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Pequeno Conto de Natal Guerrilheiro

Acordou de repente. Um líquido quente pingava nos seus seios, gota a gota e um zumbido horrendo a aturdia, e sede, uma sede de cortar a garganta. Abriu os olhos e lá estavam eles. Os malditos. Queriam obrigá-la a fazer alguma coisa com o mais ridículo de todos, o de pau pequeno. Tentou se recompor para fazer cara de escárnio, tinha descoberto que assim, apanhava. Era melhor. Cara de dor os atiçava, viravam lobos, excitados. A música de batucada continuava no último volume. Não podia perder a consciência, começou a lembrar de coisas alegres, a Faculdade de Medicina, as reuniões na Carmela, as noites de sonhos comentados com Chael e Espinoza no apartamento sufocante. Lembrou do dia que tiveram que jantar feijão gelado porque Espinoza tinha cometido um erro tentando preparar uma bomba caseira e o apartamento quase foi pelos ares porque tinha explosivo por todo canto, fogão aquele dia nem pensar. Riu. Sentiu uma dor imensa no rosto, devia ser chute, mais líquido quente, agora no pescoço e agora ela sabia que era dela, era sangue, o sangue dela mesma, pensou em tomá-lo. Acordou. Estava na jaula. Olhou em volta, sozinha. Dormiu. Acordou, alguém a olhava pelas grades e dizia seu nome. Dodora! Dodora! Se esforçou pra levantar, viu dois barbudos, de uniforme preto, se arrastou pra chegar perto. Era tão bom ouvir seu nome, os malditos não sabiam seu nome, então eram amigos, deviam ser, lembrou que estava nua, não importava. Sempre estava nua, desde que foi presa, 21 de novembro, que engraçado, ela podia jurar que um deles, o branco, era o Che. Dormiu.
Acordou em um lugar branco, todo branco, uma cama macia, com lençóis tão cheirosos, macios, então tinha sido um pesadelo. Fechou os olhos e reparou que estava com soro. Era um hospital? Parecia um hotel, um quarto de luxo e ouvia o mar. Lá na parede, duas mulheres conversavam, uma morena, ela conhecia, era Iara, tão bonita, feliz. E a outra? Não conhecia, de coque baixo, linda, estrangeira, alta como ela. A estrangeira viu que tinha acordado e veio em sua direção.
-Oi, querrida, como estar se sentindo? Melhorr?
Seus olhos eram do azul mais puro e bondoso que já tinha visto e, estranhamente familiares, a via por trás de um monte de carne inchada, do seu próprio rosto. Tocou o rosto, que dor! Perguntou tentando se sentar:
-Eu morri? Aonde estou? Quem é você? Iara? Que lugar é esse?
Iara correu e pegou a amiga nos braços.
-Está tudo bem Dodora. Acabou. Te resgatamos. Está tudo bem, você está segura. Esta é a camarada Olga, que sempre quisemos conhecer, sim, a camarada Olga Prestes.
Caiu naquele abraço e começou a soluçar.
-Então eu morri! E o Che, então era o Che? O que é isso? – e chorava.
-Iara, não entreguei o Capitão, mataram o Chael! Mataram ele na minha frente! – Dodora disse, em desespero, enquanto puxava os cabelos, e parecia que sufocava.
Olga ficou na frente dela, com cara muito séria, e disse:
-Camarrada Dodorra! Se recomponha, porr favorr.  Chael também foi rresgatado pela Exército Popularr, estar aqui como você, Capitao também. Veja, veja nossa uniforrme.
Puxou o bolso do mesmo uniforme preto dos homens do sonho, percebeu que Iara também vestia um. Conforme foi apertando os olhos machucados para focalizar, surgiu a imagem inconfundível do querido símbolo. A aliança do campo e da cidade. A foice e o martelo eram a insígnia rubra bordada no bolso do uniforme.
Nisso a porta se abriu, umas dez pessoas com a mesma vestimenta entraram carregando flores de todas as cores e o primeiro era Chael, com um imenso buquê de rosas vermelhas, nos braços. Estava tão magro e sereno, ela olhou e disse:
- O regime funcionou! Agora ninguém mais vai te achar camarada! – enquanto se deixava envolver em um terno abraço.
- Querida! Que alegria, que alegria te ver viva e bem! – disse Chael, profundamente emocionado.
- Chael... – sussurrou ao seu ouvido – Nós morremos, né? Ali está a Olga e aquele é o Che, ele morreu em 1967. E ela, na década de 40.  Nós fomos presos em novembro de 1969. Então estamos aonde? Que lugar é esse?
-Minha camarada, não morremos, fomos salvos. Todos fomos. - disse Chael acalmando-a.  É uma longa história, mas os camaradas cientistas, aprenderam a interferir no espaço-tempo, no ano de 2024 e agora estão resgatando todos nós que tombamos, e formando um exército popular. Você ficou presa um mês, mais ou menos o tempo que estou aqui. Aqui é um lugar de cura e estudo. Você vai gostar. Mas, por enquanto, confie em mim. Hoje é Natal, e fizeram uma festa em tua homenagem. Você era muito ansiosamente aguardada, é uma guerreira de valor. Deixe a Camarada Iara te ajudar, se arrume, todos querem te abraçar.
E assim que a soltou ela viu, sim era ele, o Comandante e ao lado dele o Capitão Lamarca e atrás, com um sorriso matreiro estava o Marighella, mas que estranho, o Capitão e Marighella pareciam estar se dando muito bem, estranhamente bem demais. Não importa, aqueles olhos inconfundíveis, que ela tanto tinha visto em fotos e em sonhos, estavam ali olhando pra ela, e isso a estava deixando muito perturbada. Foi quando ele veio, o Comandante Che, em sua direção, tomou de sua mão, a colocou entre as suas, e disse:
- Hola mujer valiente! Bienvenida hija. Mira, mírame en los ojos. Estás a salvo, nadie más te tocará, te lo prometo. ¿Lo ves? Ahora estas segura. Soy su médico, mi nombre es Ernesto, voy a cuidar personalmente de tu salud. Dormiste cuatro días, estabas muy deshidratada y lesionada, tuvimos que hacer una pequeña cirugía en tu mano izquierda, que fue un éxito. Entonces, ahora, descansa, muchos líquidos, baños de mar, sol, y estará sana en dos semanas. Luego te volveré a ver y tal vez te libere para que asumas tus funciones revolucionarias. Tienes alguna duda?
Ela, que tinha parado de ouvir quando ele disse que era o médico dela, olhava pra ele e sacudia a cabeça concordando com tudo, meio hipnotizada, reparando em cada detalhe. Uma lágrima de pura emoção teimou em cair e apertou forte a mão dele, que a abraçou até que o último soluço parasse de sacudir aquele corpo tão sofrido.
-Ahora vamos, mujer, Che! Que hay uma fiesta para ti, mira tus amigos! Vamos cariño!- disse a ela, enquanto batia de leve nas suas costas.
Ele se levantou e ela se sentiu inteira, de novo, olhou para Zequinha e para o Capitão que estavam vindo cumprimentá-la e já não chorava mais. Estava viva, estava consciente, estava com seus camaradas e eles tinham um plano.  Percebeu, em meio à alegria geral, duas estranhas figuras perto da porta, um homem altíssimo, muito magro e bonito e outro mais baixo, mal vestido e com um cabelo todo engomado, os dois não tinham cantado a Internacional com os demais e ficavam ali, aguardando algo. Conversavam com o outro que a tinha salvo, um homem negro e alto, de uniforme e cabelos longos e trançados. Mas, logo esqueceu disso também, as camaradas tinham preparado para ela um leve vestido vermelho e depois de se aprontar, vieram buscá-la para a ceia, na praia. Lá, outra surpresa. Estavam todos, da ALN, da Var, da Intentona, e até os tenentes da Coluna Prestes, e depois do jantar haveria a explicação. Ardia por saber qual plano era aquele, tinha ouvido várias vezes aqui e ali as duas palavras mágicas e isso bastava a ela. Pátria Grande. Estava cheia de esperança de novo. Isso era um sonho? Ia acordar na jaula? Não, a mão quente de Iara a puxando para o mar dizia que não, era verdade, iam viver e iam lutar.

Em homenagem à guerrilheira Maria Auxiliadora Lara Barcellos e seus companheiros de luta e sonhos.
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Atualizado em: Sex 1 Jan 2021

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