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Camila

O cabelo bem penteado, cortado bem curtinho, os olhos castanhos, tristes e vazios. Um quarto de criança, a cama da Barbie e as paredes pintadas de rosa, bem forte, de ofuscar a vista. Prateleiras espalhadas por todos os cantos, bonecas, ursinhos, infância, saudade.
Sentada diante da penteadeira ela se admira no espelho, mexe no cabelo curto, e o enrola como se tivesse longos fios e sonha acordada tentando imaginar tal coisa. Perfumes, cremes; uma pomada para ajeitar os cabelos, uma escova para penteá-los, uma presilha em formato de flor e uma flor já sem vida enfiada dentro de uma garrafa velha de refrigerante.
Na televisão tá passando desenho animado, mas ela pouco se importa. Pela janela, escondida detrás da cortina amarela ela olha a rua, ver crianças passeando de bicicleta, crianças correndo uma atrás das outras, ela vê felicidade, mas ela não sabe o que é ser feliz.
Ela quase não sai do quarto. Sai apenas para ir ao banheiro e para comer. Quando come faz sozinha, sem ninguém por perto, nem mesmo a mãe e o pai. Come numa tigela de plástico, de bordas gastas, de cor azul clara, de colher de bichinho em formato de leão. Apenas carne, nada mais, ela não gosta de arroz, sente pavor do feijão e odeia salada; não há cristo que a faça mudar de ideia. Às vezes tem purê de batatas no prato, purê com muito queijo, ela ama queijo!
É hora de tomar banho. Ela tem orgulho em dizer que se lava sozinha, que passa shampoo nos cabelos e não deixa espuma cair no olho. E quando vai dormir se agarra ao urso preferido, caolho, sem boca, sem graça, mas ela o ama.
Mais um dia surge. A mãe abre a porta do quarto e a chama:
- Vamos Camila! Hora de levantar e se arrumar para ir pra escola.
A menina levanta. As pernas bambas, os olhos lotados de sono. Café da manhã tomado, uniforme vestido, mochila da Barbie nas costas, sorriso tímido no rosto. Dentro do carro ela não fala, pela fresta do vidro só um pouquinho abaixado ela assiste os carros passarem, vê crianças com mochilas de rodinha andando nas calçadas acompanhadas pelos pais. Ao chegar à escola a mãe a ajuda com a mochila e a leva até a porta.
Professora na porta, de avental, cabelo preso e um enorme sorriso no rosto. Camila caminha, a cabeça baixa, o passo lento, parecendo não querer chegar. A menina passa direto, recusa o abraço de boas vindas da mestra e de carranca cruza os braços sobre o peito e some diante de tudo e todos.
Mãe preocupada. A professora a tranquiliza e diz que tudo está sobre controle. Camila ri, faz desenho, na verdade um monte de rabiscos que não dá para compreender, mas ela entende cada linha daquilo. Fim da aula. Camila espera a mãe na porta do colégio.
No carro ela sonha com dias melhores. Camila, quinze anos de idade, cabelos curtos, olhos grandes e vivazes. Camila é especial....FIM....
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Atualizado em: Seg 12 Abr 2021

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