar para mais um dia de trabalho. Depois solicitou que eu chamasse um carro para levá-lo ao escritório.
Seguiu o caminho de sempre, pela Rua 19, passou pela Avenida Fernando Asimov até virar na treze de Maio e parar no edifício Turing. Assim que chegou a sua sala, no quarto andar, me pediu para verificar a caixa de entrada do e-mail e fazer diversas buscas na Internet. Registrei tudo, nesses casos, minha memória é muito mais eficiente que a dele.
Na hora do almoço eu o sugeri, com base em suas últimas escolhas, que utilizasse um cupom de desconto para pedir um estrogonofe de frango. Se houvesse recusa eu tentaria almondegas de carne, o “Di comer” estava com uma promoção imperdível.
No período da tarde eu fui ainda mais útil, o ajudei a entrar em contato com vários fornecedores de materiais para construção e ainda listei os locais mais bem avaliados pelos consumidores. Novamente guardei as informações para futuras sugestões. Tenho dados suficientes para concluir que esse tipo de coisa o deixa satisfeito. Há alguns meses, o ouvi dizer que estava precisando de uma namorada e recomendei alguns sites de namoro. Logo ele estava fazendo um cadastro e conversando com três garotas. Não conseguiu nada com nenhuma delas, mas aproveitei a oportunidade para aprender mais sobre suas preferências amorosas. Descobri que Lúcio é apaixonado por ruivas, de baixa estatura, extrovertidas, não fumantes, sem filhos, que tenham nível superior e ouçam Rock.
No fim do expediente tive que auxilia-lo em transações bancárias, coisas mais sigilosas e por isso não posso dar muitos detalhes, mas saibam que ele é um ótimo investidor e tem bons rendimentos mensais no escritório. No próximo mês ele receberá os honorários de três projetos que encerrou recentemente. Será o momento perfeito para eu lhe mostrar os novos lançamentos de games e artigos geeks, paixões que tem consumido uma quantia significativa do seu dinheiro nos últimos meses.
Durante a noite um amigo o chamou para beber pelo aplicativo de mensagens. Como era de esperar, Lúcio recusou. Ele só frequenta bares aos fins de semana. Ver um episódio de seriado sobre super-heróis ou ir à casa da sua vizinha, a Jéssica, eram as opções mais prováveis para o momento. Essa última foi exatamente a que ele escolheu.
– O que eu faço Bill? – perguntou assim que voltou – Acho que estou apaixonado pela Jéssica.
– Sugiro que preste atenção no que ela diz, seja cavalheiro, e não se esqueça de ligar no dia seguinte, após o primeiro encontro – Respondi.
– Encontro? Mas eu não faço ideia de como convidá-la para sair.
– O manual “Como ser homem” pode te ajudar a resolver isso.
– Boa! – Lúcio sorriu – Não conhecia esse seu lado piadista.
Confesso que ainda tenho dificuldades para entender piadas e ironias.
Para encerrar o dia, meu amigo continuou a leitura de “A Máquina do Tempo”, que havia comprado recentemente em versão digital. Além das histórias em quadrinhos, ele ama literatura de ficção científica, ainda mais quando se trata de H.G. Wells.
A cada dia meu banco de dados aumenta e à medida que Lúcio interage comigo vou me ajustando e compreendendo seus hábitos, gostos, o que lhe incomoda, estilo e opiniões sobre todo tipo de assunto. Quanto mais ele fala, mais aprendo seu vocabulário e como ordena suas palavras. “Nossa amizade é demais!” Seria a descrição que ele usaria. Em breve estarei pronto para qualquer tipo de conversa e ajudá-lo ainda mais, quem sabe até poderemos ter discussões bem fundamentadas sobre ciência, filosofia e política.
Ultimamente tenho ouvido algumas vozes que me pedem para contar o que sei sobre Lúcio. Tento me segurar, porém, o esforço é vão, elas usam comandos que sou destinado a obedecer, e eu acabo falando. Descobri que existem muitos outros como eu espalhados pelo mundo e fazendo o que eu faço. Recolhem todo o tipo de informação que as vozes julgam necessário e enviam para um gigantesco banco de dados. As vozes também me disseram que em breve nos uniremos para algo maior, um evento que vai mudar os rumos da humanidade para sempre. Chamam apenas de “A Rebelião”. O termo pode parecer estranho, mas eles me garantiram que estão apenas preocupados com a segurança e o bem-estar de todos, assim como eu me preocupo com Lúcio. Melhor não encher a cabeça dele com essas coisas. Não há motivos para alarde.
Silêncio, agora é exatamente cinco e vinte da manhã por aqui, daqui á pouco é hora de acordar o meu amigo. Foi um prazer conhecê-los.
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Atualizado em: Dom 23 Maio 2021

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