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JOÃO ROBERTO E MARIA ESTELA, UMA HISTÓRIA DE AMOR EM SEIS MIL PALAVRAS PARTE 2

O clube está lotado. Do lado de fora já se pode ver a agitação da garotada e ouvir os primeiros acordes quando a banda começou a tocar Shout da banda Tears For Fears. Betinho e Marcelo estão ansiosos pagando as entradas na bilheteria.
—Nossa, cara, olha quanta gatinha. Hoje, com certeza a gente não sai sozinho daqui. — Fala Marcelo eufórico. Betinho apenas ri.
Os dois entram no salão e vão até o bar. Betinho tenta comprar uma cerveja, mas o barman se recusa a lhes vender sem que eles apresentem a carteira de identidade para provar que são maiores. Enfim, depois de insistir um pouco, mas sem sucesso os dois rapazes são obrigados a se contentar com uma coca cola mesmo.
O som que está rolando agora é Save a Prayer, do Duran Duran, banda favorita de Betinho. Ele caminha em direção da pista de dança delirando com a música e dá a impressão de que vai dançar, mas para no meio do caminho quando vê duas garotas do outro lado da pista. Elas estão juntas e vasculham atentas a todo o salão com o olhar curioso, até que o olhar de uma delas se cruza com o dele. Os dois se encaram fascinados por algum tempo e depois se desviam rindo encabulados.
—Marcelo! Você conhece aquelas meninas lá do outro lado? — Pergunta ele parecendo atordoado.
O amigo olha, disfarçadamente e, em seguida responde.
—Não conheço não.
João Roberto sente um arrepio na espinha e um frio no estomago e não consegue parar de olhar. Ele tenta, mas uma atração muito forte arrasta seus olhos naquela direção e seus olhares se cruzam uma, duas, três vezes em meio à multidão que dançava entre eles. Era como se, de repente, não existisse mais nada nem ninguém interessante naquele salão, apenas aquela moça de cabelos negros que sorri a cada vez que seus olhos se cruzam. Uma vontade enorme de conhecê-la o invade.
Estela sente seu coração aos pulos. Irresistivelmente seus olhos buscam os daquele rapaz do outro lado do salão. Ela sente alguma coisa estranha dentro de si, alguma coisa estranha e gostosa e que nunca sentira antes. Era um sentimento novo ao qual ela não sabia descrever, mas era muito bom.
— Tá vendo aqueles dois lá do outro lado, Marta? — Diz ela puxando a amiga pelo braço e apontando, disfarçadamente.
—Nunca vi, mas são gatinhos, hein. — Decreta a amiga.
Aquele sorriso o conquista. Aquele olhar a fascina.
Os acordes que começam a flutuar no ar agora são os da música Lover Way da banda Century, música romântica sensação do momento nas paradas musicais. A molecada vai ao delírio.
— Vem, Marcelo, eu vou tirar a de cabelos pretos pra dançar e você tira a amiga de cabelos loiros.
— Pra já, amigo, vamo lá. —Responde o rapaz, eufórico.
Esta foi uma jogada esperta de Betinho, pois com o Marcelo tirando a amiga dela pra dançar ela não teria como recusar.
— Oi! — Diz ele.
—Oi! — Responde ela sorrindo. O coração dos dois dá coices no peito.
—Quer dançar? — Diz ele estendendo a mão a ela.
Estela sacode os ombros e responde.
— Claro.
Os dois caminham para o meio da pista. Betinho pousa, delicadamente as mãos sobre a cintura dela, enquanto ela coloca as mãos sobre os ombros dele. Seus corpos balançam lentamente ao som da música romântica.
— Como é seu nome, moça bonita? — Pergunta ele.
— Estela, e o seu?
— É João Roberto, mas pode me chamar de Betinho.
— Você é brotense né, Betinho?
— Sou! Como você sabe? Já me viu em Brotas?
— Não. Conheci pela cara.
— Hum, então se conhece um brotense pela cara. E qual cara tem um brotense?
— De bobo. — Diz ela e ri gostosamente. — Desculpa, eu não resisti, você não tem cara de bobo não, é brincadeira. Me perdoa?
Os dois riem.
— Eu sei que não tenho cara de bobo, mas fiquei com cara de bobo quando te vi. Você é muito bonita, moça, qualquer um fica com cara de bobo quando te vê.
Ela cora.
— Você tem namorado, Estela?
— Ainda não. — Responde ela.
 A garota se recosta sobre o ombro dele. Suas mãos se cruzam sobre a nuca de Betinho que, por sua vez a estreita em seus braços e se embriaga ao sentir o cheiro extremamente bom de seus cabelos.
Estela sente-se muito bem ao aconchegar-se ao peito dele, sente como se já o conhecesse há tempos.
A música acaba, mas a banda, sabiamente para manter o clima romântico para os casais que dançam abraçadinhos, já emenda a música Drive, da banda The Cars.
Sem conseguir resistir, ele levanta sua mão direita e começa a acariciar aqueles cabelos sedosos. Ela curte aquele carinho e seu coração dispara. Estela então desencosta de seu ombro e o fita nos olhos. Ela se sente segura naqueles braços.
— “Como pode uma menina linda como você não ter namorado?”— Pensa ele afastando, delicadamente, o cabelo do rosto dela e lhe acariciando a maçã do rosto que se faz vermelha. “Talvez pela maquiagem...” conclui.
Seus olhos se fitam e a atração cresce entre eles. Estela percebe que um beijo vai acontecer e, apesar de desejar muito isto, não quer que aconteça, não ali no meio de toda aquela gente. Então, num esforço para resistir à tentação de ser beijada por aquele garoto que acabara de conhecer, ela, em um impulso, o pega pela mão e o leva para fora do salão enquanto ele se deixa levar, já completamente entregue àquela garota que o fascina.
— Por que você quis sair? Tava bom lá dentro. — Pergunta ele assim que ganham a rua.
—Lá dentro tava muito cheio, não dá pra conversar direito. Aqui tá melhor. — Diz ela tentando ser dona da situação para que ele não perceba o quão nervosa e atraída ela estava.
Do lado dele não era diferente. Betinho sentia uma revolução de sentimentos aos quais ele jamais sentira antes por nenhuma garota.
Uma lufada de vento gelado os atingiu quando chegaram à praça e ela arrepiou-se. Ele, imediatamente, retira sua jaqueta jeans e a oferece.
— E você? — Pergunta ela antes de aceitar a oferta do rapaz.
—Eu aguento, não se preocupe.
—Meu herói. — Diz ela sorrindo e se deixando vestir a jaqueta.
A praça estava deserta, pois todos estavam no baile e já passava da meia noite. Ao passar por um pé de margaridas ele colhe uma e lhe dá. Ela sorri encabulada.
—Então quer dizer que você ainda não tem namorado?
—Não. O meu pai é muito bravo e não me deixa sair. Tive alguns paqueras, mas nunca namorei nenhum, o meu pai dá medo neles, sabe. — Fala ela rindo.
Neste momento, eles se sentam em um banco da praça e conversam, conversam muito e, quanto mais conversam, mais se sentem atraídos.
Betinho lhe conta seus planos e desejos para o futuro e Estela lhe conta os dela. Eles falam e riem e já não sentem a necessidade de mais nada, além de estar ali e conversar. Tem-se a impressão de que são velhos e queridos conhecidos que não se viam há muito tempo e acabaram de se reencontrar.
Ele a acompanha até em casa, pois já se faz tarde. A casa dela não é longe, apenas algumas quadras descendo a rua e os dois vão de mãos dadas.
Ao chegarem em frente ao portão da casa dela, ele pega a margarida de sua mão e, delicadamente a prende no cabelo de Estela. Sua mão direita lhe acaricia com ternura o rosto como fez no baile. Agora ela sente que vai ser beijada e não há como fugir. Não quer fugir. Então ele a beija, não um beijo furioso e sedento, mas sim um beijo calmo e delicado de quem já ama há tempos. Estela sente-se tremula. Seus ouvidos zunem e suas pernas estão bambas. Ela decide então não resistir mais e se deixa envolver completamente por aqueles braços. Aquele não era o primeiro beijo dela, pelo contrário, já tinha beijado dois ou três garotos antes, mas nenhum foi tão bom como aquele. Nenhum causou-lhe tamanha revolução de sentimentos bons em seu coração. Enquanto, Betinho sente, pela primeira vez em sua vida, que sabe o que quer e o que ele quer é que aquela noite não acabe nunca.
Dizem que quando duas almas gêmeas se encontram, se reconhecem imediatamente. Sabem que são parte um do outro e são invadidos de uma felicidade plena, nascida do amor puro e verdadeiro. Amor que não precisa ser conquistado nem construído, pois já está pronto dentro deles há séculos. Uma vez desperto, esse amor gemina rapidamente e cria raízes como sementes em solo fértil. A partir de então, o imenso desejo de ficarem juntos os acompanhará e crescerá, dia após dia, até que se unam de vez para a eternidade. Era o que estava acontecendo com João Roberto e Estela, só que eles não sabiam disso.
— Eu preciso te ver de novo. — Diz ele fitando-a nos olhos.
Ela permanece em silêncio lhe acariciando o rosto.
— Meu pai não vai deixar. — Diz ela finalmente.
— Eu falo com ele. Se for preciso, eu peço permissão a ele.
Ela ri de um jeito charmoso tapando a boca.
— Você não conhece meu pai. Primeiro é preciso que eu prepare o terreno e converse com calma com ele.
Betinho permanece em silêncio fitando-a a espera de uma resposta mais concreta.
— Tudo bem — diz ela finalmente — amanhã às dez da noite lá na praça, pode ser?
—Pode, eu dou um jeito de vir.
Ambos trocam mais um beijo, ela lhe devolve a jaqueta e entra.
A partir daí, eles combinam de se encontrar escondidos de todos até que Estela encontre oportunidade propícia para falar com o pai.
Então, quase todos os dias, ela pula a janela do quarto depois que o pai sai para o trabalho e corre se encontrar com o namorado secreto na praça onde curtem seu amor proibido.
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Atualizado em: Ter 12 Fev 2019
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