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Coletânea Lawford - Além da Imaginação

A ÚLTIMA VIAGEM
Rapidamente atravessei o porto de Londres,estava deveras atrasado para uma VIAGEM ,que seria,a mais esperada por mim até então.A data era 19 de maio de 18...,e meu amigo,o capitão John Franklin,estava para partir com seu gigantesco navio cargueiro EREBUS,nosso destino era o Ártico Canadense,a bordo 84 oficiais e 40 homens de expedição, Seu objetivo era navegar através das águas traiçoeiras que separavam os oceanos Atlântico e Pacífico. Liderada por  John Franklin, a embarcação tinha como missão  coletar amostras e realizar estudos científicos ao longo do caminho.
Como havia recebido o convite do amigo John,integrei-me a expedição para registrar por escrito as aventuras nos mares gelados pelo qual tencionávamos passar. Homens com vidas espartanas,frugais pesquisadores,mesmo que apenas para permitir a realização de seus ideais.
Tratei imediatamente de acomodar-me em uma pequena cabine, havia outras de tamanho e acomodações mais agradáveis,mas aquela tinha algo de especial para mim,ela ficava ao lado da ponte de comando,o que me era muito favorável visto que tinha que estar atento a todos os detalhes daquela magnífica aventura que se aproximava a cada minuto.
Por fim partimos lentamente,e por longos dias e noites fiquei em minha cabine tentando entender aquela pilha de cartas náuticas que fora colocada em minha mesa,e degustando  uma garrafa do mais puro malte,que foi gentilmente destinada a mim pelo capitão.Somente em uma determinada noite,quando ao olhar pela escotilha do navio,percebi na penumbra da noite que já havia envolvido a embarcação algo de diferente.
Saí de cabine e caminhei vagarosamente até a borda do tombadilho, quando vi uma singularíssima nuvem isolada no lado noroeste do céu. Distinguia-se não só pela sua cor ,como se fosse um gigantesco véu,como por ser a primeira que tínhamos visto desde a partida do Porto de Londres. .Mesmo mergulhados em uma escuridão profunda da noite,aquela nuvem se aproximava rapidamente,poderia dizer sem dúvida que se tratava de um forte nevoeiro,o que confesso,me deixou um tanto quanto temeroso.
A nuvem aproximou-se com uma velocidade espantosa e em meio ao gélido nevoeiro que já começava a penetrar a polpa do navio,pude ouvir a capitão John perguntar ao imediato;
- Em que ponto do pacifico estamos?
E a resposta foi imediata
:-Estamos contornado as Ilhas do Rei Wilham ,Senhor.
Foi então que houve um silêncio mortal, que durou por quase um minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser escutados,porque os motores estavam paralisados,e a densa nuvem engoliu o majestoso cargueiro,sem que pudéssemos visualizar a um metro de nosso olhos.
Não sei bem por que motivo,mas imediatamente me veio a mente a casa onde morava e a imagem de minha já falecida esposa. Da minha cidade e da minha família tenho pouco que dizer. Os meus péssimos costumes e o decorrer dos anos tornaram-me estranho a ambas. Graças ao meu insignificante patrimônio, nunca tive o benefício de uma educação mais aprimorada, mas a inclinação do meu espírito para a contemplação deu-me possibilidades de classificar metodicamente todo esse material instrutivo acumulado pelo estudo mais apurado da leitura.
As obras dos filósofos ingleses, sobretudo, causaram-me infinitas delícias,
não por admiração pela sua eloqüente narrativa, mas pelo prazer que, por virtude dos meus hábitos de rigorosa análise, sentia surpreendente os seus meios de tornar o irreal quase realidade.
Criticaram-me muitas vezes pelo gênio forte e a falta de Paciência com os cínicos.O Senso crítico  das minhas opiniões tornou-me célebre,ou indesejado,não sei  ao certo.Talvez por estes motivos,tivera eu ,recebido de John o convite para a viagem.Meu bom amigo quisera talvez,afastar-me,mesmo por curto tempo,dos vícios e das maledicências da sociedade londrina.
A nuvem aos poucos foi tornando-se menos densa,e aos poucos foi possível visualizar a proa do navio quase por completo,e minha reação foi a mais apavorante que se possa imaginar,encontrava-me sozinho envolto naquela  névoa que tirava-me o fôlego.Agarrado as bordas do tombadilho vaguei cambaleante,estonteado que estava pela imersão naquela fumaça diabólica,tentei sem sucesso encontrar alguém da tripulação,ou alguém do grupo de pesquisa.O cargueiro EREBUS estava completamente abandonado nas águas gélidas do Canadá.
O medo e o pavor tomou conta de meus sentidos,desesperadamente dirigi-me a porta do depósito principal,na parte inferior do navio,lá havia caixas com bebidas,todas  haviam caído e espantosamente  as garrafas estavam a rolar pelo chão com balanço da embarcação.Já pensava em esconder-me até entender o que de tão inacreditável  havia acontecido,quando um som cortou a tenebrosa neblina e chegou aos meus ouvidos,pareceu-me uma voz , alguém chamando ou pedindo socorro,então corri,ou tentei correr,em direção aquela voz,que poderia ser de algum tripulante,que como eu,deveria estar tomado pelo mais terrível pavor.Enquanto me aproximava mais e mais da proa do fantasmagórico navio,o som chegava com mais clareza,e um sentimento aterrador dominou-me quando,gelando até o fundo de minha alma,já na parte superior do cargueiro,em meio aquela infernal neblina,alguém chamava por mim.
Meu nome era ouvido em todas as direções,acompanhado com o som de lamentações,um lamento com uma voz  feminina e por demais aterrorizante,lembrando-me imediatamente minha esposa,em seus momentos finais de vida, vindo sei lá de onde,perecia-me  sair dos cantos mais profundos do inferno,e ressoava entre a escuridão e neblina,numa combinação diabólica.   
Seria aquele momento o meu juízo final,aqueles tripulantes que não vejo  mais estariam todos salvos,e somente eu fiquei para vagar pela eternidade neste mar de lamentações e penúrias.
Caindo de joelhos no convés da embarcação,com a cabeça entre as mãos,desejei nunca ter estado ali,pois não sei qual destino,Deus ou o Diabo traçaram para mim....
       
                                  
                                                                                                          O REFÚGIO
Sigo em minha montaria, a tortuosa e extremamente perigosa estrada de Derbyshire,que leva até a cidade do mesmo nome,na região Oriental da Inglaterra.O ano era 1890,dirigia-me a clinica psiquiátrica Real,onde meus préstimos como esculápio seria de grande valia,visto que havia um surto de febre tifóide naquela região.Lá, no mundo dos enfermos e necessitados,com certeza minha aparência não seria empecilho para trabalho humanitário.
Tenho meu particulares motivos,também,para ir a um lugar tão distante para fazer a caridade.Meu rosto não tem um agradável aspecto,as cicatrizes deixadas pelas chamas,durante o terrível incêndio que destruiu a capela da Aldeia de Kemble,deixaram minha face e minhas mãos miseravelmente deformadas.Embora evite os lugares com aglomerações de pessoas,devo eu,me acostumar com a reação delas, olhando-me como  se a um animal em um circo de horrores.Sem falar,certamente,nas terríveis lembranças daqueles assombrosos acontecimentos.
Mas a noite estava chegando,e o céu em um breu assustador,encobre as nervosas ondas do rio Derwent,que se precipitam nos rochedos ao longo de toda estrada ,tocadas pelo vento que a cada momento parece ficar cada vez mais forte. O seu aspecto inspirou-me verdadeiro terror e, ao parar meu cavalo, senti quase o desejo de voltar atrás. No entanto, imediatamente me envergonhei da minha fraqueza e continuei.Saltei de minha montaria e procurei proteção na murada de pedras,mas era inútil.Era necessário encontrar um abrigo,e rápido,pois uma tempestade esta por chegar com toda sua fúria.Raios  precipitavam-se furiosamente no céu.Olhei pela borda do penhasco e vi uma vasta extensão de mar cuja cor escura,e o vento que bramava violentamente me recordou imediatamente o quadro de Pierre August, (A Tempestade).A morte aproximava-se e lançava sua negra sombra sobre mim.
Era o panorama mais espantosamente desolador e assustador que a imaginação humana pudesse por ventura conceber. O ruído mais forte do vendaval, que ia crescendo sobre a muralha de pedras soava como um uivo, de uma criatura diabolicamente feroz,a assustadora. Fui fustigado pela fúria indomável do vento,que fez minha montaria retornar em desabalada carreira.
Era um imenso precipício de granito luzidio e negro. Por nada do mundo me teria aventurado próximo a borda. Na verdade, eu estava tão profundamente agitado pela situação perigosa do momento que me deixei cair a todo o comprimento no solo, encostando-me a alguns arbustos,até que por fim avistei uma construção a frente,queria eu,imediatamente fugir daquela terrível tempestade. Uma luz anunciava que próximo estava de algum abrigo,ou pelo menos assim me parecia,ao aproximar-me constatei que a  construção era como a um arco que cobria toda estrada,com dois andares sobre o majestoso arco,três pequenas janelas,uma delas com uma pequena luz,deveria ser,pensei, um local seguro a um viajante apavorado.
Iniciava ali,a aventura mais extraordinária que jamais relatara algum ser mortal, ou pelo menos tão extraordinária que homem algum pôde a ela contar, e as cinco horas seguintes que passei ali, despedaçaram-me a alma.
A construção toda em enormes pedras,cobria toda estrada,tornando impossível seguir viagem sem por ali passar.Como se a túnel fossemos obrigados a passar para entrar em Derbyshire.
Aproximei-me do inusitado refugio,toda a construção tremia em sua base e o rochedo mexia-se. Deitei-me de bruços, e num excesso de agitação nervosa, encostei-me a parede de pedras próximo ao portal de entrada.
No ano de 1885, no domingo da Sexagésima,o padre Antônio Vieira,de Portugal, presenteou-me com o livro  Semen est verbum Dei (S. Lucas, VIII, 2) ou seja, A semente é a palavra de Deus. Ajoelhei-me ao chão,cruzei os braços segurando fortemente o livro,que tirara de meu alforje,contra o peito,coloquei meu rosto quase ao chão,como a implorar ao senhor um perdão imperioso,pois não queria eu,ali perecer, como um excruciante pecador.
Através de uma pequena janela,um homem,vendo meu intenso desespero,abriu a porta que dava entrada a estranha construção e aproximou-se,mesmo com o vento arrastando quase tudo que encontrava pela frente,o homem parecia agir como se nada tivesse a acontecer, Vestia-se como a um nobre aristocrata Londrino,com uma vasta capa escura,na mão portava uma bengala,com cabo de prata em formato de cabeça de um cão. Ninguém  poderá imaginar o espanto que me invadiu naquele momento.Maior foi ainda minha surpresa,quando ao estender a mão,ofereceu-me ajuda.Arrastou-me,mesmo sendo eu um estranho, para dentro do castelo e sentou-me a uma poltrona próxima a uma das janelas,serviu-me uma taça de vinho. Lá fora a tempestade bramia furiosamente,mas meu anfitrião não mostrava qualquer preocupação.De dentro do castelo,podia observar as águas em convulsões frenéticas, ofegando, borbulhando, assobiando, voltando-se em gigantescos e inumeráveis turbilhões.Buscando alcançar as portas de meu refugio.
Se as furiosas ondas chegassem ao alcance deste local,o  esconderijo  resistiria a elas tanto quanto uma pena a um sopro de vento.Permaneci sentado a poltrona,com as vestes bastante umedecidas pela chuva,e um sentimento de pânico que dominava por completo meu corpo.Gelava-me o sangue.
Observei que a sala formava, no contesto, uma das alas da construção e que as janelas ocupavam assim três lados do estranho refúgio..A porta,por onde fui conduzido a entrar, estava situada no quarto lado. Havia, pelo menos, seis janelas. A mesa achava-se esplendidamente servida. Estava coberta de louça lisa e sobrecarregada de inúmeras espécies de iguarias, jarras com vinho.Pequenos lampiões estavam pendurados nas laterais da sala .  Observei sobre uma pequena mesa, um  Kinetoscópio,uma caixa com um pequeno visor na parte superior,inventada por Willian Kennedy,com a ajuda de Sir. Thomas Edison,neste inovador aparelho era possível reproduzir imagens em movimento através da gravação em uma película.
Rompendo a diafanáta teia de algum sonho,era uma visão de extraordinária magnificência.Uma manifestação de sofisticação e nobreza em meio aos caos.
Após alguns cálices de vinho,em uma taça de prata genuína,com uma cruz templário gravada na parte externa,o estranho anfitrião identificou-se como sendo o Almirante Berthmor,da real marinha inglesa,mas gostava de ser chama de Lorde Berthmor,e durante o decorrer da noite,enquanto lá fora a impiedosa tempestade jogava suas águas nos coloridos vidros das pequenas janelas,fui relatando,mesmo sem entender bem o porque, detalhe por detalhe,as atrocidades por mim cometidas no passado.A calma e a altivez,com que lorde Berthmor ouvia minhas palavras,me deixava um pouco desconfortado,sentado em uma poltrona frente a mim,ele apenas escutava,sem nada dizer.
Prejudicava minha visão examinando o acontecido muito de perto.Podia assim,enxergar um ou dois pontos com rara clareza,mas ao fazê-lo perdia de vista uma compreensão do todo.Ser profundo demais é um risco muito real,a verdade nem sempre esta no fundo do poço.Ao confidenciar episódios de meu obscuro passado ao estranho Lorde,sentia-me ao mesmo tempo desafogado de meus remorsos.
Uma conversa calma,entre trovões e relâmpagos que clareavam o ambiente,trouxe a minha memória fatos,que devo admitir,nada tenho a orgulhar-me em deles ter participado.
---Aproveite o momento ! Disse o Lorde enquanto apreciava calmamente seu vinho.
---- Arrependa-se sinceramente de seus pecados,e ao sair desta casa ,seguindo seu caminho,estarás perdoado de seus mais terríveis atos,sua alma livre de todas as culpas,e suas cicatrizes no corpo e no espírito curadas.
E sem mesmo entender o interesse de Berthmor por minhas irrelevantes aventuras,fui repassando uma a uma,minhas nefastas atitudes, assegurando delas estar totalmente arrependido.
Já quase ao amanhecer,quando a tempestade já havia passado,e deixado como rastro apenas um imenso charco na estrada, Berthmor,creio que já exausto de ouvir minha confissões e lamúrias,ergueu-se de sua poltrona,e colocando sua mão em meu ombro,falou calmamente...
---Meu nobre amigo...sua parada aqui não foi em vão...limpaste teu coração,tua alma,teu espírito.E após descansares iras também limpar teu corpo.Amanhã, certamente entenderas que nada acontece por acaso.
Dizendo isto,jogou-me uma almofada que havia sobre o assento de sua cadeira.
---Durma um pouco..e amanhã serás um novo homem..mas lembre-se...siga em frente,complete sua jornada, e não retornes por esta estrada.
E assim o fiz,recostando-me a poltrona que estava sentado,deixei-me dominar pelo cansaço,e pelo excesso de vinho ingerido durante a conversa.Sem dar maior importância ao comentário feito por ele a respeito de não voltar mais pela mesma estrada e somente seguir em frente.
Berthmor  fechou as cortinas das pequenas janelas e retirou-se do salão,sua aparente calma me deixara apreensivo no começo,mas agora já julgava-a bastante normal para quem ali vivia a muito tempo.
Ao acordar...o sol já havia assumido seu lugar,brilhava intensamente sobre os rochedos,a tempestade tinha se dissipado.Caminhei até a janela para abri-la,e meu espanto deixou-me perplexo,ao segurar o ferrolho da fechadura,notei que minhas mão,que até então estavam deformadas pelo fogo,eram novamente normais,sem o menor sinal de cicatrizes,imediatamente fui até a mesa da sala e ergui o cálice de prata ao qual degustei vinho durante boa parte da noite,e vi refletido minha face,perfeita,como se a um milagre fosse eu submetido.As cicatrizes sumiram,uma paz interior tomou  conta de meu corpo, que outrora tremia de pavor.
Agora entendia porque não podia mais voltar,naquela tempestuosa noite,ao redimir-me de meus pecados,do meu passado,recebi a graça de voltar a ser uma criatura de aparência normal.Pois Deus fez o homem a sua imagem e semelhança.Deveria eu,agraciado pelo acontecido,seguir meu caminho até a Clínica Psiquiátrica Real,meu primeiro destino,e lá dedicar-me a fazer a obra do meu Criador.
                      
                      
                                                                                                    O MONGE
O Relato que faço agora aos leitores, refere-se a um episódio do século passado,mas que só agora,através de registros por mim encontrados,indicam uma ligação sobre-humana entre o céu e a terra. 
A data era dezesseis de abril de 1890,durante uma expedição de pesquisa geológica nas ruínas da Abadia de Santa Maria,na cidade de York,Inglaterra,encontramos protegidas por uma imensa porta de ferro, em um minúsculo aposento,algumas escrituras do Monge beneditino Pietro de Santini,datadas de1825.
 A Abadia de Santa Maria ficava no norte de York no condado de North Yorkshire,no cume da montanha Whitbey.é uma abadia beneditina.
A abadia foi originalmente fundada em 1055 em dedicação a Santo Olavo. Foi refundada em 1088 por Stephen Abbot e um grupo de monges da cidade de Golrfalk por ordem do magnata anglo-bretão Alan Rufus, que lançou a primeira pedra da igreja normanda naquele ano. A cerimônia de fundação contou com a presença do bispo Odo de Bayeux e Thomas Arcebispo de Bayeux .Em 1881 houve uma movimentação do solo rochoso da montanha, causando o desmoronamento de parte da Abadia,fato este que obrigou os monges a abandonarem o local.
A Ordem de São Bento ou Ordem Beneditina (em Latim: Ordo Sancti Benedicti,) é uma ordem religiosa católica de clausura monástica que se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência social. É considerada como a iniciadora do chamado movimento monacal. Monasticismo (do grego monachos, uma pessoa solitária) é a prática da abdicação dos objetivos comuns dos homens em prol da prática religiosa.
Uma majestosa construção de pedras mostrava a importância da religião católica naquelas terras. Uma pequena escadaria também de pedras levava ao vilarejo que ficava ao pé da montanha.
Escadarias internas e gigantescas portas conduziam a inúmeras alas dos sete andares do mosteiro. No sétimo e último andar, encontrava-se a biblioteca, o local mais freqüentado pelos monges. Grossas portas em madeira, com fechaduras no estilo medieval,com chaves de tamanhos desproporcionais serviam como guardiões de segredos enclausurados em áreas reservadas somente aos Bispos.
Monge Pietro de Santini. 62 anos,nascido em Roma e acolhido na abadia de santa Maria aos 17 anos.Após a morte de seus pais, que quando em viajem a Inglaterra tiveram sua caravana atacada por saqueadores.Desde então dedicou sua vida a religiosidade e ajuda aos necessitados.
São as escritas do monge Pietro de Santini,palavra por palavra,que passo a transcrever agora:
Havia na abadia um local para acolhimento de pessoas enfermas, era um dispensário que não dava acesso ao interior do mosteiro,apenas uma porta de ferro permitia o ingresso a outras alas, mas estava permanentemente chaveada pelo irmão Natanael.Responsável pelo local. Ali,os doentes comiam,dormiam e tinham orientação religiosa e medicamentos. E foi neste local de ajuda e devoção que os fatos que relato agora aconteceram, tornando ainda mais surpreendente os desígnios do Criador.
Era noite chuvosa de inverno de 1825,quando o irmão Natanael encontrou caída na parte externa da porta do acolhimento,uma jovem, certamente do vilarejo de Golrfalk,que ficava ao pé da montanha do mosteiro,a mulher implorava por ajuda,pois seu bebê estava por nascer.Imediatamente Natanael chamou-me para ajudá-lo, colocamos a gestante em um dos leitos do acolhimento e providenciamos alimentos e roupas secas,pois pela aparência da jovem,deveria ter passado quase toda noite ao relento.Tinha ela uma expressão de medo,e um aspecto de extrema pobreza.
Foi visível a mudança de fisionomia ao entrar na Abadia, era como se o poder divino  lhe causasse um abrandamento de espírito,uma sensação de paz a fez deitar-se e acalmar-se.Natanael não mostrava nenhum nervosismo,confiávamos nas bênçãos do senhor para trazer ao mundo aquela criança,e foi  o que foi feito.
---Qual seu nome ? Perguntei a jovem
---Ana...Ana Lectus ! Sou de Golrfalk.   Respondeu ela.
Antes de qualquer outra indagação, um sopro de vida trouxe o bebê as mãos de Natanael.
---Santo Deus..! A exclamação do monge chamou-nos a atenção.
---Deixe-me ver meu filho...Disse a jovem mãe.
Ao erguer entre as mãos com o recém nascido em nossa direção, o espanto misturado com uma enorme aflição tomou conta de mim.Trouxemos ao mundo um menino,uma deformidade no crânio fazia com que sua cabeça tivesse um tamanho extremamente desproporcional,seus braços eram mais curtos que os membros de um bebê normal,seus pés e mãos tinham seis dedos,um dedo a mais.
---Eu não posso crer...é castigo de Deus!  Gritou Ana.
Após recuperados do estarrecimento do acontecido,comunicamos ao Prelado Tollins,responsável pelo mosteiro,que deveria aconselhar  o que deveria ser feito.
---Devemos ficar com esta criança na Abadia. Lá fora ela seria chamada do filho de Demônio,e certamente teria pouco tempo de vida.
As palavras do Prelado estavam exatamente de acordo com meu pensamento. Fora da Abadia, este pobre inocente,que não pediu para vir ao mundo,seria massacrado pelos aldeões.
Durante quatro meses, assim foi feito, aquela minúscula aberração era amamentado pela mãe.Ana nada falava,apenas tratava seu bebê,que batizou como Hector,como se nada de diferente nele tivesse.Com o crescimento da criança pode-se observar uma formação óssea em suas costas,embaixo a cada ombro haviam pontas,e cicatrizes,como se algo fosse dali retirado.
Como poderia um recém nascido ter cicatrizes pelo corpo,Tudo naquela criança era um grande mistério.
Nossas atenções converteram-se pois, para achegada do monge Gabriel Missus,um jovem de vinte e cinco anos,de origem germânica,enviado direto pelo cardeal Dom Elásio.Deveria permanecer na Abadia por alguns dias,e depois conduziria nosso Prelado Tollins a sua nova missão, no condado de Glocestershire.Imediatamente após saber do menino Hector,Missus se interessou pelo caso,devido ao seu conhecimento como esculápio.Passando assim boa parte de seus dias a conversar com Ana e a examinar o bebê.
Já era bastante tarde,creio que perto de onze horas da noite,fazia minhas orações, quando o irmão Missus bateu a minha porta.
---O prelado deseja nossa presença e sua sala, e pediu que seja agora.
Pela fisionomia de preocupação de Missus,somente algo de extrema urgência tiraria um monge de seus aposentos na hora de sua comunhão com Deus.
---Irei em seguida.! Respondi.
Ajoelhei-me ao lado de minha cama, pedindo licença ao Senhor nosso Deus,pois iria interromper minha leitura religiosa,e fui ao encontro do que já imaginara.Estaria por começar algo que mudaria para sempre aquele local de devoção.
A sala do Prelado ficava no sétimo andar,ao lado da biblioteca,eu teria apenas que subir alguns degraus para alcançar o corredor que me levaria a conversa,que entendia ser de severa importância,pelo adiantado da hora.Ao percorrer o gelado corredor do último andar da Abadia, já foi possível ver,pela porta aberta, a luz que vinha sala de Tollins. Detive-me ante a porta, mas Tollins com um aceno de mão consentiu minha entrada. O gabinete era grande,tinha as paredes repletas de estantes,livros de toda parte do mundo cobriam a velha pintura já desbotada,Tollins estava sentado em uma poltrona,ao lado de sua escrivaninha,próximo a janela estava Natanael,de costas para sala parecia ter os olhos como a algo procurar na noite escura, ao lado da porta Missus,que trancou-a imediatamente após minha  entrada.   
 Natanael, mostrando um pavor excessivo,se é que existe medida para o pavor,estava a falar como se a delirar,  disse que o  Demônio estava entre nós,na figura daquele menino e sua mãe,todos morreríamos.O monge que até então eu conhecia como um religioso absorto na palavra de nosso mestre,demonstrava uma quase insanidade,ao referir-se ao que ele chamava de escolhida pelo mal. 
---A mulher...Ana Lectus...Lectus em latim significa escolhida,esta mulher foi a escolhida para dar a luz ao filho de Lucifer.
Apos proferir estas palavras, em um tom quase beirando o desespero ,foi em direção a janela da sala do gabinete onde nos encontrávamos, virando-se em nossa direção,colocou as duas mãos ao peito,onde levava pendurado um grande crucifixo de prata,  jogando-se em seguida para morte,sobre os rochedos cobertos pela neblina da noite.
Rapidamente corremos todos ao beiral da janela, todos menos Missus,que permaneceu imóvel ao lado da porta.Ao perceber que sua reação causou-nos estranheza,comentou...
---Irmãos, sei que o momento é de sofrimento pela morte de Natanael..mas suas palavras não são totalmente sem sentido.
O comentário de Missus causou ainda  mais incredulidade naquela inusitada situação.
Ele continuo....
---Vou relembrar alguns fatos que talvez os irmão os tenham esquecido,fatos estes que estão nas escrituras sagradas,as quais  me dedico fervorosamente a estudar a alguns anos.
Dizendo isto,aproximou-se da mesa,tirando assim,por instantes,nossa atenção do acontecido ao irmão Natanael.
--- Deus permite a um anjo descer a terra. Disse ele e continuou
---O enviado desce do céu e tem  filhos com uma mulher mortal,seus filhos são os nefilins,anjos caídos,eles tem almas de anjo mas não são predestinados a serem anjos.Porem,seus filhos nascem como aberrações,deformações faciais,anomalias nas mãos e pés,a nas costas uma formação óssea como se tivessem asas.Aos olhos das pessoas normais,seriam considerados monstros. 
---Este é o caso do menino Hector ?  indaguei...ainda que meio confuso.
---Sim , e estou aqui para salvar sua pobre alma!
Dizendo isto,Missus abriu a porta e seguiu rapidamente em direção ao dispensário onde estavam a mãe e o menino.Seguido por mim e por Tollins.Os sete andares foram percorridos com extrema rapidez,enquanto descíamos tentei lembrar de qual escritura havia Missus feito referência,mesmo com minha idade já avançada,tornou-se viva em minha memória o texto da sagrada escritura que diz:
*Deus mandou então o Serafin, anjo de seis asas,significa mensageiro,(missus,em latin)tem quatro faces:um homem,um leão,uma águia,e um touro, encontrar os anjos caídos,nefilins,exorcizar e devolver sua alma ao céu,antes que o diabo as tomasse para si.Após feito isto o serafin morre ardendo em chamas,em sacrifício pela  alma do nefilins,purificando seus espíritos.
 Os nefilins são  afligidos pelo brilho de sua aparição,olhar para um serafin em toda a sua glória é entregar a alma ao céu.
E também,enquanto descíamos as escadarias da Abadia,percebi a missão de Missus,ele era o enviado para salvar a alma daquele menino,era o homem usado por Deus para fazer sua misericórdia.O esforço da decida foi demasiado para o Prelado Tollins,que ficou em meio ao caminho,quando o ar começou a faltar-lhe,sendo assim eu e Missus adentramos ao local onde Ana segura seu filho Hector nos braços,sentada sobre uma cama do dispensário.
---Ana.Seu sofrimento,e de seu filho,hoje vai acabar.O senhor nosso Deus tem um local reservado para suas almas,onde a paz e a luz são infinitas.Dizendo isto,Missus,em pé ao lado da cama, colocou suas mãos sobre os ombros de Ana,com os olhos fechados ergueu sua cabeça para trás,como se a invocar um poder ainda por mim desconhecido.
---Saia agora irmão Santini. Disse ele em voz alta.
As palavras de Missus de nada adiantaram, permaneci imóvel,perplexo pela cena que estava a presenciar.
---Senhor....Minha missão esta completa,devolvo a ti estas humildes almas.
Com estas palavras, iniciou-se algo que jamais esquecerei,ao redor do Missus e da mulher com seu filho,uma imensa luz começou a brilhar,tão intensa que tinha dificuldade de enxergar quem nela esta envolto.A luz foi aos poucos transformando-se em chamas,e por mais inconcebível que possa parecer,nenhum gemido foi percebido.Enquanto o fogo consumia silenciosamente aquelas pessoas,enquanto o Serafim Missus levava suas almas ao reino do céu,o calor intenso me tirava,para sempre,a dádiva da visão.Hoje faço este relato com minhas lembranças, enquanto o irmão Tollins,ao lado de meu leito de morte, registra por escrito.Para que um dia,sejam estes inacreditáveis fatos, uma prova dos desígnios de Deus.
                            Isaias  Capitulo 6 versiculos  1 e 2.
1 No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor assentado num trono alto e exaltado, e a aba de sua veste enchia o templo.
2 Acima dele estavam serafins; cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam.
    
                                                                                        O MÁGICO DA CAPA
Tenho a esperança de iluminar com meus relatos, uma verdade desconhecida .Sempre começa com uma certeza eloqüente,de que minha jornada traz não só o entendimento do inexplicável,como também a viagem ilusória do leitor,que faz com que e os mistérios mais primitivos sejam por fim  revelados.
Talvez esta crença seja falsa,levando-me a ignorância extrema,mas os limites entre o real e o imaginário são tão hipotéticos...que quando me perguntam se creio no inacreditável ...apenas respondo...
--- Eu acredito no inacreditável.!
Era uma chuvosa noite na cidade portuária de Sant Ives,no estado de Cornwal,Inglaterra. Esta localidade litorânea, banhada pelo Oceano Atlântico,tinha na pesca sua maior fonte de renda,visto que todo o comércio local ficava no arredores do velho porto Black Seal.
Eu havia saído da igreja La Santa de La Cornualha,onde com grande pesar despedi-me de meu velho amigo James Holffer,Empresário local que falecera prematuramente por conta de um acidente em uma de suas áreas de mineração.
A data, agosto de 1893... após a fúnebre despedida,caminhei pelas estreitas e tortuosas ruas, até chegar a taverna Sloop In...onde pretendia,com uma garrafa de Brandy, esquecer aquele momento tétrico.
A taverna, abarrotada, era ponto de encontro de pescadores e demais moradores do local.Algumas jovens vestindo roupas típicas das mulheres camponesas,atendiam alegremente os clientes,depositei meu corpo cansado na primeira banqueta que encontrei próximo ao balcão, e pedi ao taverneiro minha bebida
Enquanto aguardava,observei um homem bastante magro,coberto por uma capa na cor vermelha,muito semelhante ao estilo usado pela realeza, coberta por pequenas pedras de intenso brilho.O tal homem no centro do salão fazia o deleite dos freqüentadores com seus números de mágica e ilusionismo.
Entre o desaparecer de um simples lenço ,até o completo domínio de algum voluntário através da hipnose,o esguio artista recolhia aplausos e algumas moedas que lhe eram jogadas ao chão.  
Era sem dúvida uma singular figura,creio eu estar ele na casa dos cinqüenta  anos,tinha um ar circunspecto,Lembrei-me de imediato o que meu amigo Volteire disse-me certa vez:
---O destino coloca mais rugas em nosso espírito do que em nosso rosto.
Que segredos estariam encarcerados nas profundezas do espírito daquele mestre das ilusões?
Pois bem,o homem de aparência minguada olhava com impaciência a todos,tinha cabelos pretos e largas costeletas que cobriam boa parte do franzido rosto.Enquanto encantava a todos com seus truques,girava sua capa exaltando a luminescência de seus incontáveis adornos.Creio eu serem pedrarias, de cores variadas,que cobriam quase totalmente a veste,chegando até o chão.Devo admitir,uma indumentária digna dos grandes reis. 
Já era por volta de vinte e três horas quando adentrou a taverna alguns soldados,chamando a todos a atenção pela balbúrdia que faziam, a princípio pareceu-me ser em numero de sete,e um deles,que destacava-se pelo uniforme,mais ostentoso e com medalhas com lhe cobriam boa parte do peito,com um sorriso desmedido e até mesmo exagerado, era com certeza o comandante, ou algo assim.
---Meu nome é Capitão Theodor...O Rei dos Mares. Disse o homem.
---Meu navio esta no cais,e lá vai ficar, até o fim desta pestilenta tempestade ,por isto eu e meu homens queremos diversão.
Dizendo isto,recostaram-se todos no balcão a beber e a dizer gracejos as taverneiras ,enquanto seu capitão tinha a atenção voltada ao velho mágico...que havia interrompido sua apresentação.
---o que vais fazer para entreter-me ? Velho decrépito.
 Perguntou com arrogância o lobo do mar,enquanto apontava para a figura ao centro da sala.
---O que posso eu fazer ,nobre senhor , para agradar-lhe?... Perguntou o mágico.
O capitão vendo a submissão do artista,caminhou até onde estava o servil ilusionista e retirando seu sabre da cintura ,colocou-lhe a ponta do metal no pescoço do assustado homem.
---Quais truques, ou perigos podes me apresentar moribunda criatura ?
Disse o capitão....
---Que podes me apresentar,que eu,em minhas viagens já não conheça?
Conclui ele ,enquanto empunhava o sabre com extrema altivez, fazendo  ajoelhar o intimidado homem da capa brilhante.
---Vejo que és um homem de coragem,meu senhor  . Disse o velho.
---E creio eu,ter algo que tem a grandeza de vossa majestade,meu rei..
Os acontecimentos até então presenciados por mim,fez-me concluir que O nosso valente capitão do mar,passava por um total descontrole de moralidade,decência e respeito.Fato este que o levou a um desfecho deveras surpreendente.
Enquanto o velho movia-se vagarosamente, ainda com o fardo do metal do sabre em seu pescoço,lentamente tirou sua tão preciosa capa e, de joelhos,como a implorar alguma indulgência, colocado-a sobre um dos braços,a ofereceu como presente ao seu opressor.
Por momentos,notei que o silêncio havia tomado o ambiente,todos ali,observavam o desfecho de tão inesperado episódio. 
Theodor,fascinado pelo intenso brilho das pedras que cobriam toda capa,tratou de guardar seu instrumento de tortura ,e com apenas um movimento jogou a capa sobre seus ombros,movimento este que trouxe uma cintilância ainda maior aos ornamentos do manto.
O sorriso,que já era detestável,tornou-se ainda mais repulsivo.
---Como rei dos Mares, Disse o marinheiro,com empáfia
---Tenho agora meu manto real....
Enquanto falava, com seu braço esquerdo,desferiu vigoroso golpe no rosto do já amedrontado mágico ,jogando-o por completo ao chão.
---Saia de perto do rei,sua escória humana!  Falou ele ao velho.
Naquele momento,para espanto de todos ali presentes,a cena repugnante que assistíamos até então, tomou um caminho que desafiaria o mais céptico dos mortais. 
O mágico caído ao chão,apenas arrastou-se para longe sem tentar erguer-se,enquanto Theodor, ria debilmente com seus braços erguidos,como se a  comemorar  vitória sobre o impotente adversário.
E foi neste momento,que a tão desejada capa,como a encarnar os dons mágicos e ,posso dizer, diabólicos de seu antigo dono,enrolou-se  cobrindo por completo o audacioso Rei dos Mares.O brilhar de seus adereços fulguravam intensamente como a ofuscar nosso olhares,e em alguns segundos o intrépido marinheiro,para espanto de todos, transformou-se em uma incandescente tocha humana.A capa de labaredas levou-o rapidamente ao chão da taverna.O valente agressor debatia-se ferozmente,mas nada pode ser feito para salvar-lhe a vida,e entre os mais horrendos gritos de pavor nas chamas,o intrépido Rei dos Mares foi queimado,derrotado. 
Enquanto que, o Velho ilusionista, nunca mais foi visto em Sant Ives.
                            
                            
                                                                                        CAMINHOS DE SALÉM
Salém - 1851
Enquanto dito estas palavras para que sejam escritas por minha irmã,Sandra Elisabeth,sinto-me agraciado por ainda estar vivo para contar,pois a experiência por mim vivenciada jamais sairá de minha memória.E espero que da sua também não.Há um ponto desta narrativa sobre o qual será bom fazer algumas observações; sentirei uma grande satisfação, se minhas reflexões tiverem como resultado dar um certo crédito aos estranhos acontecimentos aqui contidos.Referindo-me aos insólitos e incomuns   episódios que buscam dilucidar os diversos cenários ao qual esta exposta a mente humana.Onde a felicidade não esta,muitas vezes,na vida terrena. 
A convite do amigo Nathaniel Hawthome ,escritor e filósofo,fui até Salém (massachussetts) para auxiliá-lo na conclusão de seu romance The Scarlet Letter. Órfão de pai e criado apenas pela mãe e a governanta,meu amigo tinha uma educação rígida,e um desenvolvido talento para a escrita,permanecendo a maioria do tempo enclausurado em sua casa.Nathaniel fazia parte de um pequeno grupo de famílias ricas de Salém.Descobri posteriormente,que eles tinha total autoridade sobre os mais pobres que ali moravam. 
Cavalguei alguns dias pela estrada  St North,e antes de chegar a área mais povoada de Salém,passei pelo vilarejo ao lado do cemitério St. Marie. Ao chegar a pequena vila,fiquei desolado com o estado de pobreza e abandono em que se achava a população.Encontrei pelas estradas,crianças famélicas,nuas,que mendigavam restos de comida.Nos casebres,todos de palha,centenas de doentes,abatidos pela febre morriam de inanição ,mulheres com vestes esfarrapadas,com crianças no colo,ficavam esquálidas sentadas a porta de suas casas,talvez a espera de um mísero pedaço de pão jogado por algum viajante que por ali passava.O
Quadro de miséria era imenso,e assustador.A palavra alegria era desconhecida, tão profunda e invariável era a infelicidade humana naquele local.
Depois de longa a fatigante viagem,parei para um forçado descanso de alguns minutos,pois eu e minha montaria precisávamos de água para chegar até Salém . Observei com alguma estranheza que as cabanas da cidade,todas em estado demasiadamente miserável,devo acrescentar. Eram rodeadas por  estacas, e nelas presas com retalhos de trapos,pequenos crânios,parecendo-me ser de algum animal de pequeno porte.Perguntei curioso a um ancião andrajoso e trôpego que aproximou-se,a razão de rodear as casas com algum tipo de amuleto tribal.
Contou-me enquanto caminhávamos vagarosamente  para a poço que havia no centro do vilarejo,única fonte de água dos habitantes daquele estranho lugar.Os crânios colocados em estacas eram de lobos mortos pelos moradores do local,e serviam para afugentar os maus espíritos e as bruxarias.Segundo o longevo morador,durante a noite espíritos vagam pela região,em algumas ocasiões,buscando comunicar-se com alguém.
Após algum tempo cheguei ao meu destino, A noite estava muito escura,no céu poucas estrelas. O vento,com rajadas fortes,varria as ruas desertas,seu som,soava como o uivar de um animal faminto,em busca de sua caça.Não foi difícil encontrar a casa de Nathaniel ,era um belíssimo chalé de madeiras escuras,contrastando com as cabanas cobertas de pobreza que espalhavam-se por toda vila.
Fui recebido calorosamente pelo anfitrião,e juntamente com sua mãe Salett,jantamos e trocamos boas hilaridades,para que então fosse eu conduzido ao aposento que traria descanso a meu corpo extenuado pela viagem.Uma forte tempestade de Nordeste, fez-se sentir durante toda a noite e atirou contra minha janela  galhos dos ciprestes que haviam próximos a casa.Sua força era  tanta que cheguei a recear que as janelas  romper-se-iam a força dos ventos.Devo dizer que foi uma noite um tanto quanto agitada,onde pouco foi o tempo em que consegui dormir.
Na manhã seguinte,ao sairmos na praça central do vilarejo,presenciei algo eu me fez acreditar que a severidade dos métodos estão muito alem daqueles suportáveis pela raça humana.Na praça localizada no centro do vilarejo,um jovem,creio eu, estar ele nos seus vinte e poucos anos,era chicoteado severamente por um representante do comitê de justiça local
( se é que isto pode ser chamado de justiça).
Ao perguntar a Nathaniel o motivo,disse-me ele...
---Este homem roubou um carneiro,foi pego quando levava o animal para  casa.
Homens e mulheres,algumas delas usando toucas,talvez para esconder o rosto ,assistiam ao teatro de horrores que ali era apresentado,e sorriam e gritavam enquanto o chicote fazia sangrar as costas do infrator.Um homem com uma vasta capa escura e chapéu com abas largas,que quase ocultavam-lhe o rosto,se fazia presente e reverenciado pelos delirantes expectadores,era o reverendo Pricce,a maior autoridade de Salém.
Quando personagens como aqueles tomavam parte no espetáculo,
sabendo não haver risco à autoridade ou à reverência devida a seus cargos e posições, era seguro concluir-se que a execução de uma sentença pública ganharia grave e eficaz significação,mostrando a todos a força da igreja e de seus membros.
Mas seria ele,realmente merecedor daquelas homenagens tão fervorosas durante um castigo tão desumano  ?
Não haveria,por acaso,um exagero em gravar o nome deste homem com a epigrafe dos escolhidos por Deus
A cena não deixava de causar certo horror, como deve ser sempre que se
está diante de julgamento de culpa,vergonha e castigo infligido a outro ser humano, é uma pena que a sociedade em questão se tenha deixado corromper suficientemente a ponto de sorrir, em vez de se arrepiar, diante dela.O escárnio dos aldeões,com certeza,será castigo maior que as próprias chibatadas que sangravam as costas do penalizado.
Permanecemos o restante do dia na biblioteca de Nathaniel,um local onde centenas de livros ficavam dispostos em prateleiras que cobriam as paredes de pedra que rodeavam a sala.Enquanto fazia a leitura de sua obra,que ainda estava inacabada,o jovem escritor contou-me de sua intenção de mudar-se para Boston,e com a influência de sua família,poderia galgar uma carreira política.Já era noite quando sua mãe bateu delicadamente a porta,chamando-nos para jantar.
O jantar foi primoroso,pato ao molho de laranja,vinho tinto seco e mouse com as frutas do pomar da senhora Salett.
Em seguida fui direto aos meus aposentos,pois pretendia ter uma serena noite de sono.Mas estava muito enganado.Em poucos minutos adormeci,e em sono profundo,um devaneio invadiu meu subconsciente,estava em um vale repleto de árvores...em uma estrada cercada por grandes acácias,e lá...no final da estrada estava ela...Aurora.Em meu delírio ela retornou,com sua beleza singular e olhos brilhantes como rubi,os ombros cobertos por um fino manto de seda rosa,e um delicioso perfume de jasmim.Mesmo sabendo estar naquele momento,distante da realidade,apenas um sonho,era maravilhoso poder estar com minha falecida esposa novamente,mesmo por breve instantes.
Pela estreita trilha que se distanciava cada vez mais por entre as árvores,ela seguia lentamente, como se a convidar-me a segui-la,sorrindo a demonstrar uma alegria carinhosa ao ver-me.Era um momento quase indescritível .
O que até então nunca passara de mera utopia,agora se materializava diante de meus incrédulos olhos,aquela que por muitas vezes fez meu coração transbordar de felicidade,estava a alguns passos de mim .
Mesmo distante,ouvia a  meiguice de sua voz.    
---Senti sua falta Timoty. Dizia-me ela
Mesmo sendo uma loucura extrema,gostaria que ela ficasse comigo,era insano de minha parte crer que minha amada esposa poderia voltar dos mortos para falar comigo...mas ali estava ela ...bem diante de mim.
---Sinto tanta saudade...não acredito no que esta acontecendo. Respondi.
Havia, porém, períodos em que a cena toda,parecia desaparecer diante de meus olhos, ou ao menos vacilar indistinta à minha frente, feito um amontoado de imagens espectrais delineadas de forma imperfeita.A imagem foi aos poucos desfazendo-se.
---Aurora...Aurora...não vá. Implorei aos gritos.
Ao escutar-me, Nathaniel foi até meu quarto e abriu vagarosamente a porta, chamou-me, primeiro em voz baixa e sem fechar a porta,entrou silenciosamente mas não obteve qualquer resposta;não consegui pronunciar uma só palavra, fechou depois a pesada porta e falou-me num tom mais alto, e ainda mais alto, mas eu estava entorpecido. Precisava de algum tempo para dissipar toda a confusão que havia em minha mente.
Sentei-me na cama com o coração palpitando de impaciência, comecei a procurar os fósforos e as velas.Esquecendo por completo a presença de  Nathaniel que segurava um lampião.Lembrava-me vagamente de os ter guardado em qualquer parte, antes de adormecer,  Deveria ser  perfeitamente capaz de me lembrar do local preciso onde os tinha deixado. Mas agora era em vão que me esforçava por me lembrar,estava atordoado. Uma inquietação indefinível pesava em meu espírito já um pouco perturbado.Procurei,mas confesso que sem êxito algum,dominar a sensação de temor que me invadia.
--- Timoty...esta tudo bem?  Perguntou Nathaniel.
---Sim..creio ter passado por um pesadelo,ou sonho. Respondi.
Meu corpo e minhas vestes estavam encharcados de suor,sem  forças para levantar-me,deixei-me cair na cama novamente,e creio eu,ter adormecido  até o amanhecer.
No dia seguinte muito pouco foi meu auxílio a Nathaniel,embora seus esforços em levar-me novamente a conhecer Salém,e expressar seu contentamento por ter-me como apreciador de sua obra,mesmo ainda inacabada.Nada afastava de meu pensamento a figura de Aurora,Como se a dizer-me “Estou bem,fique comigo”.
Fomos até a paróquia de Pricce,Em uma tela pintada na parede,a imagem de Jesus segurando um coração em suas mãos,chama-se “meu coração divino”.Segundo a história,Jesus veio até Margaret Mary,seu coração tão cheio de amor,que não podia mais conter as chamas da caridade.
Margaret Mary,tomada pelo amor divinal,suplicou ao senhor que tirasse seu coração,e assim ele o fez,colocando ao lado do seu,até queimar com as chamas da paixão.Após isto,ele o devolveu a Margaret Mary,fechando seu ferimento com o toque de sua abençoada mão.
Lembrei-me imediatamente da morte de minha Aurora,quando meus dedos trêmulos de amor,cerraram suas lívidas pálpebras.
Tento não pensar a uma época anterior a esta,procuro focar só no que vejo e conheço agora.O passado é um sonho,ou pesadelo,do qual desperto todas as manhãs.E busco conciliar o que sou com o que realmente gostaria de ser,ou ter.
O dia parecia retardar-se a anoitecer,eu poderia estar insano por conjeturar tal possibilidade,mas queria,mesmo na imaginária nuvem dos sonhos,estar mais uma vez com ela.
E assim sucedeu-se,até que dias e noites tornaram-se iguais para mim,ficava permanentemente em meus aposentos,com a ausência do sono,uma bebida era o caminho para entorpecer meus sentidos,e levar-me mais e mais ao encontro de minha amada.
Descuidado com a alimentação,e ingerindo grande quantidade de bebidas,fui tornando-me demasiadamente debilitado,e por vezes como louco demente,tinha estapafúrdios devaneios,o que fez Nathaniel  escrever a minha irmã Sandra Elisabeth,em Black Rivers Falls,solicitando sua presença.Para meu amigo,eu havia enlouquecido completamente .
Era extraordinariamente lindo os momentos que passava com Aurora,sentimentos magníficos afloravam a cada momento naquele bosque,como se a muito já estivéssemos lá.A realidade para mim era indesejada,queria eu permanecer naquele divino sonho.
Alguns freudianos acreditam que o déjávu representa lembranças reprimidas escapando do inconsciente e que significam um desejo de ter uma segunda chance,de corrigir algo,em algum lugar.Era o que eu tinha naquele momento,uma segunda chance.
Quando Sandra Elisabeth chegou a Salém,depois de uma longa viagem,juntamente com o Dr. Hyde,meu estado já era bastante crítico.Mas dentro daquele moribundo corpo estava um coração repleto de sentimentos a muito não experimentados,alegria,felicidade,paixão.
Em meus raros momentos lúcidos,relatei os fatos que me levaram a preferir a inebriante inconsistência dos sonhos,do que a fria e melancólica realidade.
Talvez na próxima noite,que já se aproxima,possa eu, em definitivo,estar junto com quem mais amei ,e amarei,por toda vida.
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Atualizado em: Ter 4 Jun 2019

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