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JOÃO ROBERTO E MARIA ESTELA, UMA HISTÓRIA DE AMOR EM SEIS MIL PALAVRAS PARTE FINAL

A saudade é um sentimento que só quem ama de verdade e perdeu o ser amado pode dimensionar a profunda e aguda dor que ela provoca.
É um sentimento que se esconde em datas importantes; em lugares que com ele visitou e até mesmo em pequenos objetos do dia a dia que fizeram parte do seu cotidiano. Quando menos se espera, a saudade nos ataca como feroz predador e nos faz em pedaços com suas garras de aço. Betinho era alvo desse sentimento que o retalhava todos os dias
O sorriso era algo que desaparecera de vez de seu jovem rosto.
Depois do funeral de Estela, todos concordaram que seria melhor que ele voltasse para a casa dos pais, pelo menos até que se recuperasse.
Betinho voltou a ocupar seu quarto de solteiro. Tudo estava como havia deixado, apenas ele é que mudara. Aquele jovem feliz e cheio de sonhos que ali habitou já não existia mais. João Roberto era agora um homem triste e amargurado. A saudade de sua amada lhe sangrava o peito todos os dias. Mas ele não reclamava nunca e nem ficava chorando pelos cantos. Nem descontando sua dor no mundo que continua sua marcha, indiferente. Apenas se encolhia dentro de si e amargava sozinho a dor que ninguém jamais entenderia.
Por insistência do pai e do irmão, voltou a trabalhar na oficina para se distrair. O trabalho ajudou para que os dias fossem menos pesados. Mas, quase toda tarde, depois do expediente, ele pegava seu carro e ia para o cemitério em Torrinha e sempre deixava uma margarida ou uma rosa sobre o túmulo da amada onde derramava grossas lágrimas.
Em certos dias, Betinho sente a presença de Estela a seu lado, e é tão real que até o cheiro dela parece lhe invadir as narinas. Esta sensação provoca-lhe o saboroso sentimento de alívio em meio à tormenta. Era como uma brisa fresca no calor do deserto e ele quase consegue sorrir. Mas esta sensação dura apenas alguns momentos. A realidade não demora a atingi-lo com um soco na boca do estômago. Quando percebe que estão separados e nunca mais poderá abraça-la, beija-la ou passar horas conversando animadamente como faziam, o desespero vem mais forte e é quase impossível conter as lágrimas.
Muitas vezes os amigos o convidaram para sair, ir a festas, na esperança de animá-lo. Ele até tentou conhecer pessoas novas, descontrair, mas não conseguiu. Ele sabia que o mundo continuava lindo, mas não se sentia pleno para curtir esse mundo. Um pedaço lhe faltava, e esse pedaço era Estela, seu único e grande amor.
Certo dia, ele não apareceu na cozinha para o café da manhã. Seus pais estranharam, pois Betinho nunca perdia a hora.
Dona Odete foi até ao quarto do filho e bateu de leve na porta. Chamou por ele, mas não obteve resposta. Girou a maçaneta e a porta se abriu. Ela viu o vulto de João Roberto e ele parecia dormir. Dona Odete o chamou pelo nome uma, duas, três vezes e nada. Ela então acendeu a luz e percebeu na hora que algo estava errado, pois o filho estava deitado na cama e parecia dormir serenamente, mas percebeu, com horror que ele não respirava. Em completo desespero, ela gritou pelo marido que, imediatamente, correu até lá e constatou, com profunda dor, que o filho estava morto. Mas, por ironia do destino, seus lábios estampavam um leve sorriso. Sorriso que desaparecera de seu rosto desde que a amada falecera.
Nos primeiros momentos, pensaram na hipótese de suicídio, mas logo descartaram essa ideia, pois nenhum bilhete de despedida foi encontrado e nem vestígios de algum tóxico que ele pudesse ter ingerido para provocar a própria morte.
O laudo da autópsia dizia que Betinho viera a óbito entre três e quatro da manhã vitima de parada cardíaca aos vinte e dois anos de idade. Mas o que nunca mais saiu da cabeça de seu Sebastião e dona Odete, foram as palavras de um médico amigo da família que primeiro atestou o óbito:
—“Foi como se o coração dele, de repente, se recusasse a bater. Como se tivesse decidido que tinha chegado a hora de parar e, simplesmente, parou. Sem dor, sem desespero, sem agonia, simplesmente silenciou. Eu nunca vi nada parecido”. — Completou o doutor.
Então, todos tiveram a certeza de que Estela cumprira a promessa e viera buscar o marido. E há exatos seis meses da morte de sua amada, Betinho deixava esta vida.
Seu Sebastião e seu Jerônimo acharam por bem coloca-lo com a esposa e João Roberto foi sepultado no túmulo da família Bueno. Seu caixão foi colocado na gaveta ao lado de Estela onde os dois puderam ficar juntos novamente. E, em cima do túmulo, foi afixada uma placa de bronze com os dizeres:
“Aqui jazem, João Roberto Ferreira e Maria Estela Bueno Ferreira. Jovem casal ao qual nem a morte conseguiu separar. Paz aos filhos queridos.”
Ainda hoje, de quando em quando, surgem relatos de pessoas que juram ter visto, em alta madrugada na praça da matriz, um jovem casal de namorados caminhando de braços dados e sorrindo felizes. Ela traz na mão uma margarida e ele traz olhar sereno. Depois desaparecem em um faixo de luz caminhando para a eternidade. 
Assim, cumpre-se a lenda que diz: “Não importa o que façam nem a dor que possam vir a sentir, as almas gêmeas estão destinadas um ao outro pela eternidade.”
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Atualizado em: Dom 10 Fev 2019
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