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O Natimorto

Não nasci, essa é a verdade. Vivo e sempre vivi aqui, onde é escuro, normalmente silencioso, e nunca sou visto. Protegido de qualquer perigo do mundo exterior, vivo confortavelmente. Algumas vezes, poucas, é verdade, aventurei-me lá fora e disso falarei mais adiante. Fui engendrado assim como você e todo mundo, mas não saí. Continuei no útero materno, recusei-me a sair e diante de minha teimosia, os médicos e minha própria mãe tiveram de aceitar minha resolução. Aos poucos, todos foram se acostumando a ideia, e desenvolvendo uma atitude complacente diante de mim, como as pessoas costumam ter com os muito velhos ou muito doentes. Mas não sou doente para os padrões da medicina. Cresci muito bem, sim senhor! Cresci tanto que aos dezesseis anos minha mãe desenvolveu graves problemas na coluna, pois suportar os mais de setenta quilos que eu pesava na época não era trabalho dos mais simples. Além das terríveis cólicas que sofria. Com essa idade fiz minha primeira saída, outras vieram depois. Encantou-me o mundo, isso é certo. Invejava àqueles que diferentemente de mim haviam nascido, e podiam correr por onde bem quisessem, e beijar, e comer doces e tudo mais que o mundo pode oferecer. Mas não demorou muito para perceber que também havia o lado ruim: para os que nascem, o destino, mais cedo ou mais tarde, é a morte! Nascem para morrer! Quando tomei ciência deste fato, tratei logo de encontrar outra mulher, meti-me por sua vagina, até chegar ao seu útero. Aliviei-me, estava novamente protegido, novamente oculto, novamente a salvo da morte. Nos últimos anos venho trocando constantemente de úteros, alguns mais confortáveis, outros não aconselharia a ninguém, nenhum fora tão bom como o primeiro e ás vezes arrependo-me da minha primeira aventura. Á noite, quando o silêncio é total, penso no mundo e nas pessoas que nele estão. Nos últimos tempos, a morte, a dor, assustam-me menos, e penso com a maior melancolia do mundo como os que nasceram são felizes e eu, que nunca nem nasci, sempre estive morto e triste. No ápice de minha angústia, dedico-me as minhas especulações – que modéstia à parte, desenvolvi com maestria. Analiso todas as possibilidades a exaustão, tudo passa pelo meu crivo intelectual, os prós e contras, em um intenso esforço de abstrações, e quando dou por mim...pimba! - o medo vence, a comodidade do útero se mostra como a única possibilidade sensata e então invejo menos aos que vivem do lado de fora. Ás vezes penso, e desejo, enforcar-me com o cordão umbilical, já que não posso aguentar muito mais tempo aqui neste, que sinto, ser meu último útero, porque já não me lembro mais o caminho para sair daqui e por fim...nascer.
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Atualizado em: Ter 9 Jun 2020

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