person_outline



search
  • Literatura - Contos
  • Postado em

JOÃO ROBERTO E MARIA ESTELA, UMA HISTÓRIA DE AMOR EM SEIS MIL PALAVRAS PARTE 1

Existe uma antiga lenda chinesa, onde, segundo a tradição, os deuses amarraram um fio vermelho no tornozelo dos homens e mulheres predestinados um ao outro, no momento da criação, para se tornarem ali, almas gêmeas. Com isso, aconteça o que acontecer, e não importa quanto tempo passar, essas duas pessoas, se estiverem predestinadas como verdadeiras almas gêmeas, irão se encontrar.
A lenda conta que o fio vermelho pode esticar ou emaranhar, mas nunca irá partir. E não importa o que façam nem a dor que possam vir a sentir, as pessoas unidas por este fio vermelho estão destinadas um ao outro pela eternidade.
Dedico este conto a todos aqueles que acreditam no amor verdadeiro entre duas pessoas, o amor puro e capaz de sacrifícios pelo ser amado e que muito poucas pessoas encontraram ou encontrão. Mas, acredite, ele existe, é raro, mas existe. Dedico também a todos os que acreditam no reencontro de almas afins ou gêmeas que se apaixonam assim que põem os olhos um no outro.
A história que passo a narrar acontece em Brotas e Torrinha, duas pequenas cidades vizinhas do interior de São Paulo. É uma história de amor como tantas outras e que nos faz pensar sobre.
O ano é 1986. Na época a cultura pop explodia com toda força em suas cores, cabelos, maquiagens carregadas e roupas extravagantes. Nas FMs, bandas brasileiras como Barão, Legião, Paralamas, entre outras, ganhavam espaço entre as estrangeiras como Information Socity, Simple Mids, Tears For Fears e Duran Duran entre tantas.
O Brasil, recém-saído de um cruel regime militar ditatorial que durou vinte e cinco anos, dava espaço a uma juventude com sede de liberdade e que, faminta por descobertas, queria viver tudo de uma só vez. É neste ambiente que peço licença para contar a impressionante história de amor entre dois jovens.
A cidade é Brotas em uma sexta-feira qualquer de março do ano de 1986. O sinal de saída da escola Dinah Lucia Balestrero toca estridente ao meio dia e quarenta em ponto, causando um verdadeiro tropel da molecada em direção à rua.
Um aluno do terceiro colegial: cabelos pretos compridos (sem exagero), tênis all star azul de cano alto, calça jeans desbotada, camiseta branca com a estampa Duran Duran, sua banda favorita, e carregando os cadernos desleixadamente em baixo do braço, caminha apressado rumo ao portão de saída. Seu nome é João Roberto, ou Betinho como é conhecido.
Betinho é o filho mais novo do senhor Sebastião e dona Odete e tem dezessete anos. É muito inteligente e se destaca na escola indo bem em tudo, apesar de nunca estudar.
Seu pai é mecânico e dono de uma oficina movimentada onde trabalha com Carlos (vinte anos) seu filho mais velho e mais oito funcionários entre mecânicos e aprendizes.
De gênio forte, Betinho estava sempre metido em encrencas e confusões o que fez com que ele fosse visto por todos como garoto problema. Carlos, seu irmão mais velho, apesar de não compreender as atitudes rebeldes do garoto, era quem sempre o aconselhava e tentava pô-lo nos trilhos. Mas no fundo acreditava que só o amor de uma boa moça faria com que o irmão sossegasse.
Apesar de tudo, João Roberto era um rapaz bonito e atraente que chamava a atenção das garotas por onde passava, mas não conseguia manter um relacionamento estável com nenhuma.
—Ei, Betinho, me espera... — Grita um rapaz ruivo de cabelos vermelhos repicados na frente e compridos na parte de trás.
— Você é muito lerdo, Marcelo, já faz mais de cinco minutos que tocou o sinal da saída. Não sei o que tanto você fica enrolando lá dentro. Vambora que ainda tenho que ajudar o meu pai e meu irmão na oficina. — Diz o rapaz, sacando um maço de Marlboro todo amassado do bolso de trás da calça.
— Me dá um? — Pede Marcelo, ávido por fumar. Betinho lhe dá e os dois amigos seguem fumando pela rua.
— Amanhã vai ter banda Doce Veneno tocando em Torrinha, você vai? — Pergunta Marcelo.
— Claro, você acha que eu ia perder a melhor banda da região tocando no baile do clube de Torrinha? Vai tá assim de gatinha, não perco por nada neste mundo. — Falou João Roberto fazendo caras e bocas.
— A Andréia vai deixar você ir?
—Esquece a Andréia, Marcelo, a Andréia já era.
— Cê largou dela? — Fala o amigo espantado, pois a tal garota era a gata da escola.
—Brigamos ontem.
— Nossa, cara, cê teve coragem de dispensar aquela gata...?
—Desencana, Marcelo, a garota é muito vazia, só pensa em roupa e cabelo da moda. Além do mais, é muito pegajosa e ciumenta, não suporto isso.
—E...Vocês... Vocês... Ah, você sabe...
Betinho riu
—Demos uns beijinhos.
—Qué me enganá que namorou duas semanas com aquela gata só pra dar uns beijinhos?
—Não é da sua conta tá, Marcelo.
Caminham em silêncio algum tempo.
— Você vai comigo — Decreta João Roberto.
—Tá maluco? A entrada custa cinquenta cruzados, eu não tenho essa grana. — Diz Marcelo, indignado com a própria situação.
— Caramba, Marcelo, cê nunca tem grana pra nada hein. — Fala Betinho estacando a marcha e batendo as mãos na cintura.
— Tudo bem, eu te empresto a grana mais uma vez. — diz ele compadecido da cara de coitado que o amigo fez. — Recebi ontem uns serviços que fiz por fora nos carros do doutor Irineu. —Completa o rapaz.
— Tá, mas a gente vai de que?
— Vamos com o Carlos; ele tá namorando uma gata de lá. A gente aproveita a carona com ele.
Torrinha é cidade vizinha a Brotas, distante dezessete quilômetros e a banda Doce Veneno era a sensação da molecada da época, onde tocava era sinônimo de casa cheia.
No sábado à noite, os dois rapazes embarcaram no Maverick setenta e quatro preto de Carlos e seguiram rumo a Torrinha.
—Lembrem-se, vou esperar vocês aqui neste mesmo lugar pra gente ir embora, divirtam-se e tenham juízo. — Falou Carlos, ao deixar os garotos na praça central em frente à igreja matriz.
Enquanto isso, na igreja, duas garotas comportadas assistem à missa. São as amigas inseparáveis, Estela e Marta, ambas de dezessete anos. Sentados ao lado delas estão o Senhor Jerônimo e dona Aparecida, pais de Estela, sua filha única.
As duas meninas estão comportadas usando vestidos recatados, cabelos amarrados e rosto sem maquiagem.
— “ O Senhor esteja convosco” — Diz padre José
—“ Ele está no meio de nós” — Respondem todos.
— “ Corações ao alto” — Diz o padre.
— “ Nosso coração está em Deus”— Respondem todos.
— “ Ide em paz e o Senhor vos acompanhe” —Diz padre José.
—“ Graças a Deus” — Respondem todos.
Nem bem o padre termina o rito final e as duas garotas quase não contém a ansiedade, afinal, hoje tem Doce Veneno no clube, dizem as duas, uma para a outra assim que saem da igreja.
— Obedeçam a sua mãe e voltem cedo pra casa. — Diz seu Jerônimo que é chefe da estação ferroviária e estará de serviço das vinte e duas às seis da manhã. — Se você sair fora da linha tua mãe me conta depois. — Completa ele com o dedo em riste para a filha.
— Eu vou me comportar, prometo pai. — Fala Estela simulando tranquilidade.
Seu Jerônimo, meio desconfiado, aceita, mas com um pé atrás, pois sabe a filha que tem; ela já aprontou traquinagens outras vezes.
As duas se despedem dos pais de Estela e partem apressadas. O clube fica há duas quadras de distancia da igreja, mas elas correm para a casa de Marta onde as amigas trocam as roupas de missa por calças jeans desbotadas; os sapatos por tênis; camisetas coloridas, carregam na maquiagem e soltam os cabelos.
— Magina, ir ao baile com aqueles vestidos de missa... Não dá né — Não se cansam as duas de repetir enquanto seguem felizes rumo ao clube.
A mãe de Marta é separada do marido e muito depressiva. Como ela vive dopada, nem percebe as meninas saindo. Foi uma sorte Marta encontrar a amizade de Estela, os pais da amiga a adotaram como filha.
Pin It
Atualizado em: Dom 10 Fev 2019
  • Nenhum comentário encontrado

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR
Fone: (41) 3342-5554
WhatsApp whatsapp (41) 99115-5222