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Coisas do Destino

Era o ano de 1938, numa cidade do interior de Minas Gerais. Letícia era uma garota de 17 anos. No auge de sua juventude encantou-se por Lindolfo, um jovem que lutava por um futuro melhor. Lindolfo também caiu de amores por Letícia. 
O pai de Letícia era austero e conservador. Homem sério e pai rigoroso. Não deixava suas duas filhas soltas, eram sempre vigiadas de perto. Não podia correr o risco de acontecer delas se perderem.
Letícia começou a se encontrar escondido com Lindolfo. Sempre que tinha uma oportunidade os dois conversavam e trocavam promessas de amor eterno.
A irmã mais velha de Letícia, Lívia, já estava comprometida com um rapaz que o pai escolheu para ser seu marido. Lívia era obediente e aceitava o destino que o pai escolheu pra ela, sem discutir. Não entendia a rebeldia de Letícia e por isto sempre contava para o pai as travessuras da irmã.
Certo dia Lívia conta para o pai que Letícia está na pracinha da cidade conversando com Lindolfo. Ele furioso vai atrás da filha e a leva de volta pra casa com safanões e fúria.
Ao chegar em casa ele diz:
-Nunca mais se encontre, converse ou ao menos olhe para aquele rapaz. Se isto acontecer você vai se ver comigo. Eu já escolhi marido pra você. Assim que sua irmã mais velha se casar, eu providencio o seu noivado.
Ela responde:
-Não adianta arranjar noivo para mim. Eu gosto do Lindolfo e não vou me casar com nenhum outro.
-Não me responda, atrevida. Você é minha filha, eu mando em você. Você vai se casar com o noivo que eu escolher para você. Veja a sua irmã, ela já está de casamento marcado com o noivo que eu escolhi.
Ela era rebelde e responde:
-Eu não sou minha irmã e não vou aceitar casamento arranjado pelo senhor. Ou eu me caso com quem eu quero ou não me caso. 
Ele furioso dá uma bofetada nela. 
-Você vai ficar de castigo. Um mês sem sair de casa. Não ouse me desafiar ou você vai se dar muito mal.
Ela, altiva, vai para o seu quarto. Durante o castigo sempre que pode manda bilhetes para Lindolfo e ele para ela.
O tempo vai passando e Letícia sempre que pode se encontra com Lindolfo.
Chega o dia do casamento da irmã. Na festa de casamento o pai de Letícia  apresenta  Ernesto para ela. Ela na hora entende que é este o noivo que o pai lhe arranjou. Ela trata Ernesto com frieza e desprezo.
Já em casa, depois da festa o pai lhe cobra:
-Por que tratou Ernesto com tanta frieza e desdém?
-Nem sei quem é Ernesto.
-Não se faça de boba e não seja atrevida. Ernesto é o rapaz que lhe apresentei na festa de casamento de sua irmã. Ele é o noivo que escolhi para você. Dentro de pouco tempo vamos oficializar o seu noivado.
-Eu já disse que não vou me casar com noivo escolhido pelo senhor.
-Você não tem escolha. Mulher foi feita para obedecer ao pai e depois ao esposo. Você vai se casar com ele e não se fala mais nisto.
-Eu prefiro morrer a casar com aquele homem nojento. 
A mãe de Letícia, sempre submissa, intervém e diz:
-Minha filha, você tem que obedecer seu pai. Não adianta ficar discutindo. Ele é seu pai e sabe o que é melhor para você.
-Continuo dizendo que não vou me casar com aquele homem nojento.
O pai diz:
-Pois bem. A partir de hoje até o dia de seu noivado você está proibida de sair de casa.
-Faça o que o senhor quiser. Mas não vai me obrigar a casar com ninguém.
-Vá pro seu quarto sua atrevida.
Letícia e Lindolfo trocam bilhetes e ele vai lá na janela dela para conversarem.
Certo dia o pai dela os surpreende e põe Lindolfo para fora de sua propriedade com socos e pontapés.
Ernesto começa a frequentar a casa de Letícia para namorar. Ela sempre o trata com frieza e não troca nenhuma palavra com ele. 
Chega finalmente o dia do noivado. Letícia entra na sala toda vestida de preto. Todos se surpreendem e se entreolham. Ela está triste e com jeito de quem chorou muito. Ela fica encolhida num canto e não conversa com ninguém. 
Finalmente o pedido de casamento é feito. Quando o pai  vai aceitar o pedido ela se antecipa e diz:
-Quero dizer que não aceito me casar com o cavalheiro aqui presente. Eu decidi que quero ir para um convento. Vou ser freira. É a minha vocação.
O padre da cidade que está presente e sempre a ouve em confissão e conversa com ela,    vai em seu socorro e diz  a todos que há muito tempo ela vem amadurecendo esta idéia e que acha que é uma vocação sincera.
Depois de muita confusão e de muitas desculpas pelo vexame que o noivo e os pais dele passaram, fica decidido que Letícia vai para um convento.
Ela se interna em um convento e não vê mais Lindolfo. Nem sequer tem notícias dele. Não sabe o que ele fez de sua vida. Mas no fundo continua alimentando aquele amor que sempre sentiu por ele.
O tempo passa e ela se dedica à sua vida de religiosa com fervor e fé para esquecer a sua amargura e infelicidade por não poder viver seu amor.
Doze anos se passam e ela se acostuma a sua vida de religiosa e cumpre fielmente seus votos quando um dia chega a notícia da morte súbita de seu pai.
Ela vai para a sua cidade para acompanhar o velório do pai. Chegando ela se aproxima do caixão. Olha seu pai ali inerte e bem baixinho diz: 
-Pai, eu lhe perdoo por haver destruído a minha vida. Eu lhe perdoo pela família que eu deixei de ter, lhe perdoo pelos filhos que eu não tive e pelo amor que não vivi.
Sai dali e chorando senta-se mais afastada.
Um homem chega,  para bem ali em frente a ela e diz:
-Letícia.
Imediatamente ela reconhece a voz. Levanta a cabeça e vê Lindolfo.
-Posso lhe cumprimentar?
Ela se levanta. Ele a abraça de leve e faz seus votos de pesar. Depois pega sua mão e nela, sutilmente, coloca um bilhete. Logo depois sai do recinto.
Ela esconde o bilhete em seu hábito.
Mais tarde, trêmula e ansiosa, ela lê o bilhete de Lindolfo:
“Letícia, eu continuo solteiro, lhe amando e lhe esperando. Se ainda quiser, eu quero me casar com você. Se ainda me ama, largue tudo e venha ser minha esposa. Lindolfo”
Letícia chora e apesar do luto se sente feliz pois  agora está  livre para viver seu amor. Sabe que sua mãe não vai tentar impedir. 
Letícia volta para o convento e cumpre o seu tempo de luto. Depois pede para revogar seus votos e sai do convento.
Volta e se encontra com Lindolfo. Finalmente estão livres para viver o amor que sentem um pelo outro. 
Casam-se, formam uma família, têm três filhos e vivem junto até a morte de Lindolfo, muitos anos depois.

 

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Atualizado em: Seg 8 Fev 2021

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