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Submissão

Um grito, um tapa na cara, submissão. Um beijo forçado no escuro da noite, repreensão. Sua mão agarrando meu braço, deixando as marcas das unhas sujas na carne. Silêncio. Olho lá para baixo do alto do sexto andar a rua movimentada. São carros que vem e vão e gente apressada indo e vindo. A rua fede. O cheiro da minha vida é ruim, tem o sabor amargo da tristeza. Sou atirada ao chão, bato com as costas na quina da parede, a dor é insuportável. Não grito. Eu aguento essa agonia calada, de boca fechada.
Meu marido reclama da comida, diz que nada está certo e grita que eu sou uma imprestável, não sirvo pra nada, e nada do que eu faço agrada. Relações. A gente se conheceu a um bom tempo, na pracinha perto da onde eu morava de onde ele morava também, mas há pouco tempo, há época. Foi amor à primeira vista, paixão que não tem como explicar, só vivendo para crer.
A gente namorava escondido. Ele me buscava na saída do colégio, e sempre me trazia alguma coisa, na maioria das vezes era uma flor já murcha que ele arrancava de algum quintal vizinho ou alguma fruta roubada do pomar de alguém. E eu me derretia por causa disso. Cada gesto errado me conquistava, e eu não conseguia perceber a maldade dentro dele. E numa noite, na mesma pracinha onde a gente se viu pela primeira vez ele me pediu em namoro de verdade, pois até então não passava de uma aventura de uma menina pré-adolescente.
Em principio meu pai não aceitou. Minha mãe uma pobre coitada que obedecia aos caprichos dele nada falou. Calou a voz e ouviu sentada a ameaça feita por ele ao até então meu namorado. Ele não se importou com a ameaça. Na hora eu nada entendi, mas com os passar dos anos e com a aliança nos dedos compreendi que meu pai e meu marido eram iguais na personalidade, embora não tivessem o mesmo laço sanguíneo, e eu terminaria por puxar o lado subserviente de mamãe.
E casamos. Não tivemos festa, tão pouco cerimônia na igreja. Foi tudo bem simples, eu com dezessete e ele com dezoito; eu de vestido simples, emprestado de uma prima e ele enfiado num terno creme com uma gravata manchada de uma cor na qual não me recordo tão bem. Recebemos os cumprimentos de alguns amigos e meia dúzia de parentes, gente lá da cidade mesmo.
No dia seguinte ele e eu entramos em um ônibus e partimos rumo a São Paulo. A viagem seria longa e cansativa. Eu dormi um pouco e ele também. A gente se revezava vigiando as coisas, pois assim ele como eu tinha medo de que fossemos roubados. Quando chegamos foi aquela alegria. Nossa primeira refeição como um casal recém-casado foi um pastel pra cada um e um copo grande de caldo de cana que dividimos. Passeamos pela cidade e depois fomos para a casa de um irmão dele. Ficamos por lá por alguns meses até a gente conseguir alugar um cantinho pra gente. Era um quarto e cozinha, bem pequenos; com fogão e uma geladeira carcomida de ferrugem nas portas e duas cadeiras velhas. Um rádio a pilha ficava na janela, a música no volume mínimo para não incomodar a vizinhança.
Estava tudo indo tão bem. Ele trabalhando e eu saindo pra fazer limpeza na casa das pessoas. Ele saindo cedo e eu também. Tudo estava indo tão bem, até eu me atrasar uma única vez. Foi à gota d’agua. Eu tentei explicar, mas não adiantou. Com a mão fechada ele me acertou um soco no rosto, perdi o equilíbrio e cai com tudo no chão. Ele apenas me olhava do alto da ignorância dele, o rosto cheio de cólera, os olhos cheios de fúria.
- Levanta daí. – O ouvi dizer. A voz firme e forte igual a um trovão; tremi de medo. Ele nunca havia encostado a mão em mim. Ao levantar percebi o odor podre da cachaça. Fiquei tonta. O mundo girou de tal forma que mal pude manter-me em pé. Ajoelhada no piso frio da cozinha eu supliquei, entretanto ele não demonstrou interesse, apenas agarrou meus cabelos e me arrastou da cozinha para o quarto. E foi ali diante da imagem de Nossa Senhora na parede que eu fui forçada a fazer o que eu não sentia desejo em fazer.
Senti-me suja, frágil. Incapaz de demonstrar reação. E ele lá no alto da ignorância dele me olhava enquanto vestia as calças, e eu esparramada na cama buscava explicações, mas sabia no meu intimo que nada daquilo tinha justificativa. Bater em uma mulher é um ato covarde, força-la a fazer sexo sem consentimento, também. Com o tempo percebi que as atitudes erradas dele já vinham desde o nosso namoro; as flores arrancadas, as frutas roubadas e o modo como ele tratava os animais, com chutes e pontapés.
Certa vez ele atirou uma pedra enorme em cima de um cachorro, inofensivo, que nos seguia na volta para casa. Pedi para que não o fizesse, mas foi em vão. Graças ao Nosso Senhor Jesus Cristo o pobre cãozinho nada sofreu, em compensação, eu, pelo simples fato de ter querido proteger o bichinho o vi levantar a mão para mim pela primeira vez. Não fui agredida, mas em vez de relatar o ocorrido aos meus pais, eu simplesmente omiti deles.
O meu marido é homem trabalhador, e disso eu não posso reclamar, o problema é quando ele bebe um pouco a mais, para mim ele não deveria beber.
Que dia triste foi aquele. Chovia quando ele chegou. De banho tomado e jantar no fogão eu o vi entrar em casa aos berros; ele reclamava dos chefes e que havia sido vítima de uma injustiça. Ele descontou toda a ira em cima de mim. Por pouco o prato não me acertou em cheio. A comida feita com tanto amor e carinho foi ao chão.
Sentei-me. Desolada assisti ao meu marido ensandecido destruir tudo dentro de casa. O aparelho de jantar que tanto trabalho deu para comprar foi arremessado, peça por peça, contra a parede da cozinha; a televisão foi arrebentada a marretadas, enfim, tudo o que foi conquistado com muita luta e persistência. Infelizmente sobrou para mim. Com dois socos no rosto fui a nocaute. Despertei com a casa de ponta cabeça e meu marido de revolver em punho apontando pra mim.
Gelei. Tremi na base e chorei. O desespero bateu. Sem forças e com a voz fraca devido ao medo e a dor que sentia na hora consegui chamar a polícia. Quando a viatura invadiu a nossa casa e o jogou no chão senti um alivio muito grande. Fiquei entristecida ao vê-lo ser algemado. Daí eu me lembrei do rapaz que me enfeitiçou com seu sorriso, do menino por quem eu me apaixonei e dividi parte da minha vida. O meu conto de fadas de menina acabava da pior maneira possível. O meu príncipe nada encantado era jogado na parte de trás de uma viatura policial. Na rua uma dezena de curiosos assistia de camarote a minha desgraça.
Quando o carro da polícia virou a esquina eu o vi pela ultima vez na vida. Agora, sentada em uma cadeira de balanço na porta da minha casa em minha terra natal eu fecho os olhos e adormeço. Depois daquele dia não tive mais pesadelos, mas sim, somente sonhos bons.
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Atualizado em: Qua 28 Out 2020

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