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Quando eu crescer

Senti os primeiros pingos de chuva caírem na velha jaqueta que eu vestia. Eram pesados, e acompanhados de barulhos de trovões. Chuvas de inverno. Nuvens carregadas no céu escuro de São Paulo. De repente, senti minha pasta cair com o fluxo de pessoas atravessando a avenida. Guarda-chuvas apressados, com medo da chuva que se intensificava.
Peguei a pasta do chão e fui desviando dos pedestres para chegar ao outro lado. A chuva ficou mais forte, e o vento passou a soprar com intensidade. Não abri guarda-chuva algum, afinal, eu não tinha nenhum. Nunca fora do tipo de carregar sombrinhas em dias nublados.
Corri para o ponto de ônibus. O mesmo que frequentava todos os dias da semana. Lotado, como sempre. Parei ao lado de uma mãe com uma criança de uns oito anos que usava o celular. Também tirei o meu do bolso externo da bolsa de couro do meu notebook. Verifiquei as notificações: mensagens, e-mails, mensagens, e-mails…
"Tio, o que você tá vendo aí?" o garoto perguntou num tom curioso, me encarando com um olhar inocente. Eu o olhei de forma apática.
"Isso é jeito de falar com as pessoas, menino?!" a mãe exclamou, puxando o garoto pelo braço. Eu o olhei de novo. O olhar parecia com o de alguém familiar. Tentei buscar na memória um rosto parecido. Os cabelos um pouco longos, castanhos. Os olhos vivos, a pele bronzeada.
"Me desculpa, moço! Ele está nessa fase curiosa…" ela disse, rindo — de nervoso, provavelmente.
Dei um sorriso para a mãe.
"Não precisa se desculpar por ele, dona." esclareci, olhando pra ela. "Eu tô vendo uns e-mails, garoto." respondi, voltando os olhos rapidamente para o celular. Mensagens, e-mails…
"E o que você faz, tio?" ele perguntou, se aproximando um pouco da minha perna. Resolvi apagar a tela do celular e colocá-lo de volta no bolso.
"Não me chama de tio, menino." pedi, encarando ele com um olhar sério. "E eu trabalho em um escritório aqui perto, no fim da avenida…"
"Mas o que você quer ser quando crescer?" ele perguntou.
Parei por um momento. Não entendi a pergunta que o garoto me fizera. Olhei para a cara dele de novo com uma expressão de dúvida. Ele olhava pra mim com o mesmo olhar do começo: curiosidade e um sorriso que eu julguei cínico. Eu era bem mais alto que ele, não tinha como um cara de vinte e poucos anos crescer mais — e eu tenho certeza que ele sabia disso.
"Desculpa, ele anda perguntando isso pra todo mundo…" a mãe disse, olhando para o garoto. "Já disse que os adultos não podem responder as perguntas da escolinha…" ela observou, rindo.
Quando pensei em algo, vi que meu ônibus chegara. Me despedi da simpática jovem e do garoto e entrei no ônibus. Cheio, como sempre. Tentei pegar o celular para responder algumas coisas, mas algo me impediu. Olhei pela janela, vendo as gotas de chuva escorrerem lentamente pelo vidro e apenas uma coisa veio à minha cabeça. A voz do menino parecia ecoar pela minha mente.
"O que você quer ser quando crescer?"
E a pergunta me assombrou até que eu chegasse na porta de casa. Subi pelas escadas até a porta do meu andar. A jaqueta estava molhada, e a chuva continuava forte. Girei a chave e abri a porta. Acendi a luz da sala e vi meu gato vir na minha direção. Acariciei a cabeça dele. Sven era um companheiro de longa data. A luz do telefone brilhava em vermelho na mesa de centro. Recados.
"E aí, cara? Como você tá? Já faz um tempo que você não liga, não responde as mensagens…" ouvi. Recados de um amigo de longa data: Matias. Pulei.
"Eu sabia que tu ia pular o recado anterior, então continuando: manda notícias assim que possível. Você tá me devendo uma visita aqui, hein?"
Bem, esse cara realmente me conhece.
Pulei mais alguns recados de uns amigos. Eles pareciam preocupados, mas não me importei tanto. Afinal, não sou tão digno de tais preocupações como eles pensam que sou. Parei em um recado diferente, era dos meus pais.
"Oi, filho! Já faz um tempo que você não manda notícias!" ouvi, na voz da minha mãe. "Desde que você se mudou, as coisas têm estado tão quietas aqui em casa…" ela acrescentou.
"Estamos com saudades! Como anda o trabalho no escritório? Consultor econômico… tão jovem… Estamos muito orgulhosos de você!" ouvi, do meu pai. "Sua irmã está estudando bastante para os testes finais, por isso ela não conseguiu dizer nada. Enfim…"
Pulei o final. Me peguei sorrindo, e com os olhos úmidos. Respirei fundo. Os recados acabaram.
Me joguei ao sofá. Peguei o celular de novo e olhei meu reflexo nele. Os óculos estavam tortos, olhos caídos, semblante cansado. Li algumas das mensagens diversas: "tá tudo bem?", "por que não manda notícias?". Coloquei-o de lado e respirei fundo. De repente, a pergunta do garoto voltou à minha mente.
Era apenas uma inocente pergunta que recebemos sempre no ensino básico, seja dos professores, dos colegas ou dos pais. Provavelmente ele só tinha ouvido aquilo de alguém e passou a perguntar para todos como se soubesse o que significava. Mas… eu sabia o que significava?
De repente, me peguei andando pela casa, ansioso. Não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça. Andava preocupado pela sala, como naqueles dias de insônia. Ah, os dias de insônia… Me lembro de cada noite não dormida que perdi estudando como um louco. Lembro que descia para a cozinha de casa, na época em reforma, e esquentava a água para o café em plena madrugada. Mantinha as portas fechadas, já que o quarto era frio. Lia os livros sem parar, fazia anotações de qualquer coisa diferente que não me lembrava.
Lembrei de um certo dia, no cemitério. Era um dia como esse: chuvoso, frio e nublado. Estava sentado ao lado de uma tomada terminando de passar algumas coisas para um computador qualquer. Do meu lado, uma amiga que há muito tempo já se foi da minha vida. O silêncio pairava pela sala onde os velórios eram feitos. Não havia movimento algum naquele dia, apenas algumas poucas pessoas de luto na sala ao lado. Ela colocou o cabelo cor de caramelo por trás da orelha e me encarou.
"Já pensou no que vai fazer na faculdade?" ela perguntou. Não lembro o que respondi. Sei que ela disse o de sempre. "Odontologia. Vou abrir um consultório e ajudar com o negócio da família…"
Ela, como eu imaginei, terminou trabalhando na velha lanchonete da família enquanto cursava a faculdade. A encontrei na rua quando ainda morava na cidade. Conversamos um pouco, ela disse estar feliz com a vida que levava. E eu? Bem, eu terminei em Economia. Já nem lembro qual era essa opção: primeira, segunda… não importa.
Aquelas lembranças vinham a cabeça, enquanto eu pensava no que aquela criança perguntou. Parei ao lado do velho piano que demorei pra comprar. Passei o dedo pela tampa do teclado. Empoeirada, assim como meu talento para música. Já fazia quanto tempo que não sentava naquele banco de altura regulável e tocava alguma coisa? Pensando bem, sempre foi assim. Piano empoeirado, estudante jovem e sem tempo. Quando foi que eu fiquei desse jeito?
E a pergunta continuava sem resposta. Entrei na cozinha e abri o armário, me deparando com alguns bolos que comprei no mercado já fazia algum tempo. Abri um deles: chocolate suíço. Cortei um pedaço e levei em um prato para a sala. Isso sempre fora um hábito. Bolos industrializados eram uma das únicas coisas que eu ainda fazia questão de sair para comprar. Lembrei dos dias que passava na minha casa, antes de me mudar. Deitado no sofá nas manhãs frias de julho, com apenas um espresso e um pedaço de bolo para acordar. Tudo isso antes de iniciar a cansativa rotina de estudos para os vestibulares.
Lembro que parei de sair. Tive que parar, eu acho. Eu apenas trabalhava e estudava, trabalhava e estudava… Talvez a vida tenha perdido o rumo nessa parte. Lembrei de uma coisa que comentei com um amigo certa vez.
"Acho que a cidade suga nossa alma."
"Como assim, cara?" ele perguntou, enquanto andávamos para o metrô. Não me lembro pra onde íamos.
"Nós nos entregamos tanto, fazemos de tudo para conseguir o sucesso aqui… mas, quando notamos, algo parece faltar. Talvez isso seja fruto dos meus hábitos consumistas, mas eu sinto que a cidade nos consome, nos envolve… e logo nos tornamos tão cinzas quanto ela."
Não lembro de reação alguma. Desde quando eu havia me tornado tão cinza? Desde quando eu ficava tão intrigado com a pergunta de uma criança? A TV estava ligada em um programa de auditório genérico. O mesmo daquele dia.
A cozinha já estava reformada. Tigelas quentes, tudo estava pronto. Eu que havia cozinhado naquela noite de sexta. Me lembro bem o que era: udon com legumes refogados em um molho de soja. Sempre gostamos de comida oriental. Sentei no lugar de sempre. Eu ainda vestia o uniforme daquela escola de inglês onde costumava dar aulas. Minha mãe, então, lançou.
"E aquela proposta de emprego que você recebeu, filho? Como anda?"
Não respondi imediatamente. Me distraído olhando a minha irmã não sabendo como comer aquilo.
"Você tá fazendo errado." observei.
"Não enche." ela respondeu, com um olhar cínico.
Minha mãe repetiu a pergunta. Eu a olhei, depois de mais um pouco de macarrão que comi.
"Eu já fiz a entrevista. Eles retornaram hoje à tarde. Consegui aquela casinha no centro, as coisas da mudança já estão prontas…" coloquei mais comida na boca. "O salário vai cobrir bastante coisa…"
Meu pai me olhou com um olhar preocupado.
"Ah, você vai se mudar mesmo…?" ele perguntou.
"Sim, eu já tinha falado com vocês antes." respondi.
"Achei que você desistiria antes de sair." ele disse, rindo. "É bom que esteja fazendo o que acha melhor. Estamos orgulhosos de você… todos nós."
Lembro do que minha mãe disse depois que eu terminei de carregar o caminhão de mudanças e jogar a velha mochila no táxi.
"Ligue quando precisar de alguma coisa. Mande notícias!"
Eu cheguei a mandar por algum tempo. Mas agora já não sinto que tenho tanto tempo pra isso. Apatia tomava conta de mim, junto ao cansaço. Já não fazia nada diferente de trabalho e descanso. Seguidos.
Telefone tocou. Deixei o recado cair.
"Oi… eu sei que já faz um tempo que não saímos nem nos falamos, mas eu estou com saudade… O que aconteceu com você? Mande notícias quando puder… beijos."
A voz feminina, a fala pausada. Quantas coisas que não vieram a minha cabeça naquele momento. Ignorei. Respirei fundo de novo. Senti o aperto no coração, como sempre senti. Como uma mão que o apertava a cada vez que eu ouvia aquele tipo de mensagem. Mas não conseguia dizer nada. Afinal, o que eu falaria, senão mentir que estava tudo bem, e que deveríamos marcar de sair?
O que eu me tornei, agora que cresci?
A pergunta do garoto me fez levantar de novo. Lembrei vagamente do meu velho quarto. Ah, o velho quarto. Decoração esquisita, prateleiras carbonizadas por mim mesmo. Livros e mais livros que colecionava quando eu era adolescente. Onde foram parar?
Eu sabia a resposta. Andei lentamente até uma porta perto do meu quarto atual. Mexi na maçaneta. Trancada. Procurei a chave em uma gaveta do quarto. Achei uma, jogada no fundo, perto de alguns papéis de pontos turísticos que eu colecionava. Coloquei a chave na fechadura e a girei. Ouvi o clic e vi a porta abrir.
Poeira saiu do quarto escuro. Procurei o interruptor com um pouco de dificuldade. Quando consegui acender a lâmpada, me deparei com aquele ambiente que eu escolhi reconstruir: prateleiras carbonizadas, mesa de madeira, algumas velharias que já eram velharias no tempo em que as consegui e outras que nem eram tão velhas assim. Caixas de papelão se espalhavam por todos os cantos, carregando as mais diversas coisas. Uma janela de alumínio do outro lado da sala. Já não entrava ali há muito tempo.
As lâmpadas falhavam e emitiam uma luz fraca. Tossi um pouco com a poeira que subiu. Observei a decoração "excêntrica". Um antigo rádio cinza, uma máquina de escrever verde, uma vitrola mais nova — que parecia carregar um disco que não pude reconhecer na hora -, um toca-fitas e um pequeno discman com duas caixas de som nele conectadas. Alguns livros na mesa: velhos livros que já não via há tempos, a maioria em inglês ou alemão, sobre os mais variados assuntos. Um pequeno notebook, tão empoeirado que nem devia funcionar. Nas caixas, podia ver cadernos, livros, alguns papéis desconexos.
Não sei descrever que sentimento ver tudo aquilo me trouxe. Uma espécie de estranhamento, misturado com um sentimento sem nome. Senti que talvez aquilo me trouxesse uma resposta para o que o garoto perguntou.
Não sabia por onde começar. Aquelas coisas me traziam memórias, muitas delas. Tempos que não sabia mais se eram bons ou ruins. Parecia que a vida tornara-se um filme que passava pela minha mente lentamente. Sentei na cadeira de couro e me apoiei sobre a mesa depois de a limpar. Olhei para o rádio, com uma antena desprotegida que não passava de um fio de cobre mal encapado grudado à parede. Deslizei o dedo pelo botão que o ligava. Nada. As coisas ainda usavam tomadas.
Quando consegui ligar o aparelho, me deparei com uma música calma, de letra simples, feita só no violão e voz. Há tempos que não ouvia aquele tipo de música, tão velhas quanto eu. A fraca luz amarela iluminava um pouco melhor a mesa do que eu me lembrava. Lembrei de quando ganhei aquele rádio: uma senhora disse que combinava comigo e me deu todo o conjunto de som que ela tinha no apartamento. Eu era uma criança "excêntrica", se é que posso usar esse termo. Interessado por velharias, coisas antigas. O passado sempre me fascinou…
Pensei no que fazer naquele momento. Olhei para o lado e, ao lado de uma cheia caixa de papelão, vi um abajur antigo que sempre esteve comigo. Lembro de queimar o dedo várias vezes naquela lâmpada quente. O puxei e coloquei sobre a mesa, ligando-o. O quarto se iluminou como eu lembrava de ter sido por todo aquele tempo em que o usamos em casa, no quarto da minha mãe. Todas as vezes que sentia o calor daquela luz, me sentia seguro. E era assim que eu me sentia agora.
Peguei uma das caixas. Pesada. Comecei a olhar o conteúdo. Grande parte do que estava ali eram livros e cadernos. Fui os colocando sobre a mesa, um por um, abrindo-os e verificando algumas coisas. Vi cadernos de escola, os mais novos. Desenhos aqui e ali nos vários sketchbooks que comprei quando tentei melhorar minhas capacidades de desenho. Papéis da escola que eu resolvi não jogar fora — apostilas, alguns trabalhos encadernados que eu fiz durante o Ensino Médio. Livros que eu mantinha na estante quando era adolescente, os mais bobos.
Fui trazendo caixa por caixa até meus pés e separando os papéis das outras coisas. Vi cartas da minha adolescência que nunca mandei — a maioria com um teor um tanto melancólico e rebelde -, e até cheguei a ler algumas que escrevi para alguns amigos. Eram bonitas. Eu tinha uma mania estranha de usar metáforas um tanto quanto complexas.
Separei os livros mais interessantes e que eu lembrei que eram bons quando os li. Alguns eram infantis, mas fiz questão de tirar daquele quarto escuro.  Lembrei do quanto gostava de ler. Aos oito anos, vivia na biblioteca perto da escola, lendo os livros mais diversos naquelas posições que hoje me causam dor. Lembro das várias vezes que peguei livros de Júlio Verne e os li durante tanto tempo. Aventuras que eu queria viver, mas nunca vivi.
Perdi a noção do tempo. Como eu podia ter deixado tudo tão bagunçado? Onde foi parar minha preocupação com organização que eu tanto tinha? Desde quando eu parei de me importar com essas coisas? Depois de tantas lembranças já não me reconhecia mais em mim.
Pensei ter terminado a organização das caixas. Levantei para abrir a janela. Tive que forçar um pouco. Vi a luz da lua surgir timidamente por entre as nuvens de chuva. A intensidade era mais fraca agora: garoa que não molhava só as coisas materiais — molhava junto a alma.
Olhei a porta do quarto. Aberta, apenas esperando que eu saísse dali e voltasse pra vida tão sem vida quanto eu imaginava. Sem resposta, sem memórias. Apenas com o peso de saber que eu não sabia mais quem eu era. Eu me tornara tão clichê quanto uma paráfrase de Platão.
Fui apagar as luzes. Parei ao lado da porta e dei uma última olhada no quarto. Olhei todas aquelas memórias que eu tentei esconder de mim para não voltar àqueles tempos sombrios por quais já tinha passado. Notei que a porta não abrira por completo. Empurrei um pouco para ver se não estava ficando louco — afinal, isso não me surpreenderia. Não fechou. Olhei o que estava me impedindo e vi uma última caixa. Fechada, dessa vez.
Se comecei algo, tinha que terminar. Ao menos uma vez na vida.
Levei a caixa e a coloquei na mesa. Liguei o rádio novamente, me deparando com uma bossa nova delicada e melancólica. Do jeito que eu precisava. Tentei abrir a caixa, mas por algum motivo ela parecia lacrada. Fita adesiva por todo lado. Procurei a ponta  com as unhas por um tempo, mas não achei.
Levantei para pegar um estilete qualquer, um canivete, qualquer coisa que pudesse abrir aquilo. Sentia que talvez fosse a única coisa que eu realmente precisava fazer. Passei pela sala e vi meu celular piscar. Ligações e mais ligações de todos os tipos de pessoas.
Parei por um momento. Fazia quanto tempo que eu me tornara tão recluso? Por que eu não respondia? Disperso demais. Andei até a cozinha, abri a primeira gaveta que achei e peguei a faca de mais fácil acesso. Cabo vermelho, lâmina cerrada.
Voltei ao quarto quase que por impulso.  Cravei a faca na parte de cima e a abri com cuidado. Sentia meu coração bater mais rápido. Fazia tempo que não me sentia tão ansioso. Não me lembrava daquela caixa, assim como esquecera das outras até entrar novamente naquele lugar. As coisas que se perderam voltavam aos poucos à memória.
A caixa não revelou ouro algum. Só alguns papéis, como as outras caixas. Um deles era dobrado em três, com um selo. Eu o peguei. Olhei o que estava escrito acima do selo — que na verdade era uma figurinha qualquer de caderno.
"Para dias tristes e vazios." eu li.
Eu ri. Abri a folha e me deparei com uma mensagem manuscrita. A letra não mudara. Era minha. A data estava um pouco apagada, só conseguia ler o dia. 21.
"Se as coisas continuarem como estão, acho que vou precisar de uma pequena motivação. Segue, nesse pacote, o melhor de mim que eu pude achar."
E era só isso. Alguns rabiscos pela folha, um pouco amassada. Não me lembrava disso. Puxei alguns papéis da caixa e comecei a os olhar. Folhas de almaço que ganhava na escola. Neles, li alguns títulos e me recordei na hora. Contos que escrevi na época da escola. Mas não eram tão atuais. A letra diferia um pouco. Eram contos de uma criança que um dia eu fui.
Li alguns. Eram horríveis. Erros gramaticais, enredos ruins e manjados. Não sabia o porquê de eu ter colocado aquilo ali. Parei por um momento. Coloquei os papéis de lado e tirei mais alguns da caixa. Algumas cartas que eu escrevi para mim. Registros que eu mantinha sobre os meus dias.
Faltavam alguns, mas não me importei. Os li cuidadosamente, levando em conta as datas e a numeração. Eram pesados, sombrios. Eu sentia do jeito que me senti quando li Goethe pela primeira vez. Metáforas que me custaram para entender, relatos de dor física e psicológica. Senti um arrepio ao terminar de ler.
Puxei mais algumas coisas. Trabalhos do ensino fundamental. Pesquisas que eu fiz e algumas curtas reportagens que escrevi quando ainda considerava fazer jornalismo. Eram bem escritas, deveras. Entre eles, uma coisa me chamou atenção. Folhas encadernadas, umas 20 ou mais. Sem título.
Abri na primeira página. Um prefácio esquisito que eu não consegui entender. Li a primeira linha do que era chamado de "Capítulo I". Reconheci na hora. A história que eu tanto gostava: uma analogia muito complexa que ninguém entendia. E acho que nem eu interpretei do jeito que era pra ser. Li aquilo com um sorriso de canto. Estava horrível, mas, ainda assim, bom.
Tirei uma capa de CD. Desenhada por mim. Era um auto-retrato que eu tentei construir em meio a uma rabiscos. Liguei o discman na tomada e coloquei o conteúdo lá dentro. Desliguei o rádio. Play.
Uma conversa casual entre eu e um amigo. Ruído demais.
"Você já tá tocando há uns trinta minutos." ele disse.
"Nem ligo." respondi. "Mas juro que é a última. Essa vai pra coletânea das piores…" terminei, com um riso.
Ouvi a marcação do tempo. Um… dois… três… Valsa. Um ré. Senti o arrepio. A trilha sonora que nunca saiu da minha mente. Assoviei a melodia enquanto vasculhava a caixa.
Peguei um caderno em folha A5. Capa escura, costurado. Observei o conteúdo: retratos diversos. Reconhecia cada um sem nem olhar o nome no canto esquerdo. Pessoas especiais — algumas que foram, outras que ficaram. Também separei aquilo.
Por fim, tirei algumas outras coisas: uma fita com o título "Mix 1", alguns papéis — cartas que recebi de um certo alguém, letras de músicas que nunca cheguei a arriscar tocar, desenhos dos mais diversos, testes de aquarela, tudo — e, por fim, um caderno. Capa prata, conservado.
Eu o abri cuidadosamente, me deparando com algo escrito na primeira folha.
Para mim.
Eu sei que as coisas tem sido difíceis, cansativas e negativas. Eu sei que tudo tem estado tão estranho que, se pudesse, você já teria sumido da face da Terra — em ambos os modos.
Mas essas coisas que restaram são ora te lembrar que mesmo com toda adversidade, toda crise pessoal, todo pensamento negativo que paira sobre sua cabeça, você ainda é você.
Seja na arte, seja no convívio, você é você. E quando você se sentir na pior, leia esse trecho transcrito na página ao lado.
 
Virei a página. Um papel amarelado e amassado estava anexado à folha do caderno. Eu sentia meu coração bater com força, e meu rosto ficar mais quente. Abri o sulfite e me deparei com uma curta história. Garranchos se organizavam formando frases gramaticalmente incorretas.
"O mistério." eu li.
Naquele momento, me lembrei exatamente do que aquilo se tratava. Minha mente voltou para o dia em que eu escrevera aquilo.
Lembrei daquele dia cansativo de verão na escola. Calor infernal, raios de luz entravam pela janela e tornavam difícil ver o que estava escrito na velha lousa verde. Lembro de olhar pra trás, com tédio, e ver que meu amigo ainda tentava terminar a prova.
"Ei…" tentei dizer, mas fui interrompido pelo barulho da mão esquerda da professora batendo suavemente na minha mesa.
"Já disse pra esperar ele terminar!" ela pediu, devia ser a quinta vez. "Por que não faz alguma coisa enquanto os outros terminam?"
"Mas o que, tia?" perguntei, na voz fina e inocente.
Ela colocou uma folha de sulfite A4 na minha frente.
"Escreve alguma coisa." ela pediu. "Eu gosto de ler o que você escreve."
Suspirei e me desajeitei, caindo com a cabeça por cima da folha. Passei a mão na cortina. A textura de sempre. De repente, levantei com rapidez. Olhei para o papel, tomei o lápis e comecei a escrever. Enquanto lia, parecia lembrar de tudo que passava na minha cabeça: a história de um crime sem solução. Um garoto entediado que resolveu investigar a misteriosa morte de uma pessoa muito importante. As palavras fluíam pela minha cabeça, em sintonia com os movimentos rápidos do lápis.
Parecia que me via ali: frente a frente com o garoto que um dia eu fui. Apaixonado, cheio de vida. Seja triste como nas cartas, ou feliz como no auge da infância. Sempre fui eu… até agora. Senti meus olhos ficarem úmidos.
Lembrei de quando eu levantei, no fim do dia, e corri para a van. A história, boba, tinha me animado mais que qualquer coisa naquele dia. Mostrei para todos, mesmo aqueles que não queriam ver. Cheguei em casa feliz. Joguei as coisas no sofá e corri pra cozinha. O vapor da comida que minha mãe preparava subia. Me agarrei às pernas dela.
"Eu quero ser escritor, mãe!"
Ah, eu me lembrei.
Era isso que eu queria ser: escritor. Comunicar, contar histórias. Lidar com as pessoas, com possibilidades. Equilibrar a razão e a emoção. Quando foi que isso se perdeu?
Levei os olhos ao rodapé da folha. Anotações mais recentes.
"Quando sentir que perdeu tudo que lhe restava, escreva algo aqui. Eu gosto de ler o que você escreve."
Vi uma lágrima tímida cair no caderno. Não percebi na hora, mas estava sorrindo como não sorria há tempos. Sorriso sincero. Mil coisas vieram à minha cabeça. Levei a mão até o bolso da camisa que vestia e tirei uma lapiseira 0.7 que eu sempre levava comigo. Virei a folha e não notei os movimentos que já começavam. Palavras saiam em abundância, como água que sai de uma torneira. A lapiseira fluía nas águas desse rio.
Fiquei horas e horas escrevendo tudo que vinha a mente. Confesso que não ficou tão bom quanto quando achava que seria quando parei para ler tudo. Quando terminei, colocando o último ponto final na folha, me levantei rindo. Fui andando até a sala. Sven me seguiu pela casa.
Parei ao telefone. Lembrava o telefone de Matias de cor. Liguei sem hesitar.
"Cara, porque demorou tanto para…"
"Esse sábado você vai estar livre. Chama o pessoal. A gente vai sair!" disse, ofegante.
"Mas o que tá acontecendo?!" ele perguntou, parecendo confuso. Eu confesso que também estaria.
"Não é importante. Só liga pro pessoal e venham aqui pra casa. Precisamos colocar os assuntos em dia, sabe?"
Ele riu.
"Agora sim tá parecendo alguém que eu conheço!" ele disse, se despedindo e desligando.
Liguei a tela do celular e respondi tudo que estava pendente. Sejam mensagens, e-mails, os "bom dia" que recebia. Depois, fiz questão de ligar para minha mãe. Disse o quão bem estava, o quanto de saudades que eu sentia, e combinei de ir visitá-los o quanto antes.
Tomei o telefone novamente, ligando para a garota que sempre me ligava. Ela não atendeu. Deixei o recado mais sincero que consegui achar. Pedi para ela retornar a ligação o quanto antes.
Corri para o velho piano e o limpei com as mãos. Aquilo merecia um pouco da minha atenção. Deslizei os dedos pelas teclas um pouco até pensar em alguma coisa que traduzisse meu sentimento. Uma velha valsa de Tchaikovsky, num arranjo próprio. Sempre gostei d'A Bela Adormecida.
Me sentia vivo. Tão vivo quanto estive. E foi isso que fiz a noite inteira: desenhos, músicas, conversas, contos curtos. Até que caí adormecido no sofá.
No outro dia, ainda um pouco eufórico, fiz o mesmo caminho na chuva. Deixei a pasta cair de novo. Atravessei a avenida, andei até o ponto. Dessa vez tinha alguns bancos vazios. Sentei em um deles.
Tirei um caderno A5 da pasta e comecei a desenhar a paisagem chuvosa dos edifícios à minha frente. De repente, uma voz ao meu ouvido.
"Tio, o que você tá fazendo?"
Familiar. Na minha esquerda, sentado com um olhar curioso para o meu desenho, o mesmo garoto de antes. Ainda familiar, mas não sabia direito quem me lembrava.
"Um desenho." respondi, com um sorriso.
Ele ficou um pouco em silêncio, enquanto eu terminava. Quando levantei a lapiseira do papel, ele suspirou.
"Uau, tá muito bonito!" ele disse. "O tio desenha muito bem!”
"Não me chama de tio, menino." eu disse, tirando o papel e dando-lhe. "Pode ficar."
Ele pegou o desenho e sorriu. Uns dois dentes faltavam. Me agradeceu muito. Ele parecia feliz. Me lembrava alguém.
"Ei, tio…" ele começou. "Mas… você não me respondeu ontem. O que você quer ser quando crescer?"
Eu parei por um momento. Um sorriso veio ao meu rosto. De repente, me lembrei. Olhei aquele olhar curioso, aquela alegria que emanava do menino, a vitalidade. O olhar de quem sentia a mais pura paixão por fazer tantas perguntas. O olhar de quem queria descobrir o mundo.
Eu sabia quem me lembrava.
"Sabe, garoto…" eu comecei. "Quando crescer eu quero ser igual você."
Lembrava aquele eu que pensava ter perdido. Aquele garoto lembrava a mim.
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Atualizado em: Seg 21 Jan 2019
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