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Viagem

- Uma caninha!
Veio o copo americano e o líquido incolor. A rodela de limão balançou por alguns instantes sobre o balcão sebento. Na parede, a gaiola e o passarinho. Um canarinho amarelo, muito vivo, de trinados graciosos. Meio-dia. Soprou lá fora um vento forte que levantou uma poeira vermelha que avançou como uma bruma veloz, escarlate.
- Êta porra...
Era o dono da vendinha que levantou para ir encostar uma das portas para que aquela poeira desgraçada não encardisse o pano verde da mesa de bilhar. Sombra no banco vazio de madeira. Réstia de sol na parede azulada. A geladeira amarela roncou mais forte e o escudo do Flamengo até tremeu.
- Uma tira dessa mortadela aí...
Peixeira ágil, o rolete bojudo escorregou para dentro do prato. Mais limão. Farinha? Não, com um gesto de mão. Cortou dois pedaços e enfiou-os na boca com voracidade usando o garfo de cabo plástico azul. O terceiro mastigou com método. Mordidas firmes. É que a fome tinha diminuído.
Então entornou a aguardente com um gesto valente. Os dedos tremiam quando colocou o copo sobre o balcão. Na cara, uma careta. Torcida, exagerada, quase teatral. Esticou-a mais adiante porque foi aí que lembrou de Beatriz.
- Infeliz...
...E lembrou que ela embarcou no ônibus toda fagueira no início da manhã lá no ponto do Açude dizendo que a viagem era longa porque São Paulo ficava distante e ela ia chegar lá muito cansada; foi um acontecimento aquele guardar de coisas no bagageiro porque além da mala graúda iam lembranças para os parentes na Zona Leste e mais doces de umbu e requeijão e aquele doce de banana empalhada que o sogro da cunhada tanto elogiava; beijou-o com ruído e subiu no ônibus muito afogueada quase atropelando o casal de idosos que esperava o motorista conferir a passagem para que pudessem embarcar.
- Boa viagem!
E ele sisudo. Meneando a cabeça, traço duro no lábio. Possesso.
Cunhada recém-parida, concunhado desembestado em obra lá no Sul, sogra com reumatismo e artrose, filhos menores correndo pela casa, distância para tudo naquela cidade enorme; quando voltaria? Mencionou sem exatidão um retorno para dali a dois meses quando a criança estivesse maiorzinha e o cunhado retornasse da empreitada e, com dinheiro, quem sabe, pudessem pagar alguém para ajudar a olhar o recém-nascido e os filhos menores que aporrinhavam feito o diabo; mas não poderia dar certeza porque também dependiam da saúde da velha que talvez não melhorasse e que, às vezes, precisava de ajuda até mesmo para tocar a rotina de casa, então não havia lá como estabelecer com muita precisão uma data de retorno; de qualquer forma ela achava que ele poderia ir se virando sozinho durante esse período e logo ela estaria de volta, bem antes das festas de São João, se desse tudo certo desembarcaria logo no começo de junho.
- Hum.
E Beatriz partiu. E ele veio molhar a garganta, mastigar o tira-gosto, arejar as ideias. Lá fora o vento empurrava a nuvem de pó. Ali dentro o canário cantava que dava gosto. Uma grossa camada de teias de aranha se acumulava na prateleira, no alto. Ali tinha de tudo: óleo, sabão em pedra, fósforo, sardinha em lata, biscoito, molho de tomate, aguardente, leite em pó, açúcar, macarrão, biscoito, café. Feijão, arroz e farinha ficavam embaixo, nos sacos de sessenta quilos.
O ônibus já rodava era distante, se brincar estava chegando lá em Milagres, parando para almoçar por causa do horário, aquela multidão andando pelo ponto de apoio, comendo, bebendo, telefonando, comprando e pagando, ralhando com criança, apreciando os produtos nas vitrines, conversando na plataforma de embarque, entretendo-se com os letreiros que indicavam lugares distantes com destino ao Rio de Janeiro ou a São Paulo. E Beatriz lá no meio daquela confusão, sorrindo, examinando os viajantes, almoçando, encantando-se com as mercadorias, puxando conversa com os passageiros porque ela era de muito papo. Se brincar, já entabulara conversa com algum matuto pelo caminho e...
- Outra – exigiu mostrando o copo.
Ela que não fosse maluca de fazer uma desfeita daquelas com ele, que sempre fora um sujeito correto ali em Itaberaba e não aceitaria uma falseta, uma traição, uma facada nas costas, que era bem isso; mas como é que ele ia saber de qualquer coisa? Ela estava indo lá para São Paulo, um romance no ônibus, ou lá mesmo quando chegasse jamais ele ia ficar sabendo; não ia ser a cunhada, irmã dela, que ia deixa-lo a par de uma desgraça dessas; se ele soubesse de alguma coisa bem que teria coragem de fazer uma sandice porque quando ficava com raiva, às vezes, não se controlava...
Besteira. Ela ia era ficar com o sobrinho novo. Nem ia sair tanto. A garoa prateada, o céu plúmbeo, o concreto cinza, a multidão sisuda, ela pouco ia ver. Rotina chata: o choro do bebê na madrugada. Os meninos maiores gritando pela casa. A sogra da cunhada, rabugenta, reclamando. E ela nessa lufa-lufa o dia todo. Pouco tempo para diversão. Talvez nem fosse ao centro, à 25 de Março, ao Brás, ao Bom Retiro, àqueles lugares de venda de roupa e bugiganga de casa. Ficou até enternecido quando entornou a segunda dose de uma vez.
- Mais uma...
Agora, que ela embarcou no ônibus quase alegre disso ele não tem dúvida nenhuma. Talvez não estivesse nem alegre, mas triste, pesarosa pelo tempo de ausência, corroída desde já pela saudade, também não estava porque ele via pelo olho que brilhava. Liberdade. Sim, era liberdade, uma trégua o que ela estava conquistando, ia passar uns meses sem aquela rotina insípida de dona-de-casa, lavando, passando, cozinhando, arrumando, esperando o retorno dele do trabalho com as refeições sempre prontas e a casa em ordem. E o resto também era sempre muito chato, a mesma rua estreita, empoeirada, de paralelepípedos desalinhados, a vizinhança curiosa, só a missa aos domingos, a pizza na praça nas noites de sábado, uma festa eventual eram o que quebrava aquela rotina.
- Vida besta...
Na quinta dose, da mortadela só restavam fiapos. Moscas sobrevoavam o prato. No canto, as bandas dos limões espremidos. No balcão, algumas gotas do limão. E sempre as moscas em rasantes, profanando o silêncio com o zumbido nojento. O vendeiro lá para dentro. Pratos batendo. Provavelmente, almoçava.
Foi aí que o torpor do álcool provocou aquela sensação de liberdade. Sim, estava livre. A mulher, viajando. A casa, vazia. O tempo, à disposição. Quando pensou nisso até percebeu que a luz estonteante do dia entrava pelas frestas do telhado, dispersando aquela semiescuridão que até oprimia. Nem fazia esse calor todo: uma insuspeita brisa soprava, dava uma sensação de prazer pelo corpo.
Lembrou de Dalva.
Sim, havia Dalva, uma dos olhos amendoados. Ia visita-la. Não a via há tempos. Estava livre. A mulher, àquelas alturas, no rumo de Jequié. E ele, livre. Chamou o vendeiro com voz decidida, pagou a despesa miúda e tomou o rumo do Jardim das Palmeiras.
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Atualizado em: Dom 17 Mar 2019
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