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Um velho ateu

La vinha Edmilson se arrastando entre os outros. Estava visivelmente cansado, mas ninguém notava. Era uma daquelas pessoas sem rosto, como o trabalhador da construção de Chico Buarque, mas que custava caro a si mesmo. Tinha de pagar por cada necessidade e cada obrigação que devia cumprir. Havia a voz perene de políticos, sacerdotes e juízes, todos ditadores, os quais ele nomeara Bando de Autoridades, dizendo que ele tinha de fazer isso ou aquilo, ser assim ou assado para não cair nas garras da lei dos homens ou, pior, nas garras da lei divina. Devia ganhar sua vida honestamente mesmo não tendo como pagar tudo que lhe era exigido pelo direito de existir. Os mesmos ainda lhe diziam que esse direito era concedido por Deus, portanto, um direito sagrado e caro, o que fazia de Edmilson um eterno devedor. Isso era o Bando de Autoridades que dizia. As autoridades que nasceram com o direito de ser nobres e não escravos, como ele. Às vezes, Edmilson chegava a pensar que seria melhor ainda viver no tempo da escravidão, pelo menos poderia engrossar o caldo do feijão com os restos de porco rejeitados pelos senhores da casa grande e não teria de pagar pela moradia. E ele que hoje também trabalhava como um escravo, jamais poderia ter um daqueles apartamentos que ajudava a construir, hora em que mais se parecia com o “cidadão” de Zé Ramalho. Esse que tem um rosto, que já nasce com cara de fome, fadado a uma vida “severina”, mas que é chamado por um assobio, um sibilo, chamado por um nome que silva e ecoa nos subúrbios das capitais. Esse que, apesar de tudo, tinha direito a uma alegria fugaz gentilmente concedida pelo Bando de Autoridades. E tinha do que se orgulhar porque as autoridades reconheciam a importância dele para o progresso da Nação. Era com sua força de trabalho que ajudava a construir o futuro do país. E Edmilson deveria também ser grato por esse reconhecimento. Afinal, as autoridades eram pessoas muito importantes; pessoas de valor na sociedade, tementes a Deus e mereciam respeito.

Contudo, o elogio do Bando de Autoridades não o ajudava em nada. Não lhe favorecia construir um futuro melhor para seus filhos. Às vezes, quando Edmilson se mostrava um pouco desanimado, sempre aparecia alguém para dizer que apesar de tudo, ele não podia reclamar da vida, porque tinha gente que vivia muito pior que ele. Edmilson tinha saúde, graças a Deus, e isso era o que importava.  Era, na verdade, tudo, pois certamente ele existia apenas para ter saúde. Para Edmilson, aquelas palavras eram tão importantes para seu futuro quanto os elogios do Bando de Autoridades. E a ouvir aquela mesmice entediante, preferia o ruído intermitente da máquina de concreto. Resignava-se. Devia fingir-se conformado com a parte que lhe cabia neste grande latifúndio que é o mundo; devia estampar sempre um ar de alegria e dizer que tudo tem melhorado e não pensar no aluguel que não pode atrasar. Refugiava-se então nas palavras do poeta cantando em pensamento os versos de sua canção preferida.

Guedes, um companheiro de trabalho, interrompeu seu pensamento quando chegou eufórico ao trabalho e pediu a atenção de todos.

– O que aconteceu, homem? — perguntou um dos colegas a Guedes.

— Vocês nem imaginam! — disse Guedes cheio de orgulho. — Mas, ontem, finalmente, Deus veio me falar.

O riso foi geral.

— O que você bebeu? — perguntou outro.

— É sério! — explicou Guedes. — Deus me deu a missão de transmitir uma mensagem. Mandou-me dizer que ele se arrependeu de ter privilegiado um povo escolhido. Disse que todos os povos são iguais e não há senhores nem escravos, mas todos devem ser solidários uns com os outros independentemente de sua nacionalidade ou religião. Dito isso, Deus desapareceu — conclui Guedes com naturalidade.

Logo um dos homens, franzindo o cenho, desconfiado, perguntou a Guedes:

— Ei! Você acha que a gente é idiota pra acreditar nisso?

— Haha — riu sarcasticamente outro. — Temos nosso próprio profeta agora!

— Guedes, o peão, virou o Profeta Campeão! — emendou outro.

Nelson, que a princípio não dera importância ao que disse Guedes, fez um comentário:

— Essa foi a maior besteira que eu já ouvi! Deus não faz nada errado, então por que iria se arrepender?

Guedes respondeu com entusiasmo:

— Deus fez milagres durante quarenta anos apenas para conservar o calçado de Moisés no deserto até que ele conduzisse seu povo escolhido à terra prometida e não adiantou nada porque seu povo não chegou à terra prometida. Depois, Deus mandou seu filho a Terra para tentar salvar seu povo, mas ele fracassou e nunca mais tentou. Mais tarde, usando o pseudônimo de Alá, Deus disse a Maomé que os muçulmanos eram seu povo escolhido, portanto todo o povo de Moisés e também os idólatras do seu filho deveriam ser mortos. Pode dizer que Deus não errou?

Um ajudante o interrompeu perguntando num tom mais sério do que os outros, mas não menos irônico:

— Por que Deus falaria com você e não com o Papa?

— É — insistiu Nelson. — Por quê?

Guedes não se deixou intimidar.

— Ora, pelo mesmo motivo que ele não escolheu o Dalai Lama.

Com um ar pensativo, Nelson refletiu:

— Mas as religiões são diferentes. Quem vai dizer qual está certa?

— O que está acontecendo aqui? — interrompeu o mestre de obras que acabara de chegar.

— Deus falou com Guedes ontem — precipitou-se Nelson.

— E daí? — questionou o mestre de obras. — Deus também falou comigo ontem.

Nelson quebrou o silêncio inquisitório que se fez, perguntando:

— Deus também apareceu para você?

— Claro que não!

— E como ele lhe falou?

— A palavra de Deus está na Bíblia. É eterna e imutável — respondeu. — Basta ler para saber o que Deus lhe diz.

— Então? — perguntou Nelson com curiosidade. — O que Deus lhe disse ontem?

Os rostos dos homens tinham uma expressão de grande expectativa com a resposta do mestre de obras:

— Ele disse que os servos devem se sujeitar a vossos senhores com todo o respeito, não apenas aos bons e sensatos, mas também aos perversos. Vocês são os servos e eu o senhor. Todos ao trabalho!

— Viu! — exclamou Guedes. — É Deus mesmo que mandou uns escravizarem os outros.

— Exatamente! — concordou o mestre de obras. — E qual o problema?

— O problema é que ele me disse que está arrependido de ter dito isso para os escravos enquanto ensinava o povo escolhido a roubar.

— Meu Deus, olha pra isso! — exclamou Nelson atônito. — Esse Guedes está maluco! Deus ensina que roubar é pecado.

— Talvez para os escravos — redarguiu Guedes.

— De onde você tirou que Deus ensina a roubar? — perguntou o mestre de obras a Guedes.

Guedes abriu a pequena Bíblia que sempre trazia consigo em Êxodo, capítulo três, versículo vinte e um, e disse:

— Diretamente da palavra de Deus. — demonstrou. — Você não disse que a palavra dele é eterna e imutável. Pois bem! Ouça: “E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios, porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspede, joias de prata, e joias de ouro, e vestes, as quais vós poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; e despojareis os egípcios”. E o que quer dizer despojar? — concluiu perguntando.

— O quê? — perguntou Nelson olhando inseguro para o mestre de obras que se fingia indiferente aos argumentos da discussão.

— Significa tirar de uma pessoa alguma coisa que lhe pertence por meios ilícitos, isto é, roubar. É o que Deus manda seu povo escolhido fazer.

Enquanto todos estavam paralisados pela perplexidade com aquela constatação, Edmilson ficou reflexivo. Aquela questão em torno do que Deus disse ou não disse, fez ou não fez, era tão inútil para melhorar sua vida quanto as palavras dos abnegados e os elogios do Bando de Autoridades. Para ele, nada do que Deus tivesse dito ou viesse a dizer explicaria porque dava tudo a alguns e nada a outros. Voltou a cantarolar sua canção preferida na mente.

— Você tirou o trecho do contexto. — explicou o mestre de obras. — Os hebreus estavam sendo escravizados e os egípcios precisavam de uma lição. Tiveram aquilo que mereciam.

O debate havia se transformado numa disputa entre Guedes, para provar sua verdade, e os outros, para refutá-la, até a chegada do engenheiro. Surpreso com aquela discussão acalorada e inusitada perguntou o que acontecia por ali.

— O Guedes disse que Deus lhe falou em pessoa — esclareceu Nelson. — E Deus mandou uma mensagem para nós.

— Que mensagem?

— Disse que somos todos iguais. Não existem senhores nem escravos.

O engenheiro deu uma risada e perguntou:

— E então?

— Deus se arrependeu de ter escolhido um povo para proteger — respondeu Guedes. — Então devemos ser solidários para vivermos em paz uns com os outros.

O engenheiro ficou pensativo por um instante de depois falou:

— Bom! Deus podia muito bem esclarecer isso para a humanidade em edição extraordinária em todas as rádios e televisões do mundo. Assim falaria a todos de uma só vez. O que vocês acham?

Cada um deu sua opinião e eles iniciaram um novo debate acerca da vontade e onipotência de Deus. Em dado momento, Guedes olhou para Edmilson que se mantinha calado e perguntou:

—Ei! Edmilson. Você não diz nada?

— Parece que Deus não conseguiu fazer a coisa certa.

Alguns murmuraram escandalizados com aquela observação totalmente fora do contexto.

— Ah é! — exclamou Nelson num tom desafiador. — E, por acaso, você faria melhor?

O velho ateu poeta de Eduardo Gudin lhe veio à mente lembrando-lhe que se fosse Deus, daria aos que não tem nada. Edmilson refletiu sobre sua canção preferida e ousou ir além.

— Se eu fosse Deus, daria tudo a todo mundo.

 
FIM
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Atualizado em: Qui 12 Nov 2020

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