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O Cobra

O Bar da Rosinha era um boteco como qualquer outro, cadeiras capengas, mesas quebradas, pôster do Corinthians na parede. Talvez o boteco fosse um pouco mais decadente e menos frequentado que o Boteco do Sandro. No do Sandro, permitia-se o jogo de cartas, no da Rosinha era estritamente proibido o truco. Rosinha, viúva, paraibana e muito feia, herdou do marido o boteco e seus bêbados, mais um enfado, que não lhe dava lucro, mas mantinha aberto por consideração à memória do defunto. Se houvesse algum frequentador não era, certamente, pela cerveja quente e choca, pelo mau humor de Rosinha ou pelos salgados insonsos. Quem ia ao boteco era para ver Cleidiane, menina de quatorze anos, bonequinha de porcelana, tão linda que era difícil acreditar que tivesse qualquer parentesco com Rosinha – era sobrinha da dona do boteco. Rosinha permanecia atrás do balcão, Cleidiane ocupava-se em servir as mesas, esquivando-se como bem pudesse dos gracejos dos fregueses. Sábado sempre era mais cheio. O único que não se envolvia nas animadas conversas sobre futebol, mulheres e política, era Meninão, que apartado dos demais, junto a mesa de sinuca, parecia hipnotizado pelo veludo verde.  
Supondo que todos, santos e pecadores, passam igualmente metade da vida dormindo, não me engano em afirmar que entre a vida que Meninão levava e a de um santo, não diferiam em, pelo menos, cinquenta por cento.  Meninão tinha setenta outonos, mas o apelido lhe cabia muito bem. Primeiro pelo corpo bem pequenino, segundo por sua falta de dignidade – dignidade não é acompanhada por cabelos brancos, e sim pelo modo como se vive – e terceiro e principal, o apelido fazia alusão ao clímax prematuro de sua vida, quando sendo biologicamente um menino - onze anos - ganhou na sinuca do mítico Tiririca. Depois vieram muitas outras vitórias, e algumas poucas derrotas, o caso é que Meninão nunca pôde largar o joguinho... 
Fazia nem uma semana, Paraná, com fama de bom jogador lá pros lados do Grajaú, veio ao Bar da Rosinha enfrentar o Meninão. Paraná não era amigo, nem conhecido, chegou cheio de banca desacatando Meninão, o negócio ficou feio, Meninão estava no Bar da Rosinha, cercado por seus camaradas, deixou quieto porque não valia a pena brigar, quebraria o cara no joguinho. Rosinha mandou que Cleidiane baixasse o portão do bar, ninguém mais entrava, quem estava dentro podia ficar, desde que gastasse dinheiro. Os frequentadores se reuniram em torno da mesa, a torcida era por Meninão, que entendiam, era o defensor da honra do Bar da Rosinha, diante daquele invasor fanfarrão. 
Meninão, enquanto jogava, bebia litros e litros de cerveja que era trazida por  Cleidiane. Não importava, depois de tantos anos, o tapete verde da sinuca não lhe guardava mistério. Fazia seu jogo, jogo lento, irritante, e quando a bola escorria mansinha pelo tapete verde, e caía na caçapa, os espectadores gritavam alegres. A sinuca não era matemática como diziam, a sinuca com suas bolas coloridas que pareciam se multiplicar sobre o fundo verde mais parecia pintura a óleo. E o barulho seco que as bolas faziam quando se chocavam umas com as outras? Era como quando Tchaikovsky tinha inventado de colocar canhões de verdade na Abertura 1812.  Sinuca era todo um mundo em que Meninão fazia-se deus. Meninão ganhou, Paraná pediu revanche, revanche, revanche, revanche.  
Os dois jogaram por muitas horas, talvez dias, e Paraná perdeu corrente, pulseira, relógio, aliança, perdeu tudo. O pobre ficou parado, olhando, o taco na mão, embasbacado, com a roupa encharcada de suor. Foi ao banheiro, lavou o rosto, queria mais uma revanche. 
Meninão pensou em devolver o relógio do rapaz, mas antes que pudesse fazer algo, Paraná tirava as calças e revelava suas duas pernas: duas próteses de aço. 
-Aposto minhas duas pernas, valem um bom dinheiro no ferro-velho. 
*** 
Paraná voltou para casa rastejando sobre seu ventre, comendo pó, como uma cobra.  
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Atualizado em: Qui 25 Jun 2020

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