person_outline



search

A Máquina da Ordem

Naquela praça deserta os jardins eram perfeitos, os bancos perfeitos, as árvores perfeitas. Um lugar perfeito. No centro, a Máquina transmitia boletins informativos de utilidade pública através de uma de suas telas espalhadas pela cidade. Era um dos serviços sociais prestados pelo Estado.
Um homem esquálido, cambaleante, sentou-se num dos bancos, esgotado pelo calor intenso. Tinha andado já um bocado. Precisava aliviar a dor dos pés inchados apertados dentro do sapato. O cheiro do pão quente saído da padaria em frente o torturava, mas não mais que a sede. Do dinheiro que ganhou com o trabalho temporário que arranjara naquele mês, não tinha sobrado nada.
Ouvia distraidamente os boletins informativos da programação do dia quando um guarda municipal, bem uniformizado e com ar de autoridade, abordou-o:
— O que faz aqui?
― Estou só descansando um pouco ― explicou pensando em tirar o calçado.
― De onde o senhor vem?
― Lá da fábrica de papel.
― Aonde o senhor vai?
― Ao posto da Assistência Social. Disseram-me que fica para aquele lado de lá — disse apontando uma direção.
― Então vá para aquele lado de lá. Não pode ficar aqui vagabundeando.
O homem esquálido ergueu-se lentamente e atravessou a praça chegando a um ponto de ônibus. O banco ali era coberto e o protegeria dos malditos raios de sol que pretendiam cozinhá-lo lentamente. Continuou ouvindo os boletins transmitidos pela tela da Máquina atrás dele.
Naquele momento, uma menina chegou ao local trazida pela mão de uma jovem mulher. Pela rosadinha, cabelos louros, parecia um anjinho. Devia ter uns seis anos. A filha dele que morrera junto com a mãe no parto teria a idade dela. Ele nunca soube o que causou a morte de ambas. Nenhum médico apareceu para lhe explicar o que tinha acontecido. A limpeza do hospital era impecável, os funcionários estavam alegres, tudo estava em ordem e, apesar da demora, não podia negar que sua mulher fora bem atendida.
Sua filha não se pareceria com a menina loura. Era mais provável que fosse pretinha, como a mãe. Ah minha pretinha...
Divagava olhando a menininha enquanto a jovem mulher, em pé na beira da calçada, olhava-o com desconfiança. O guarda municipal que vinha da guarita da esquina se aproximou dela e trocou algumas palavras. Em seguida, empertigou-se, franziu o cenho e se voltou para o homem esquálido.
― O senhor de novo?! Está assediando os transeuntes. Vamos! Circulando.
Antes de partir, o homem esquálido acenou para a menininha que se agarrou à mulher e, por de trás dela, tombou a cabecinha espiando-o assustada.
Caminhou por mais quarenta e cinco minutos e chegou ao posto. Na entrada do prédio, um recepcionista uniformizado portando uma arma lhe pediu identificação. Em seguida, foi informado que deveria pegar uma senha de atendimento antes de passar pela porta com um dispositivo de detecção de metais.
— Pode me dar uma garrafinha de água daquelas? — perguntou apontando para a geladeira na recepção.
— Tem de colocar uma moeda ali — explicou o recepcionista.
No salão de espera, havia poltronas estofadas, cinco pessoas atrás de computadores num balcão e um vigilante de pé num canto.
Longos minutos se passaram até que o visor apitou mostrando o número de sua senha. No balcão, uma moça sorridente lhe fez uma série de perguntas para preencher uma ficha e pediu que ele aguardasse um pouquinho para falar com o assistente social.
O homem esquálido voltou a se sentar e decidiu tirar os sapatos para aliviar a pressão insuportável que exerciam sobre os pés inchados.
— O senhor não pode tirar os sapatos aqui — disse o vigilante se aproximando. Olhou com reprovação para o pé do homem esquálido do qual começou a escorrer um líquido cinzento e fétido pingando no chão. Então mandou que ele saísse dali imediatamente.
— A Máquina informou que eu precisava do encaminhamento do assistente social para ser atendido no hospital.
— O senhor está fazendo sujeira. Dê um jeito de calçar e sair daqui.
Uma senhora que ouvia a conversa dos dois, tocou levemente o ombro do homem esquálido e disse que ele poderia passar na frente dela.
A atitude da mulher encheu-lhe de gratidão e ele a agradeceu diversas vezes enquanto trocava o bilhete com ela. Em seguida, dobrou a parte de trás dos sapatos, calçou-os como se fossem chinelos e seguiu para a sala indicada na senha da mulher.
— O senhor não é Jussara de Souza — disse o jovem sorridente que conferia os dados pelo número da senha no computador.
— Estou com dor e uma senhora me deixou passar na frente dela.
— Bem, mas não posso atendê-lo com o nome dela. Devo atender pela ordem das fichas. Saia e aguarde sua vez. — ordenou o jovem mantendo o sorriso.
— Tenho pressa, moço — arriscou dizer o óbvio, mas incerto se o rapaz compreenderia, explicou: — Está saindo pus do meu pé.
O jovem fez uma expressão de nojo e perguntou:
— O senhor não acompanha as informações da Máquina? Deveria saber que tudo aqui funciona perfeitamente dentro da ordem. E todos devem obedecer às regras. Insisto que saia e aguarde sua vez.
O homem esquálido sentiu suas forças se agigantarem com o sentimento de indignação. Num impulso insólito, certamente movido pela dor lancinante, bateu com violência no monitor do computador que se espatifou no chão.
O assistente social apertou um botão vermelho na parede ao lado dele. Imediatamente o vigilante apareceu e rendeu o homem esquálido imobilizando seus braços, algemando-os para trás. Em seguida, tomaram a viatura da polícia que fazia plantão no local e foram para a delegacia.
Não teve de esperar muito para ser atendido.
— O que o senhor fazia no posto? — perguntou o delegado.
— Fui buscar um encaminhamento para receber assistência médica gratuita.
— O relatório diz que o senhor infringiu regras da instituição, desacatou o segurança, agrediu um funcionário e depredou patrimônio público. Correto?
— Eu só... — tentou dizer o homem esquálido interrompido pela fraqueza e a dor que o assolavam novamente.
— O senhor não observou as orientações da Máquina. — continuou o delegado. —Tudo é organizado para garantir a ordem e melhor servir à população. Os desordeiros devem ser imediatamente punidos. O senhor vai ficar preso para seguir o programa de reeducação social da penitenciária até que prove que está apto para conviver novamente em sociedade.
— E os meus pés?
— Isso não é comigo. É com o médico.
Pin It
Atualizado em: Qui 6 Ago 2020

Deixe seu comentário
É preciso estar "logado".

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222