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Trago seu amor de volta em três dias

Mateus se transformou com a morte da noiva.
O sorriso fácil acabou em seu rosto depois daquilo tudo.
Uma mulher tão jovem e bonita,  morrer daquela forma, realmente era uma estupidez!
Nesta desgraça, Mateus  passava dia após dia, no trabalho os colegas ouviam seguido ele resmungando sozinho pelos corredores.
O casal já havia até recebido os presentes de casamento  e ele até tentou devolvê-los, depois de tudo..
Afinal, eletrodomésticos sempre são úteis, todos  amigos do casal se justificavam para ele, sem aceitar a devolução.
Mas há amigos e amigos, e Lucas era amigo realmente de Mateus.
Ele próprio não aceitava a infelicidade estampada no amigo, o cara parecia estar  morto, ele pensava consigo mesmo. Afinal, tudo ficara tão bem entre Mateus e Gilce depois que ele dera aquele jeito.
Não devia ter acontecido aquela infelicidade na vida do amigo, era a conclusão de Lucas.
No fim de semana seguinte eles iriam pescar num lago próximo, onde havia camping com cabanas, um lugar simples mas seguro, bem freqüentado e muito bonito.
Lucas inventara aquele passeio, a fim de alegrar o amigo, pois a vida devia continuar ele pensava.
Cedo saíram e no caminho falaram de tudo, menos da tragédia de Gilce.
Em volta da estrada haviam muitas plantações o que tornava o caminho muito alegre. Pararam então num boteco onde vendiam coisas do local, frutas, pão feito em casa, cachaça artesanal e rapadura.
Imediatamente Mateus passou a mão em duas cachaças e mal entraram no carro ele se serviu de um gole, sob o pretexto de ver se era “das boas”.
Lucas não bebia e sabia que logo Mateus iria estar “daquele jeito”!
Não deu outra... 
Porém logo chegaram ao camping.
Mateus descarregava o carro e disse que iria achar iscas, nisto Lucas tratou de esconder a outra  garrafa na sacola de roupas, diria que não tinha visto que a garrafa estava ali, caso o outro ficasse bravo.
Fizeram um lanche providencial com o pão comprado no boteco e uma lata de atum e saíram a andar até o lago.
Haviam outras pessoas e até algumas poucas crianças, mas eram em cabanas bem mais afastadas a cabana deles.
Mal chegaram no lago Mateus começou de novo a falar de Gilce.
Lucas como bom amigo, ouvia tudo.
- Sabe Lucas,  disse Mateus, não sei porque ela voltou depois daquela briga. Afinal  acertamos amigavelmente, que não iria dar certo ficarmos juntos e que após devolveríamos todos presentes, ela ficou encarregada disto.
Lucas apenas ouvia tudo. Mateus tinha a voz embargada pela bebida e se limitava a olhar para a água do lago enquanto falava e tomava o que restava da cachaça.
Ele continuou contando a Mateus a história toda da briga e que após três dias da separação combinada, a mulher simplesmente não parava de ligar para ele. Que  depois de cansar  de ouvir o telefone tocar sem parar,  ele o atendeu e Gilce não parava de gritar que tinham que voltar,  que  ela o amava, que não podia ficar longe dele.
Realmente mil coisas um tanto sem nexo.
Lucas então disse a Mateus: - Mas você não queria que ela voltasse? Afinal foi o que você me disse aquele dia depois dela ter saído de casa.
- Eu sei Lucas, foi o que eu disse - Mateus respondeu - mas no fundo eu já tinha outros planos na minha vida. Já havia outra pessoa no meu  caminho e aquilo, de ficar se prendendo a Gilce e aceitar dela voltar... foi um erro. Um grande erro -  Mateus afirmou.
- Eu aceitei que ela voltasse, mas mal ela entrou em casa de novo, e as brigas começaram. Ela estava muito diferente, parecia estar sendo obrigada a ficar ali e de repente ficou furiosa e começou a quebrar tudo. Eu queria que ela parasse com aquilo.
Lucas então começou a realmente prestar atenção no que ouvia. Porém, a noite chegava e uma tempestade de verão havia se formado e os ventos fortes já levantavam as areias, sacudindo tudo. Tinham de voltar logo.
Mateus mal entrou na cabana e foi procurar a outra garrafa.
Por azar foi de cara na sacola e de cara  arrematou um gole e começou,  novamente toda a cantilena a respeito de Gilce.
- Ah, amigo, eu queria que ela voltasse, mas não queria. E  agora vivo neste inferno, dizia Mateus sem parar.
- Ora vamos dormir, isto acabou. Daqui a pouco apagam as luzes e nós sequer tomamos banho ainda, disse Lucas.
Mateus deitou na cama como estava de tão tonto da cachaça, mas não parava de falar na noiva.
- Não quero dormir,  porque toda vez que fecho os olhos vejo ela.
- Aqui dentro? - disse Lucas.
- Não, na  minha casa. Ela entra depois das 3 da manhã, vejo seu vulto e sinto seu cheiro,  parece procurar algo.
Agora sinto ela aqui. Só que não é a  Gilce, parece ser  “outra coisa”, mas na forma dela.
Lucas ouvia muito atento agora e então sentiu um aperto na garganta. 
Ele então chegou bem perto de Mateus e disse a ele:
- Amigo, tenho algo muito grave para  te confessar.
Fala então, o outro se limitou a responder.
- Sabe aqueles anúncios de jornal que afirmam " trazer o amor de  volta em três dias”?
- Aquelas bobagens- afirmou Mateus.
- Sim, respondeu Lucas,  só que desta vez  não foi bobagem.
-Quando você e a Gilce se  separaram, você não parava de reclamar disto, eu fiquei muito triste com tudo aquilo e quis te ajudar.
Mandei o cara do anúncio, que foi um amigo meu de infância  fazer o “serviço” e realmente ela voltou.
Mas não era para ser do jeito que você me contou agora.
- Lucas, você nunca devia ter feito isto sem falar comigo, Mateus afirmou na sua embriaguês.
- Eu sei disto agora, mas eu não pensei por mal entende?
Mateus então sentou na cama e disse:
- Eu também tenho de te contar algo, a morte dela não foi totalmente acidental, enquanto a gente brigava ela correu para a  porta com uma faca, não queria me deixar sair, mas  me desviei dela, porque ela estava doida e certamente ia me meter aquela faca. Eu não entendia aquilo, porque ela  mesmo pediu para voltarmos.
Então quando me desviei dela a porta já estava aberta e  ela escorregou no tapete da porta,  caindo pela escadaria do sobrado.
Ninguém viu a faca,  porque  ela deixou cair. Eu então escondi a faca, mas  foram os degraus de pedra que esfacelaram sua cabeça na queda.
Assim,  a policia nunca iria pensar que foi de uma briga que tudo resultou.
- O quê? - disse Mateus- Então houve luta entre vocês?
- Houve só discussão da minha parte, mas ela estava doida, parecia drogada, sei lá.  Jamais tocaria nela. Eu apenas quis fugir daquela loucura dela naquele momento. E daí... - Não tenho mais nada a dizer então.
- Então você não é culpado de nada amigo, encerrou  Lucas.
- Ninguém teve culpa realmente, eu acho, disse Mateus, mas de certa forma você e eu erramos com ela.
Finalmente Mateus dormiu, enquanto ainda dizia coisas sem sentido.
Lucas então foi tomar seu banho e quando voltou a luz apagou e  ele então também foi dormir.
A noite ficara medonha e quando a madrugada chegou, Lucas ouviu barulhos na porta da cabana, parecia que alguém estava forçando a entrada.
Ele ficou assustado e chamou Mateus que não conseguiu se acordar de tão bêbado.
De repente a porta “explodiu” e na chuva surgiu a figura de alguém muito escuro, Lucas olhou aterrorizado viu que era Gilce. Estava vestida de noiva, fora enterrada assim, por insistência de sua própria mãe.
- Lucas -  o espectro terrível berrava -  olha o que eu trouxe para você -  ria sem parar, mostrava uma faca de cortar pão nas mãos escuras.
Nas mãos da “coisa” também havia um boneco de barro, mas estava todo quebrado, Lucas notou apavorado.
- Foi por sua culpa que eu morri, berrava o medonho fantasma de Gilce.
Lucas desesperado saiu correndo da cabana e na pressa caiu, escorregando pelo barranco junto a casa.
Mateus acordou após às 13:00 horas e foi então  procurar por Lucas, mas viu que em volta da cabana  uma multidão estava se formando.
- Que foi que aconteceu? Mateus  perguntou a um homem que estava parado olhando tudo.
O homem disse a ele que um dos policiais havia dito que as crianças tinham achado um homem morto no fim do barranco e que provavelmente teria  escorregado na lama por causa da chuvarada e caíra sobre uma faca de cortar pão que tinha nas mãos e tinha morrido.
Mateus então correu para tentar ver quem era e  deu de cara com Lucas que já  estava sendo removido.
- Imediatamente falou com a polícia, explicando que estava ali com Lucas, que era seu amigo, que nada vira porque tinha bebido demais.
Ele  só se lembrava de ter sonhado com Gilce e de ter ouvido risadas medonhas.
- Mas que azar hein, disse o policial, mesmo assim o senhor terá de seguir conosco, pois embora ele tenha morrido em decorrência de ter caído sobre a  faca,  ele tinha nas mãos algumas coisas  muito estranhas.
- O que?- disse Mateus- muito angustiado.
- O cadáver tinha firmemente seguro na mão direita um pedaço de tecido, daqueles que as mulheres usam para fazer véus de noiva e também  um pedaço de algo que parecia uma perna de uma boneca de barro.
Mateus imediatamente lembrou da confissão de Lucas, do tal anúncio e da faca e então começou a  gritar.
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Atualizado em: Qua 13 Nov 2019

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