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Aflição

No céu carrancudo de agosto, um mês tão sem gosto, um sol de rachar o coco faz a testa de José Fritar. Entre pingos de suor e batidas da enxada no chão duro de terra ele ouve um grito. O instrumento de trabalho é jogado de lado, o suor é enxugado com a manga da camisa sem dois botões, de tecido velho e sujo, de uso diário, pois era a única que ele tinha.
Nas pernas bambas ele andou, o sol o perseguia. Do lado de fora da humilde casa de paredes de barro, o filho, de lágrimas nos olhos e voz que não queria sair, mas queria falar. O irmão mais novo estava morto. A culpa era da fome, da falta de sorte, da falta de arroz, de carne, de tudo. Dentro daquela casa não faltava amor, mas com amor não se enche barriga, não se alimenta, não se sustenta.
E José caiu. De joelhos cruzou as mãos por sobre o peito, numa prece desesperada, aflita, numa agonia só. Seu filhinho tinha morrido sim, e a culpa era dele, homem sem futuro.
O destino fora lhe cruel. Primeiro levou a esposa, agora levara o filho, o próximo poderia ser ele, ele não se importava mais.
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Atualizado em: Seg 17 Ago 2020

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