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JOÃO ROBERTO E MARIA ESTELA, UMA HISTÓRIA DE AMOR EM SEIS MIL PALAVRAS PARTE 3

Já fazia um mês que Betinho e Estela se encontravam longe dos olhares de todos. Às vezes nos cantos escuros da praça e às vezes na varanda da casa dela em noite alta, mas foi na casa de Marta que tiveram a primeira noite de amor. Foi quando Dona Aurora (mãe de Marta) e a filha foram viajar para Ribeirão Preto em visita a parentes. Marta, amiga e cúmplice de Estela, deu-lhe a cópia das chaves de casa e, eufórica, desejou sorte à amiga.
Foi a primeira vez de Estela e de Betinho também e foi bom, foi muito bom. E foi bom porque foi pleno, e foi pleno porque havia amor. Mas também trouxe certa dose de angustia ao rapaz que não queria mais se esconder.
— Não aguento mais viver assim, Estela. Não quero mais me esconder como se fossemos bandidos. Quero andar de mãos dadas com você no meio de todos, quero ter uma vida social com você. Quero ir à lanchonete e sentar a mesa com você, Marta e Marcelo. Quero te levar pra conhecer meus pais e quero conhecer os seus. Não aguento mais viver nas sombras. Vou falar com seu pai amanhã. — Decreta ele, enfático.
—Não, por favor, meu amor, se a gente se precipitar em hora errada e meu pai não gostar de você, estará tudo acabado. — Fala ela nervosa demonstrando medo da reação do pai.
—Você me ama, Estela?
— Claro que amo. Mais que tudo no mundo. — Responde ela abraçando-o.
—Então, ele querendo ou não nós vamos ficar juntos, e nada poderá mudar isto. É só uma questão de dizer a ele e pronto.
—Tudo bem, amanhã sem falta eu falo com ele. — Diz ela, nervosa.
— Só preciso que ele aceite conversar comigo. Eu tenho certeza de que seu pai vai gostar de mim. — Completou ele.
—Tomara. — Falou Estela em um suspiro.
No dia seguinte à tarde, seu Jerônimo estava bem humorado e risonho, a gaorta então se encheu de coragem e contou ao pai sobre Betinho e o desejo dos dois em namorar e disse que o rapaz queria conversar com ele.
Seu Jerônimo foi terminantemente contra o namoro e disse que não adiantava nem ele vir lhe pedir pra namorar a filha.
— Esse rapaz não presta, eu conheço a fama dele. O pessoal de Brotas diz que ele vive metido em encrencas, um verdadeiro desgosto para os pais. Ele não tem futuro, minha filha, e vai arrebentar com a sua vida, eu conheço este tipo. — esbravejou ele quase perdendo o controle.
— Mas, pai... Eu gosto dele...
—Pois vai ter que desgostar. Não é não e pronto.
Desconsolada, a menina vai para o quarto entre soluços.
— Calma, minha filha, quando seu pai se acalmar eu converso com ele. — Disse a mãe consolando-a em seus braços.
Dona Aparecida era a mansidão em pessoa. Ao contrário do marido que era explosivo, ela era calma, comedida e muito persuasiva. Seu Jerônimo a ouvia e a respeitava muito.
Naquela noite, era folga dele e, quando se recolheram ao leito, a esposa encontrou o momento propício para entrar no assunto.
— Jerônimo, converse ao menos com o rapaz. Ouça o que ele tem a dizer. Afinal, você nem o conhece... — Falou dona Aparecida com calma.
—Conheço a fama dele, Cida, isto me basta. Onde há fumaça há fogo. Eu não vou deixar ele arrebentar com a vida da nossa única filha. — responde seu Jerônimo, enfático.
—E você acha que proibindo eles de namorar vai resolver o problema? Você acredita mesmo que eles vão parar de se ver só porque você proibiu?
—Você acha que a Estelinha vai me desobedecer, Cida? — Diz ele arregalando os olhos de espanto.
—Meu amor, nossa menina já é uma moça linda e está apaixonada. Eles vão continuar se vendo quer a gente queira quer não e vão acabar fazendo besteira. Vai por mim, proibir vai ser muito pior. Além do mais, você sabia que isto um dia ia acontecer. Mais dia menos dia ela ia arrumar um namorado e a escolha é dela não nossa. — Completa ela calmamente.
—Você ficou louca, Cida, cê tá querendo jogar nossa filha nos braços daquele marginal? — Fala ele, indignado.
—Escute uma coisa, querido — fala ela com seriedade e agora com irritação — nossa filha já está nos braços dele. Proibir eles de se ver, só vai incentivar ainda mais o relacionamento. Se nós aceitarmos vamos poder acompanhar de perto e esse namoro vai ser sob nossas regras. Acho também que você tirou conclusões precipitadas sobre o rapaz. Talvez, tudo o que ele precise pra se endireitar seja uma moça como a nossa filha para coloca-lo nos eixos.
— Não sei mulher... Vou pensar.
Naquela noite, seu Jerônimo não pregou o olho rolando na cama. Seus pensamentos rodavam e ele ruminava as palavras da esposa.
Na manhã seguinte, à mesa do café, viu o rosto e os olhos inchados da filha de tanto chorar e seu coração ficou em pedaços. Naquele momento pensou que talvez sua mulher estivesse com a razão.
— Tudo bem, filha — falou ele em um suspiro. —Pode dizer para aquele seu namorado que venha falar comigo, mas não garanto nada, hein.
Um sorriso enorme se abriu no rosto da moça e ela abraçou e beijou seu pai em mil agradecimentos e ele se sentiu o homem mais feliz da Terra.
No dia seguinte, lá estava João Roberto, respeitoso diante de seu Jerônimo na sala da casa. Seu futuro sogro o tratou com educação, mas foi firme e deixou claro que era contra aquele romance, mas que tinha resolvido dar uma chance ao rapaz e aconselhou-o a aproveitar tal chance e não decepcioná-los. Fez também exigências e impôs regras às quais o rapaz aceitou de bom grado.
A partir daí, as coisas ficaram mais fáceis para o jovem casal, pois não precisavam mais se esconder. Eles então passaram a se ver todos os finais de semana.
Aos poucos, o rapaz foi vencendo a resistência do sogro que finalmente o aceitou e passou até a gostar dele.
Betinho e Estela formavam o casal perfeito e o amor dos dois parecia irradiar e contagiava a todos a sua volta. Ele mudara da água para o vinho e até à missa de padre José ele ia com a namorada e os sogros todo sábado. Betinho a levou para conhecer seus pais que a adoraram e dona Odete respirou aliviada ao ver o filho em paz finalmente.
—Você tinha razão, Carlos, o João Roberto só precisava achar uma boa moça para ele sossegar. —Falou seu Sebastião, rindo satisfeito.
O casal conquistou a todos tanto em Torrinha como em Brotas. Mais do que isso, as famílias se uniram em laços cordiais de amizade.
O natal chegou e Betinho o passou em Torrinha com a família dela, mas o ano novo eles passaram em Brotas com a família dele.
Em março de oitenta e sete, quando completou um ano que se conheceram, Betinho e Estela ficaram noivos.
Os dois jovens pareciam cada vez mais unidos por laços invisíveis que se fortaleciam dia após dia. Uma aura de carinho os envolvia, mas não esse carinho enjoativo e pegajoso que cansa, mas sim o carinho respeitoso de duas almas que se respeitam e se entendem.
A sintonia entre eles era tanta que às vezes dava a impressão de que se comunicavam através do olhar. Parecia que um sabia exatamente o que o outro estava pensando, pois se olhavam e riam como se tivessem dito algo engraçado, mas sem que uma só palavra fosse trocada. A vida e o amor para eles parecia ser tão mais simples. Bastava que estivessem juntos e tudo enfrentariam.
Em nove de janeiro de mil novecentos e oitenta e oito se casaram na igreja matriz de Torrinha em cerimonia realizada pelo amigo, padre José. Estela estava linda em seu vestido branco e seus pais estavam orgulhosos.
Dona Odete não parou de chorar.
Os noivos foram passar a lua de mel no Guarujá e de lá trouxeram muitas fotos para recordar.
O casal foi morar em Torrinha em uma casinha de seu Jeronimo, e Betinho continuou a trabalhar na oficina do pai em Brotas, para onde ia todas as manhãs e voltava à tarde.
Tudo ia bem e a felicidade parecia não ter fim. Porém (sempre há um porém) antes do final do ano, em novembro, pra ser mais exato, Estela, por sentir algumas dores estranhas do lado direito do abdome, procurou seu médico, que pediu exames. Ela decidiu não contar nada ao marido enquanto não tivesse um diagnóstico definido.
Quando os exames ficaram prontos, o médico não gostou dos resultados e achou que não eram conclusivos. Então a encaminhou para outro médico em Jaú, cidade vizinha e Betinho a acompanhou desta vez.
O médico de Jaú pediu mais exames e veio a bomba. Era câncer de fígado e era superagressivo. Aquilo foi quase uma sentença de morte para a moça. O desespero se apossou dela, mas João Roberto a abraçou e deu-lhe forças.
O médico disse que uma cirurgia tinha grandes chances de bons resultados. Eles aceitaram os riscos, e assim, em uma semana, Estela estava na sala de cirurgia do hospital Amaral Carvalho em Jaú.
De fato, a cirurgia foi um sucesso. Estela se recuperou e estava voltando à vida normal, mas fazendo acompanhamento. Porém, a maldita doença voltou como praga e a quimioterapia começou com todo o desconforto e dores de seus efeitos colaterais.
A quimeo retardou, mas não impediu o avanço do câncer. Betinho acompanhava, inconsolável ao suplício da amada. O sofrimento era grande, mas Estela conseguia forças para suportar, segurando a mão do marido que sempre estava a seu lado nos momentos mais críticos. Às vezes ela se mantinha estável por dias e Betinho retornava ao trabalho na oficina do pai, pois precisavam do dinheiro.
—Não se preocupe filho, cuide da Estela que aqui na oficina eu e teu irmão damos um jeito. Conte comigo. Enquanto eu viver eu te ajudo a pagar as contas. — Falou seu Sebastião abraçando-o.
—Obrigado, pai. — Disse o filho, comovido.
Não lhe faltou apoio, tanto do pai como do sogro e ele agora ficava com a esposa em tempo integral e cuidava dela com muito amor e carinho.
Os médicos a desenganaram. Não havia mais esperança. A única coisa que podiam fazer agora era confortá-la e aguardar que tudo acabasse. E Betinho não saiu mais do lado de sua amada. Dona Aparecida o ajudava como podia, mas no mais era ele, principalmente à noite. Seu coração vivia em pedaços, mas fazia de tudo para que ela não percebesse.
Certa manhã, ela acordou bem disposta e ele decidiu ir até a oficina do pai em Brotas para assinar uns documentos pendentes, mas avisou os sogros que voltaria logo e se precisassem dele era só ligar.
O telefone da oficina toca estridente. Betinho corre atender.
—Alô. — Fala ele, em quase desespero, pois tem um sentimento ruim naquela hora.
—Alô, Betinho? — Ele reconhece a voz do sogro — Vem, filho, vem pra casa que ela quer te ver. — Diz-lhe o sogro com voz pesarosa em um quase choro.
—Tô indo. — Diz ele, secamente e desliga.
— Tenho que ir. A Estela tá chamando. — Todos percebem a gravidade.
—Vai junto, Carlos, e não deixa ele dirigir. — Ordena seu Sebastião.
Carlos concorda e os dois partem para Torrinha.
Ao chegar em casa, Betinho encontra Marcelo e Marta e seus olhos estão marejados, assim como os de seus sogros que o fitam. Até o bom padre José estava lá e por certo já tinha se despedido dela. Seus olhos estavam molhados.
Ele percebe que chegou o dia da despedida e corre para o quarto. Ao entrar, vê a esposa deitada de lado na cama, de costas para a porta e de frente para o lado dele do leito. Betinho dá a volta e ela o vê e sorri levemente com os lábios. Ele então tira os sapatos e se deita a seu lado ficando com o rosto perto do dela.
Sua mão acaricia de leve a cabeça já sem cabelos de sua amada. Ela está magra, sua pele ressecada e seus lindos olhos agora estão amarelados e sem vida. A doença a destruiu aos poucos.
— Oi, meu herói... —Diz ela, tremula, com a voz sumida em um sussurro.
—Oi, minha princesa. — Diz ele segurando o soluço.
—Eu tô horrível, né...
— Nunca — sussurra ele sem parar de acariciar sua cabeça — Cê continua linda como sempre foi.
—Bobo. — Diz ela em um leve sorriso.
—Eu queria tanto ter te dado filhos, meu querido... Eu queria tanto ter tido mais tempo... Mas, sou grata por cada segundo em que vivi a teu lado... — Fala ela olhando-o fixamente cujas lágrimas já começam a rolar.
— Promete que vai ficar bem sem mim? — Diz Estela com voz cada vez mais fraca.
—Promete...? — Insiste ela diante do silêncio do marido.
— Prometo tentar. — responde ele, finalmente. As lágrimas banham lhe o rosto.
—E você, promete vir me buscar se eu não ficar bem?— Fala ele com o rosto lavado em lágrimas.
— Bobo — Diz ela.
— Promete? — Insiste ele.
— Prometo. — Diz Estela, já sem forças.
— Me beija. — Fala ela por fim.
Betinho beija-lhe os lábios docemente com ternura.
—Te amo...— Diz ele e está foi a última coisa que ela ouviu antes que  o ar fosse expelido de seus pulmões pela última vez.  
João Roberto fechou-lhe os olhos com a mesma mão que, há pouco lhe acariciava a cabeça e irrompe em soluços que já não pode mais segurar. Abre a porta do quarto e, a primeira pessoa que vê é Carlos, pronto para abraça-lo.
Dona Aparecida, em desespero, é abraçada pelo marido.
—Por que Deus não me levou ao invés dela? Por que ela teve que sofrer tanto? — Repete Betinho, em choro convulsivo, nos braços de Carlos, que nada diz, pois percebe que não cabem palavras, apenas acolhe o irmão menor nos braços e o consola.
Estela foi velada na sala de casa, como se usava fazer na época e, debaixo de muita comoção, o cortejo fúnebre seguiu para o cemitério municipal onde foi sepultada num grande túmulo revestido de granito polido pertencente à família dela.
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Atualizado em: Ter 12 Fev 2019
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