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O Outro

As ruas desertas davam passagem livre à epidemia que assolava o país. Folhas secas guiadas pelo vento surfavam no asfalto empoeirado. Era um resquício da vida outrora vivida, ora suspensa. A ordem era o confinamento. Um único toque de recolher que deveria soar indefinidamente. Não tardou a ser decretada a reclusão compulsória como precaução para impedir o contágio. Ainda que não houvesse informações sobre o agente causador da doença e não houvesse meios de fazer testes de comprovação, os noticiários divulgavam um número elevado de mortes que se alastrava pelas cidades mais rápido do que o vírus. Ninguém mais morria de outras doenças, nem de acidentes, nem de fome.
As informações chegavam através dos veículos autorizados pelo Governo. Todos os dias, incansavelmente, repórteres entrevistavam profissionais da saúde, cientistas políticos, especialistas da medicina alternativa e políticos que davam seu parecer sobre os diversos aspectos da epidemia. Os que se intitulavam defensores dos direitos humanos denunciavam que as minorias eram mais atingidas pela epidemia, o que também não se comprovava. A única coisa que se podia comprovar sem precisar de nenhum dado oficial de nenhuma Organização Mundial, era a destruição do Estado nacional. Contudo, esse era o único assunto que não podia ser comentado.
Os bares onde as pessoas um dia se haviam reunido para beber e celebrar a alegria de estar entre amigos fecharam suas portas e apagaram suas luzes deixando a cidade em completa escuridão. Tarde da noite nas ruas, somente os policiais circulavam vigilantes para encontrar a alma infeliz que ousasse sair de sua casa e colocasse o resto da população em risco.
No interior de um mercadinho cujas vidraças tinham sido quebradas, um homem, acomodado atrás de um balcão frigorífico, tremia encolhido de frio e pensava em procurar talvez um pedaço de presunto que tivesse sobrado depois do saque. Tinha a barba de muitos dias sem fazer, cabelos desalinhados. As roupas finas, embora bastante sujas, indicavam que era um cidadão de bem.  
O barulho de alguma coisa que caiu no chão fez sobressaltar o homem atrás do balcão. Alguém entrara no mercadinho. Ficou paralisado observando um possível sinal de luz da lanterna de um policial. Nada. Deu um suspiro de alívio. Não era um policial. O vulto na sua frente não usava uniforme. Tateava na escuridão a prateleira em busca de alimento ou uma de bebida qualquer. De repente uma luz tênue brilhou iluminando a prateleira. A silhueta enegrecida do homem com um isqueiro na mão se desenhou na penumbra.
— Apague isso agora!— murmurou o homem atrás do balcão. — Quem é você?
O outro deu um salto para trás, desequilibrou-se e caiu sobre o montante de produtos e utensílios espalhados pelo chão. Um caco de vidro fez-lhe um corte no cotovelo que começou a sangrar.
— Chamam-me Carneiro.
— Eu sou Ernesto — declarou o homem atrás do balcão com a resignação de um condenado à morte. Pensou em acrescentar mais alguma coisa. A memória carregada de imagens nubladas e disformes esforçou-se para compor uma estrutura linear do passado perdido no tempo. Bom tempo! Mas era melhor não dizer nada naquele momento. Poderia parecer arrogante aos olhos do outro.  
Carneiro se arrastou e apanhou um pano jogado entre os escombros e enrolou o braço fazendo o sangue parar de jorrar. Movendo-se cuidadosamente, acomodou-se atrás do balcão ao lado de Ernesto.
— É uma guerra — disse tentando abrir uma garrafa de vodka, das poucas que restavam inteiras. Sua voz era desdenhosa com uma pitada de rancor, mas era um tanto calmante.
Ernesto deu uma risada nervosa. Aquele homem delirava. Decerto imaginara uma guerra para se isentar da responsabilidade pelo seu fracasso pessoal. Ele já tinha ouvido falar que certas pessoas criavam situações imaginárias para fugir de uma realidade que implacavelmente lhe reinterava da crueldade da vida. Sacudiu a cabeça.
— Estamos no meio de uma epidemia.
— É guerra — reafirmou o outro. — Você sabe disso. Eles acabaram com você, não foi? Os canalhas esfregaram na sua cara que estavam provocando a guerra de todos contra todos e você não acreditou, não é?
Um aperto no peito levou Ernesto a dobrar o torso como se tivesse sido atingido por uma comoção muito intensa. Observando a garrafa de vodka que pegou, Ernesto pensava furtivamente no processo de destilação da bebida. Mas logo se concentrou no formato da garrafa, nos detalhes do rótulo e colocou a tampa criada especialmente para aquela boca com harmoniosa precisão. De repente se viu apreciando a coisa do ponto de vista artístico. Ali havia um pouco de arte, de poesia e de boa vontade do espírito, além da habilidade do raciocínio para construir. Abriu de novo a garrafa e cheirou o líquido limpo, protegido da sujeira ao redor. Não sentiu nenhum cheiro, assim mesmo passou a língua nos lábios. Mas ele não beberia. Nem um gole! Ernesto raramente bebia. Somente para acompanhar os amigos nos coquetéis onde as pessoas bebiam com classe e não faria sentido beber ali na companhia de um desconhecido, alguém que parecia ter perdido o respeito por si próprio.  Na verdade, o outro parecia ter perdido as ilusões e quando isso acontece, a pessoa se abandona a um catastrófico amargor como o último sentimento que lhe resta. De repente, Ernesto interrompeu seu devaneio.
— Você está vendo coisas.
— Você viu coisas!  — replicou o outro. — Você viu o juiz. E sabia que aquele julgamento era uma farsa, nega? Você viu a decisão do juiz, não viu?  Você sabia que aquilo estava fora da lei, não sabia? Você viu isso. Você viu pessoas serem condenadas sem provas de crime. Você viu o juiz, você já o conhecia. Você se lembra do ministro acompanhar o julgamento com um cinismo nobre de magistrado? Lembra, não? Tem de se lembrar. Você viu. Lembra aquela mulher maluca que parecia possuída pelo demônio sair aplaudida do tribunal? Você viu quando ela humilhou toda aquela gente lá.  Você aplaudiu. Você não ‘tava nem aí para aquele povo! Você não é povo, não é isso, Ernesto? Você não faz parte da grande massa anônima da sociedade, não é mesmo? — ele deu uma gargalhada. — Olha pra você agora! Você achou que ele não ia fazer nada?
— Eu sou o mesmo.
O outro riu novamente. Agora com muito sarcasmo no olhar.
— Você nunca parou para pensar que na Alemanha Nazista nem todos eram a favor da política genocida do Estado? Apenas os ricos estavam de acordo.
— Eu não tenho dinheiro — explicou Ernesto depois de vomitar na camisa de puro algodão.
— Eles lhe roubaram? Roubaram! Eu sei. Você lutou por eles e agora é um soldado desarmado. Então agora você não pode falar. Só tem direito de falar quem tem dinheiro. Você sabe disso. A única coisa que você ainda pode falar é do povo. E só do seu povo.  É tudo bandido, não é? Os marginais, os trombadinhas. Desses, você está autorizado a falar. Pode até expor a baixeza, a imoralidade, a estreiteza de espírito desse povo marginal, sem educação, de baixa cultura, como sugere Rubem Fonseca nas suas personagens. Como se fosse da natureza do povo ser miserável.
 — O povo só pensa em carnaval e futebol.
  O rosto do outro mostrou um sorriso irônico.
— Era o que ele tinha. E cadê o carnaval? Há muito o carnaval não era mais do povo. E você sabia disso. Você sabia que seus amiguinhos colocaram sob o domínio deles o carnaval que era do povo. Cadê o futebol? Ainda está sob o domínio e controle dos seus amiguinhos, não é? Você jogou com as paixões do povo sem nunca experimentá-las. Você chegou a questionar isso secretamente, não foi?
— Eu era bom no que fazia — sua própria palavra pareceu tê-lo imobilizado. Sentiu-se preso a um passado vazio, como se nunca tivesse existido.
— E a única coisa que você via no espelho era seu brilhantismo. E isso bastava, não é mesmo? Você foi brilhantemente medíocre quando a mediocridade estava na moda, não foi?
— Eu só estava fazendo o meu trabalho — justificou Ernesto já sem forças para esmurrar o outro.
— Quando o dono disse que sua empresa era uma usina de poder, você sabia que ele usava seus poderes para cometer crimes impunemente. Mas você se calou. Você se calou porque não teve coragem de falar. Você conhecia a verdade. Mas você se calou. De novo e de novo — ele continuou depois de um silêncio. — Você se calou porque não acreditava que eles iam fazer nada contra você. Você sabia que o monopólio da comunicação era um escândalo. Não sabia? Claro que sabia. Você sabia e fazia semblante de nada ver. Era normal que assim fosse.
Ernesto acrescentou como se fosse um velho hábito esquivar-se.
— Era normal para todo mundo.
— E por que não seria para você? Você esqueceu rapidamente quem era o bandido que estava no poder quando ele falava alguma coisa com a qual você concordava. Você dividiu seu mundo entre pessoas do bem e do mal. Lembra-se quando dizia que o povo só sabia reclamar e falar em crise quando devia trabalhar calado, conformado com a insatisfação?
Agora o outro estava romantizando os vagabundos anarquistas revolucionários. Ernesto devolveu-lhe a garrafa de vodka.
— É melhor que beba para não pensar em bobagem.
O outro virou a garrafa e bebeu mais dois grandes goles preparando-se para continuar sua inquisição.
— O que você ganhou com a privatização das empresas estatais? O que você ganhou com a entrega do patrimônio do povo ao estrangeiro? O que você ganhou com o aumento das exportações; com o aumento do lucro do latifundiário à custa do alto custo de vida? Por que você comemorou a alta na bolsa de valores? Na verdade você nunca se importou com essas questões, porque você não sentia nada entrar no seu...
Naquele momento um ruído de passos soou na entrada e reverberou no fundo do prédio em ruínas. Ernesto teve novo sobressalto. Estava muito fraco para reagir com o vigor que a situação exigia. Deixou-se cair escorregando as costas que apoiava no balcão até deitar-se por cima do outro. Avistou um vulto na sua frente. Desvelou a imagem de um homem fardado. Era um policial. Teve certeza quando este lhe ordenou direcionado a lanterna para seus olhos:
— Levante-se!
— O outro — perguntou Ernesto com um fio de voz. — Onde está?
— Tem mais alguém escondido aqui? — perguntou o policial se agachando.
— O outro — balbuciou Ernesto quase desfalecendo.
Um segundo policial chegou ao local e arregalou os olhos quando avistou Ernesto.
— Está todo ensanguentado e fedendo. Nojento!
— Tem um corte profundo no braço e deve ter tomado quase meia garrafa dessa vodka — constatou o policial agachado. —. Está delirando.  
O policial de pé tirou o aparelho de identificação biométrica e focou a pupila do homem inerte.
— Ernesto Carneiro. Quarenta e dois anos. Jornalista. Divorciado, dois filhos. Será que é aquele repórter da televisão?
O policial parceiro se ergueu e concluiu:
— Acho que não. Deve ser só mais um vagabundo que escapou do confinamento.
                                                                                                                    

                                                                                                                    FIM
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Atualizado em: Sex 4 Set 2020

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