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Pés Torcidos

Maria amarrou os cabelos, despejou a água fervendo no coador descartável, o aroma do café invadiu suas narinas. A pia estava repleta de louça coberta por gordura coalhada. Contava cinquenta e cinco anos, e seu vigor, que até então era o componente mais notável de sua sólida personalidade, havia-lhe abandonado. Abandonado para sempre. Não foi abrupto, foi um processo tão lento que Maria não percebeu. Era como se a cada doze meses, como um réptil, abandonasse uma camada de pele, desprezada como uma roupa velha e puída, porém, diferente do animal, quando Maria abandonava sua pele, não lhe surgia nenhuma outra por baixo. As camadas iam simplesmente descolando de seu corpo uma a uma, até que o único que restou foi a sua completa nudez. Via-se frágil, débil, diminuta. Saiu da cozinha, foi até o quintalzinho, colocou as mãos sobre os olhos, sentia o cheiro de lavanda que escapava da roupa esquecida no varal. Passou alguns minutos imóvel, fingindo-se coisa, objeto inanimado, até que os gritos de Paulinho a arrancaram daquele sono desperto.
-Mãe, tô com fome!
-Já vou – respondeu Maria.
Nos últimos meses, quando Paulinho a chamava, causava-lhe arrepios. Tinha a bizarra sensação de que o quarto fosse um túmulo, e as palavras do filho não fossem nada mais que lamentos de um morto. Se tivesse dinheiro poderia contratar alguém para ajudá-la, pelo menos para dar banho em Paulinho, que era um moço robusto, pesado, exatamente como havia sido o pai, morto em acidente pouco antes do nascimento do filho. Melhor assim, Aírton nunca teve paciência com criança, e teria muito menos com Paulinho. Tudo era melhor quando Clarisse ainda vivia com ela, mas a filha casou e foi viver com o marido lá em São Paulo. Justo, a menina não era obrigada a cuidar do irmão, Paulinho era somente sua responsabilidade e de mais ninguém. A filha tomou seu rumo, abandonou o ninho, Maria, pelo menos, não estava só, Paulinho estaria sempre em seu quarto, sempre com ela. Meu filho é uma benção, repetia essa frase como um mantra, e horrorizava-se quando, por um descuido, sua mente divagava e um mundo sem banhos de esponja, sem troca de fraldas, sem urinóis, abria-se diante de seus olhos miúdos.
-Tô com fome!
Maria pegou um pão francês, cortou-o, lambuzou-o de margarina. Colocou o dejejum sobre uma bandeja, levou até o quarto do filho. O quarto estava parcamente iluminado por um fiapo de luz que entrava pela fresta da janela. Com certa dificuldade, pôde ver Paulinho sentado na beirada da cama, esperando o café. Maria deixou a bandeja sobre o criado mudo, sentou num tamborete ao lado da cama. Deu uma boa olhada nas pernas de Paulinho, ele as balançava displicentemente. Pernas descarnadas, atrofiadas, feias, o pior eram os pés, torcidos, inúteis, despropositados. Quantas vezes havia pedido para Deus que os consertassem? Suas orações seriam tão inúteis quanto aqueles pés torcidos? Não, Deus não tinha culpa, ela era a única culpada, como Deus poderia entender suas orações que eram sussurradas em um português vulgar, carente de concordância, regência, correção gramatical? Às vezes, nem ela se entendia.
-Espera filho, o leite tá gelado, vou esquentar no micro-ondas, já trago de volta. - disse Maria, que tomando a bandeja em seus braços trêmulos, abandonou o quarto e retornou à cozinha.
Há vinte e dois anos conservara uma atitude estoica de resignação e medida felicidade diante dos cuidados que dispensava ao filho aleijado, mas estava velha, sentia que já não poderia cuidar-lhe. Paulinho, sozinho no mundo, o que aconteceria? Morreria. Sim, morreria. E se fosse para morrer, melhor que fosse morto por mãos amadas, mãos que sempre lhe trouxeram o sustento, a vida. Ela também morreria, ela que passara já há algum tempo ensaiando a própria morte, não poderia seguir sem o filho, os dois haviam se tornado partes indistinguíveis de uma mesma matéria. Morreriam juntos.
Pegou o veneno de rato que estava embaixo da pia, buscou duas xícaras limpas no armário. Colocou café, leite e exatamente a mesma quantidade de veneno em cada uma das xícaras. Não fazia ideia de qual seria uma dosagem letal, preocupou-se mais com o sabor. Paulinho perceberia o gosto amargo que o conduziria à morte? Retornou ao quarto, deu uma das xícaras a Paulinho, e o filho começou a beber avidamente, como se soubesse da maldita substância misturada ao café com leite, e ansiando deixar aquela prisão de carne, quisesse partir o mais rápido possível.
-Cuidado, você vai se queimar – Maria quis dizer, mas não disse.
Maria observava-o em silêncio, com a mão esquerda cobria a boca, enquanto mantinha sua xícara com a mão direita. Quando Paulinho terminou de beber, a mãe, cansada, abandonou o filho e foi à cozinha. Sorrindo, despejou todo o conteúdo de sua xícara no ralo da pia.
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Atualizado em: Dom 21 Jun 2020

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