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SUICÍDIO

Igor, 67 anos, professor de Língua Portuguesa e Literatura, aposentado, morava na cidade de Palmas, capital do Estado de Tocantins. Não vivia bem com a mulher. Casado há mais de trinta anos, o relacionamento dos dois era marcado por atritos constantes. Pode-se dizer que, desde os primeiros dias de casamento as coisas já não se iniciavam bem.  Nas desavenças, era sempre a mesma ladainha. Afirmações de ambas as partes: “você nunca teve carinho para comigo”, “você não me leva a festas, não me chama para sair”, “você já me traiu” etc. etc. Acho que, quem estiver lendo esse texto, já conhece bem as falas de casais briguentos.

 

     O tempo foi passando, passando... Vida íntima já acabara há algum tempo para os dois.  Igor sempre fora uma pessoa muito sensível e, apesar de ter vontade de sair de casa e começar uma nova vida, nunca tivera coragem para isso. Tinha medo da solidão. Pensava que morar sozinho seria pior do que viver em casa com o relacionamento precário. Após discutir com a esposa, ficava triste e fazia em sua mente um retrospecto de sua vida, lembrando-se de todos os sofrimentos que já havia passado com a companheira. Ficava sorumbático, calado, não conversava com ninguém, alimentava-se mal. Quando chegava a hora de dormir, ficava feliz, uma vez que, pelo menos, durante a noite, enquanto agarrado no sono, os problemas ficavam, provisoriamente, apagados. Mas, ao levantar-se, já começava tudo de novo. Observavava a mulher e via o quanto ela já estava idosa. Olhava-se no espelho e ficava triste de ver os cabelos brancos, as rugas no rosto e a melancolia em seus olhos. Tanto na hora de levantar-se, pela manhã, como também ao deitar-se, nem dava “bom-dia” nem “boa-noite” para a esposa. Sua vida era uma verdadeira amargura.

     Muito bem. Pausadas as brigas, o personagem desta história acomodava-se, e os momentos, sem discórdia, faziam com que a vida voltasse à rotina. Conversava com a mulher, solucionava os problemas da casa que iam aparecendo e levava a vida, pensando que, um dia, partiria desse mundo e tudo aquilo se resolveria.

     Certa vez, Igor entrou numa angústia profunda. Depois de falar algumas verdades para a companheira, discutir muito com ela, veio-lhe uma vontade grande de cometer suicídio. Foi à internet, pesquisou muito sobre o tema “suicídio”. Queria encontrar uma solução para si, dentro daquela perspectiva. Pensava mesmo em tirar sua própria vida, já não aguentava mais tanto sofrimento, ingratidões e ofensas. Como era religioso, apesar da vontade de se matar, pensava muito no que poderia acontecer do outro lado, ou seja, como seria a vida eterna de uma pessoa que tivesse tirado sua própria existência.  Estaria contrariando a vontade de Deus, e aquilo, para ele, não seria um a atitude digna. Mas o desespero não ia embora... A vontade não passava. E o pior, não tinha com quem desabafar; não tinha coragem de comentar o assunto com ninguém. Sofria sozinho.  Muitas vezes, conversava com Deus, em silêncio, no seu quarto, com a cabeça no travesseiro.

 

     Fazendo uma consulta de rotina com seu médico, um cardiologista, resolveu abrir seu coração. Chegou a contar ao profissional, em lágrimas, que estava atravessando um período muito difícil na vida e sua vontade era de tirar a própria vida. O médico escutou toda a sua lamúria, deixou que falasse bastante, pois o desabafo faria bem a seu paciente, e, em seguida, o aconselhou a procurar uma ajuda psicológica. Igor concordou. Mas, no íntimo, não queria seguir a orientação de seu médico. Achava que nada resolveria.

     Ocorrido mais um espaço de tempo, após fazer muitas preces e pedir ajuda a Deus, sua vida, mais uma vez, voltou à normalidade. Afastara-se dele aquela vontade imbecil de ir embora para sempre e deixar sua família transtornada. Um suicídio era um ato muito cruel. Não era justo expor seus entes queridos àquele sofrimento.

 

     Igor não se decidiu. Continuava com sua rotina de sofrimento. Esperava que um dia fosse suficientemente forte e pudesse encontrar um caminho que lhe proporcionasse a felicidade. Algumas vezes, comentava com amigos ou pessoas de sua intimidade que, caso a esposa morresse primeiro do que ele, não derramaria uma lágrima sequer. 

 

     No entanto, o pior aconteceu. Foi numa tarde fria do mês de junho de 2017. A rádio local divulgou a morte do senhor Igor Soares de Menezes. Numa estrada vicinal, a uns 60 quilômetros da cidade de Palmas, foi encontrado seu carro, FIAT, modelo Punto, estacionado debaixo do pé de um frondoso angico vermelho. O vidro da janela estava aberto e seu rosto coberto de sangue. Sinais visíveis de disparo de uma arma de fogo, bem no ouvido direito. No banco do passageiro, foi encontrada uma folha de papel ofício, A-4, branca, contendo uma mensagem em letras garrafais. Fora escrita no computador e impressa naquele papel.

 

FUI UM COVARDE. NÃO CONSEGUI RESOLVER MEUS PROBLEMAS E SER FELIZ. PEÇO PERDÃO AOS MEUS FILHOS, NETOS E AMIGOS PREDILETOS. (IGOR SOARES DE MENEZES) -   PALMAS, 17 DE JUNHO DE 2017.

 

     A cidade inteira ficou triste com o acontecimento. Muitos ex-alunos compareceram consternados ao cemitério. No velório da cidade, o comentário era bastante incisivo. Todos diziam que o defunto sofria muito com a mulher. Falavam que ele era uma pessoa boa, mas não soubera escolher a pessoa certa para se casar. Por outro lado, os três filhos do casal, tristes e chorosos, não permaneciam do lado da viúva que tudo indicava ser a principal responsável pela atitude louca do marido, quando tirou sua vida de forma tão trágica.

 

 

Observação - A história aqui narrada não está ligada a uma realidade específica. Trata-se de um fato fictício.

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Atualizado em: Sex 22 Jan 2021

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