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O Ragazzo, Via Veneza

Que grande dia! Outrora havia uma grande dúvida permeando meus pensamentos. Nesta tarde quente de primavera, a conclusão do meu grande sonho enfim haverá de se realizar. A esperança é tanta, brande como fio de espada. Mesmo que por desgosto vindo do meu pai e dos meus familiares, haverei de conseguir, assim como Baudelaire e Goethe um dia, foram incompreendidos pelos que os rodeavam, haverá um dia de grande exaltação ao sucesso vindouro. Palmas e gritos, a gloria adquirida através de versos, estrofes e rimas. Grandes elegias, jograis e espírito palaciano hão de nascer diante dos vossos olhos. A minha vida será elevada a hipérbole, a ruptura e grandiloquência, fará, aos céticos dobrarem joelhos e abaixarem a cabeça. Para este que vive em uma pequena fazenda nas colinas, estar se encaminhando para a grande cidade incrustada em veios de água, é a primeira grande aventura de sua vida, campesino sou, mas sem alma de fidalgo, em mim reverbera a nobreza, a realeza. Neste singelo depoimento, digo-vos, a nobreza do poeta esta em perceber nas palavras sentidos infinitos, multi sentidos, a beleza da arte em escrever, a sonoridade da metrificação assim como nos cantos dos pássaros, assim como no uivo tristonho do lobo do vale do sul, digo-vos como testemunho, o poeta testemunha a efemeridade, o tempo-espaço do longínquo eco da humanidade, A DISTOPIA DE CONVECIONALIDADES SOCIAIS. Digo-vos, a práxis do poeta é amor, seu mote, é amor, e repetidamente repito, amo! Teço o amor em palavras, a costuro, reconstruo, transcrevo, descrevo, sou assim como aquela pequena e incansável aranha, construo uma teia, interligada e interconectada, teia essa que imageticamente, flui... assim como em mim flui, letras, palavras, frases, versos, estrofes, assim ao menos por curtos períodos de tempo encontrado sentido, nessa minha pequenez, dessa minha existência sem sentido, nesses relâmpagos subitamente, me vejo, converso com meus outros eu, me multifaceto, porventura posso ser Deus, Deus do meu pequeno mundo, Deus do processo de criação poética. Minha vida podia sim ser prosa ou poesia, escolhi poesia, me dou o direito de ser livre, ou também metrificado, sou soneto quando quero, ou auto se dramático, se estou bravo sou tragédia se estou feliz sou comédia, escarnio. Quando caio na rotina da vida sou novela, assim sou, um metapoeta, um metafilósofo ou por vezes o nada... o silêncio... a pausa...
Avisto enfim o meu destino a bela cidade Italiana de Veneza, e relembro das tantas cartas que enviei, ao editor chefe da pequena editora, as negativas foram tantas, que em dado momento já estava pensando em desistir, mas quando o luar toca o poeta ele acorda, a empírica poeticidade existente em meu sangue não deixou que desistisse. Em certo tempo trabalhei, nas plantações de uva do babino, os mesmo pés que abasteciam meus bolsos com moedas também me eram inspiração, as mão calejadas, doíam menos quando pegava a pena... no fim do duro dia te trabalho, eram o meu alento, e também, minha distração... (estava solteiro). Hei, larga de devaneio, esteja presente.
As luzes daquela cidade para mim, pareciam os vagalumes que quando no tempo de meninice voavam ao redor do lago, infindáveis... adentrei, por ruas, vielas, a liteira uma hora não coube no passadiço, desci e me pus a andar, atrasei-me por trinta minutos, mas o editor estava lá, preocupado, suas sobrancelhas arqueadas e o nariz adunco lhe davam feição de alguém muito bravo, ora, eu moço, recém saído dos cueiro galgando ser um escritor, ele poderia muito bem imaginar que fosse uma piada, brincadeira de mal gosto. Andei em direção a ele com os ombros eretos, me dirigi de maneira solene, rum-rum... Fiz-lhe um aceno retirando o chape de minha cabeça, apresentei-me, no mesmo momento ele adentrou uma saleta e pegou os meus manuscritos, na primeira folha logo vi algumas anotações. Parei, escutei atentamente ao que o Sr. Editor tinha para me falar, cada palavra, soou como uma badalada de um grande sino de igreja, eu escutava, escutava, quando abruptamente apareceu um ser, reluzente, cabelos loiros, olhos vivos, figura campesina e de mais pura beleza, atônito esqueci, o que vim fazer ali, esqueci, quem era, por um breve momento minha existência se esvaiu, uma música soava ao fundo, cantantes passavam em meio a uma multidão, o barulho, a moça, elementos de uma catarse jamais sentida antes, eu flutuei, o ser mais belo estava diante de mim, havia de fazer algo para chamar-lhe atenção, mas fazer o que? Quando ela de relance me olhou eu flutuei, as melhores intenções afloraram em mim, porque estou agindo assim, como um bobo da corte, o que há? Nunca estivera diante de tal criatura, e já estava apaixonado. Sr. – Você está me escutando? – como acordando de um sonho, me vi diante do editor novamente, disse-lhe perdão. Pedi para que repetisse o que estava dizendo – O seu manuscrito está aceitável, temos que mudar algumas coisas – O meu amor por poesia era grande só não foi maior do que minha paixão por aquela bela imagem feminina andando pra lá e pra cá.
A felicidade em mim não cabia, era o começo promissor de um jovem obstinado, que agora, poderia viver de seu dom, a escrita. Mas sem aquela moça faceira, nada me fazia sentido. Há, como te desejo moça dos cabelos de ouro, seja minha, te farei a mais feliz dentre os mortais, te darei os céus, te consagrarei deusa do meu ser. Seja minha... meus pensamentos estão a milhão, a quero te desejo, te venero, agora sei o que Romeu sentiu ao ver sua bela Julieta, assim, um misto de encanto, medo e bobice... Há nunca fui... em um bailei se fosses minha aprendia dançar e levar-te-ia para uma noite de dança... você cheirando a rosa, e eu a cravo, seriamos complementares. Me deixo levar pelos meus devaneios, mergulho neles, me deixo levar como se tivesse na corrente de um rio... será que estou sofrendo do mau do século? Ah, se estiver que mal tem, não estou fazendo mal a ninguém, a não a mim mesmo como essas estrondosas batidas que se aceleram em meu peito... preciso... vê-la, preciso falar-lhe dos meus mais puros desejos, sim! Irei...
Ah! Minha amada, meu ser de luz, acordei lembrando-me de Canon in D major do Pachelbel, aquelas crescentes melodias igualavam-se ao mais puro sentimento, o querer mais belo, você que para mim corre pelos campos merece alguém assim como eu poeta, moço das palavras, fazer-te-ei feliz eternamente assim como na canção. O mais purista do romantismo sou eu hoje. Dirigi-me a editora, a vi, chamei-a.
Comecei a recitar o verso que sonhei, dediquei a ela:
- “ Tu que surgiste como o sol
Amanhecer de domingo
Existe cousa tão linda
És fonte d’agua no deserto
Tornastes o mais ouro desejo,
A mim só resta pedir aos céus,
Criatura divina feita por mãos celestes,
Diga que sim...
Diga que compartilhara a efêmera eternidade,
Diga que a redundância de minhas palavras
De nada lhe valerá?
Prostrado estou, esse ser, te mereces?
Diga-me diante do grandioso sol,
Advento do nosso amor,
Que sim!”
Uma grande multidão cercava-nos, explodia-me a boca o coração, e como um cancioneiro ela balbuciou:
- Sim eu filha de Mostreganno, Marcella, aceito, o pedido, do grande e corajoso poeta, Giovanne Du Fallini.
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Atualizado em: Qui 25 Mar 2021

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